sexta-feira, janeiro 20, 2006

Dos sons que tiram os sonhos daqui

Treze vezes o relógio bateu e ele relutou em acordar. Mexera-se levemente, abrindo os olhos por não mais do que dois segundos para encarar o raio de sol que fugia por entre a fresta na cortina. Estava calor. Ainda não conseguia raciocinar direito, a cabeça lenta que acabava de despertar. Aos poucos, lembrara que sonhara durante a noite. ?Mas todos sonham?, o leitor irá dizer. E eu digo: não ele. Não ele, que desconhecia até o sonhar acordado. Cético, talvez sequer conseguisse visualizar a realidade. Mas as treze badaladas do relógio lhe disseram algo, e a preguiça precisava lhe abandonar. Seu corpo fez algum esforço, reclamou, mas enfim tomou movimento.

Levantou-se. A cozinha não era longe, e sabia que havia um resto de leite na geladeira. No caminho, jornais espalhados tentavam atrapalhar os pés que cismavam em se arrastar. Esfregou os olhos com força, tentando injetar ânimo em ao menos um dos sentidos. De pouco adiantou. Era início de tarde, mas tudo cheirava a manhã. Mais uma vez a lembrança de um sonho tomou-lhe a mente e se foi com o primeiro gole de leite. Era bom sentir um líquido que não tirasse seus sentidos descer pela goela depois de tantos dias. A cabeça agradecia.

Estava desperto agora. Inquieto. Sentia fome. Sabia bem aquela sensação. Afinal, sentia fome há vários dias. Nem por isso tentava comer. Talvez achasse bom sentir seu corpo declarando-se vivo. Nessas horas costumava lembrar que havia algo com que se preocupar além de olhar o teto ou estalar os dedos. De vez em quando, tomava uma atitude e fazia algo de produtivo. Refletiu por alguns segundos, buscando algo que lhe desse sentido naquele cedo-tarde dia. Nada lhe ocorreu.

Deitou-se. A sensação de que tivera um sonho antes lhe preencheu outra vez. Fechou os olhos. Quis dormir.

De repente existia algum sentido que o tempo não dissesse. Calou os sons que lhe tiravam dali.

sábado, novembro 05, 2005

"Indo embora, deixo-te um adeus"*

E o silêncio fez-se de novo quando o telefone alcançou a mesa. Não o silêncio do espaço, mas o silêncio da alma, aquele que confirma dolorosamente o vazio deixado por uma partida, a angústia causada por uma recusa, a tristeza vinda de uma palavra não-dita. Era ele contra o mundo, de novo. E não havia riso, por isso do silêncio fez-se o pranto, constante e intenso. Uma dor que saía dali e se respaldava ao sul, como se migrasse em busca de lugar melhor para se alojar. Mas lá só encontrava felicidade, alívio, e retornava ao seu centro, solitária, única e inquietante. Enquanto isso, as mãos percorriam a face, tentando em vão conter as lágrimas, e a boca se retorcia, trêmula. Ele pensava conhecer a sensação, mas só agora, vivendo, entendia o que tantas vezes as histórias de amor tentaram lhe dizer em forma de aviso. E chorava como criança, desesperado, buscando justificativas que não existiam e repetindo para si mesmo que não podia ter sido em vão. Talvez precisasse ter aprendido a não esperar tanto, ou então a não acreditar que existia respaldo no impossível. Só que era ingênuo no que falava ao coração, e se deixava trair sempre que buscava melhorar. Dessa vez, porém, havia sido mais. O gesto era familiar. A dor, incomparável. Os protagonistas os mesmos. Bastava mudar o final.

E foi assim que ele partiu para não mais voltar.

*por Marcelo Camelo, em "Tenha Dó"

domingo, outubro 16, 2005

Da distância que teima em voltar

Levantou-se e partiu. Apressado, descalço, ansioso. Não tinha caminho, nem direção. Desde cedo aprendera a se guiar pelo que não era óbvio. Era sempre assim. Acordava e seguia, fazendo do seu dia o que o dia queria que fosse. Vítima da casualidade, vivia sorrindo. Talvez minimizar as expectativas também minimizasse as decepções. Era uma hipótese, mas ninguém sabia ao certo. Ele não falava. Apenas seguia, cabeça erguida, olhar atento. Para onde, não faria diferença. Bastava ir.

Cada dia era o começo de tudo. Como uma tela em branco que, recebendo pinceladas de preto a esmo, ganha forma e sentido, sombra e luz. Andando, tudo ia se preenchendo. Estrada, tela, vida. Partida virando chegada. Chegada virando sentido. Sem direção, sem noção, sem pensar. O vento mudando de lugar. O silêncio dizendo que sim.

Apenas o coração a esperar...

quarta-feira, agosto 31, 2005

Antes da fuga

Ele olhava para as mãos, fascinado. Talvez nunca tenha reparado antes nos dedos, ágeis, finos e delicados, deslizando sobre as teclas do piano. Não ouvia a música, nem faria diferença. A visão era o sentido principal, olhos parados em contemplação. Não sorria. Mal sabia se respirava. No peito, oco, um sinal de alerta. E as mãos seguiam seu caminho, sua rotina, seu destino.

Um vento leve soprava em seu rosto. A janela entreaberta era a possível culpada, de onde vinha também o raio de sol que se insinuava preguiçoso ao final da pauta. Não era um dia quente, nem frio. De repente nem mais era dia, ou o mesmo. Sabia que as horas de sua vida não respeitavam a imortalidade que os belos momentos mereciam, por isso aprendera a ignorá-las. Contudo, não contava o segredo a ninguém.

Era preciso ser esperto, afinal.

terça-feira, julho 26, 2005

Quando dois e dois são nada

Duas vezes eles se viram, e não mais do que isso seria necessário.

Na primeira, mal trocaram olhares, tímidos ou receosos que eram - só notaram um ao outro, o que bastava naquele espaço mínimo onde pessoas dançavam despretensiosamente. Eram dois estranhos em um lugar mais estranho ainda, com pessoas que pareciam se ignorar, fechadas em seus mundos de luzes, álcool e som. A eles só restava a solidão da normalidade, de quem ainda achava que o ser humano nasceu para se relacionar com o outro, mas eram traídos pela própria falta de iniciativa, e assim ficavam como todos os demais, fingindo não perceber nada que se passava à sua volta. Seria uma noite curta, ainda que eles não a sentissem assim.

Ela queria pegar sua mão. Ele, dizer coisas ao seu ouvido. Só que se afastavam, quase alcançando o limite das paredes. Saíram de lá em horas ímpares, sem serem um par. Sem esperança de se reencontrarem também.

O segundo encontro parecia inadequado, mas inevitável. Fazia sol, havia gente na rua e pouco espaço para pensar. Eles eram filme, e se esbarraram de repente. Ela sorriu desajeitada, ele pegou sua bolsa caída ao chão. Pediram desculpas, mas não se foram. Também nada diziam. Sabiam que não eram dois quaisquer, mas não sabiam como agir para não sê-los. Atabalhoados, seguiram adiante. Ônibus e carros também. Ela na contramão do fluxo, ele na contramão da vida. Talvez pudessem ser felizes assim.

Mas seria o mesmo se ela tivesse olhado para trás?

domingo, junho 19, 2005

Saquarema (ou um lugar de mim que ainda não se perdeu)

Eu via a bicicleta, mas não via mais a rua. Era de barro, eu me lembro, nada daquele cimento que só machuca quando a gente cai e que deixa tudo tão cinza que dá até vontade de pegar o lápis de cor e pintar por cima para ver se o mundo volta a ter vida. Mas só tinha a bicicleta, e eu sabia que precisava subir e andar.

Havia o sol também, eu sentia, mas parecia que o calor que vinha de fora não tirava o frio que batia aqui dentro, e que eu mesmo grande agora não ia conseguir alcançá-lo como um dia achei que ia ser capaz. É longe, eu sei, mas sempre sonhei em ir até lá. Que nem quando vi a lua pela primeira vez. Não, não era a primeira vez, com certeza não, eu já tinha visto antes, mas não apaixonado, e aí é muito diferente. É incrível como tudo muda, e como você cresce, e como se torna pequeno para tanta vontade. O fato é que eu também queria ir até lá, e nunca consegui. Nem a pé, nem de bicicleta - por mais que tentasse, sempre estava longe.

Eu via o balanço, a árvore, a bola jogada no quintal e o verde-amarelado da grama sob o sol do fim da tarde, mas não tinha mais ninguém ali. Se fechasse os olhos, talvez ainda fosse capaz de me ver correndo com meus primos pra lá e pra cá, despreocupados, crianças que nunca deveríamos ter deixado de ser. Ali éramos vivos, éramos amigos, éramos felizes. E de repente a gente cresceu, e o mundo diminuiu, e os sonhos escaparam dos olhos brilhantes para virarem chagas nas mãos duras de realidade. E o que sobrou para hoje, além de pequenos pontos que vivem a cintilar nas nossas memórias?

Havia o vento também, os cabelos sentiam, mas parecia que ele estava a favor de nós, soprando nossos caminhos e dizendo que era preciso seguir em frente, levando a vida a seu sabor. Só que a gente acaba sempre indo contra, e tudo fica tão difícil que uma hora as pernas sentem o cansaço e só nos resta sentar e esperar. Não, não é pra ser assim, a gente não pode ver o filme da vida sentado na primeira fila, precisa ser protagonista, diretor, roteirista... dono. E esquecer essa história de destino, essa coisa de que todos um dia viramos adultos sérios e comprometidos com o bem da humanidade. Um absurdo, se nem o nosso bem a gente se preocupava em fazer, apenas vivia, e isso bastava.

Eu via possibilidades. Eu via estrelas. Eu via vocês. E éramos de novo os mesmos inocentes.

segunda-feira, maio 23, 2005

Finitude

Estendeu a mão e não alcançou nada. Estranhou aquilo, mas tentou de novo. Vazio. Seus olhos, porém, continuavam a ver as formas à sua frente. Não fazia sentido. Era capaz de sentir a energia que vinha, uma força de presente e de passado, com referências que o inquietavam. Tinha a sensação de que as coisas sempre estiveram ali, apenas esperando para serem associadas. Só ele era capaz de ver. E ela. Só que ela já não mais queria enxergar, deixava as luzes se apagarem e as formas se esvaírem, mesmo sabendo que bastava o seu olhar para tudo voltar a existir. Os braços dela agora estavam cruzados, e sozinho ele não conseguia alcançar. Mas tudo lembrava, tudo o chamava, tudo ainda era. Não haveria de sumir, pois já tinha vida própria - não eram coisas simplesmente, mas as coisas deles, construídas, planejadas, sonhadas, com ou sem forma para o mundo, reais. E é por isso que os olhos dele ainda vêem, mas as mãos não conseguem tocar, porque nunca tocaram, nunca puderam sentir como era a matéria. Não que não tivesse desejado; somente não havia ido até lá. Assim, fechava os olhos toda noite esperando não ver mais nada ao acordar, ainda que soubesse quão inútil aquilo era. E se via feliz depois porque as coisas estavam dentro de si, fortes, pulsantes, intensas, e o vazio não era verdadeiro. Promessas, "pontos-em-comum" e o que ainda estava por construir. Tudo como sempre e como nunca. Por isso as mãos dele insistiam em buscar - só cessariam se ele parasse de existir. Os olhos fugiam, mas não tinham por quê. Aquelas luzes jamais iriam se apagar.

sábado, abril 23, 2005

Pequeno dicionário do silêncio e do pensamento

Abria a boca e não emitia um som sequer. Sentia-se preso dentro de seu próprio corpo, os sentimentos pedindo para saírem e ele, angustiado, incapaz de libertar tudo aquilo que apertava o peito. Doía não poder mostrar o que tinha em si, ainda que fosse capaz de compreender tudo aquilo que o cercava. De sua boca vinham apenas grunhidos impossíveis de ser entendidos, um misto de angústia e vontade de liberdade, uma aflição que parecia não ter fim. Talvez por isso seus olhos dissessem tanto, cada olhar imprimindo uma verdade ao mundo que poucos seriam capazes de notar. Mas a visão humana era limitada, ele sabia, por isso, por mais que enxergasse além do óbvio, aquilo era só seu, não havia como compartilhar. E assim muitas vezes pensava em se entregar, desistir, porque o caminho que ele via era só seu, e não tinha sentido seguir sozinho.

Só que havia um farol, então continuava ali. Uma luz lhe dava a direção, e o brilho que vinha do horizonte era tão intenso e reconfortante que o fazia insistir em perseguí-lo. Ali não precisava dos sons, nem dos gestos; quem o visse perceberia que era o lugar certo, e que ali encontraria a paz. Porque não havia palavras que dissessem tudo quanto era necessário naquele instante, que fossem precisas o suficiente para explicar o que só se sentia. Não havia prisão. Não havia corpo. Não havia nada. Mas havia sentido. E era tudo que bastava para ele se sentir bem assim.

Um dia, porém, tudo era escuro. A luz não mais piscava, os sons não mais existiam, o olhar não mais falava. Era só tristeza, um reflexo opaco num espelho partido.

Nunca entendera o que se passara para a vida se transformar daquele jeito. Como não tinha as palavras, era incapaz de explicar.

Melhor seria se ficasse assim.

A isso deram o nome saudade.

domingo, abril 03, 2005

As formas que se tornam parte *

* com os devidos agradecimentos à Amanda pela frase inspiradora do texto.

Ela pedia o silêncio de volta enquanto abria a gaveta da cômoda. Da caixa de madeira, cartas caíram por cima do lençol molhado de lágrimas, abertas grosseiramente com a ânsia típica dos amantes. Sentou-se. As pernas cruzadas, os óculos recostados na ponta do nariz, a luz baixa da luminária escondendo-a na semi-escuridão. Eram palavras agora, não mais do que palavras, mas para ela eram tiros, facadas, tapas. Era dor. E só ouvia barulho agora dentro de si mesma. Cada parte sua parecia gritar, querendo ir embora de vez. Mas ela nunca se separava, e só o que fazia era voltar ao passado, como se assim o tempo fosse passar. E toda noite aquelas cartas estavam ali, aquela cama estava ali, e ela não estava mais.

O ritual era sempre o mesmo, e toda noite começava e terminava da mesma forma. Lia cada palavra já decorada, levantava-se, abria a janela, respirava fundo como se pudesse tragar a pureza da lua lá fora e retornava para sua penumbra, deixando o pensamento vago e o coração aflito. Abria um livro, olhava para as outras palavras, aquelas que eram ditas para todos e para ninguém, e sabia que ali não havia o seu sentido. Só não percebia que nas cartas também não, porque aquela não era mais sua vida, nem ele era mais seu. Como não era mais seu o sangue que escorria quando fechava os olhos ou os sussurros que saíam de dentro de si quando tentava se calar. Só ela ainda acreditava que era ela.

Talvez porque a porta ainda se movesse, o armário se tornasse imenso e ela fosse tão pequena dentro daquele quarto, não conseguia se encontrar mais em si. Mas a verdade é que era mais dúvida que certeza, e não havia como deixar de ser assim.

Ali, esperava. E escrevia apenas o que precisava ainda dizer.

"Lembrei de você no meu fim também..."

segunda-feira, março 07, 2005

Sobre o que é real e coisas pequenas

Achava que conhecia todas as dores do mundo, mas no seu peito estourava agora uma que era avassaladora, única. Mal conseguia respirar, e em sua consciência pairava a dúvida de um outro destino não traçado. Pesava. Não o peso do mundo, como se costuma dizer; um ainda maior, insuportável: o do vazio. E aquilo que parecia paradoxal nele tomava forma, cristalizando uma tristeza que cismava em se refugiar na mudez de um soluço contido, nas lágrimas amargas que nasciam e morriam nos olhos. Era dor e inverno, melancolia e outono. Era silêncio, um silêncio injusto e indesejado, característico das grandes perdas. Era solidão. Era ausência. Era.

Porque ela foi. E se foi.

segunda-feira, fevereiro 21, 2005

àsvezesquasenuncaparasempre

Ela fechou os olhos, ele esticou a mão. O rosto fora tocado de leve, enquanto a lágrima que escorria de um dos olhos era desviada de seu fatídico destino, o chão. Não havia som ali, nem mesmo o choro contido de um sofrimento incomum. Talvez nem respiração existisse naquele momento; apenas um gesto e nada mais. O tempo até poderia ser medido, se um instante como aquele coubesse em um lugar pequeno como o universo, mas eles mesmos não desejavam saber. Estavam, eram, foram. O que mais precisava existir?

Ele mexeu os lábios, ela levou seu dedo a eles. Não havia porque buscar palavras, pois elas não seriam capazes de significar algo assim. Não devia existir movimento, sob o risco de esvanecer o belo. Eram dois e um só, a união perfeita da imperfeição humana. Impossível definir o que se passava em corações paradoxais como aqueles: eram dor e alegria, distância e companhia. Completavam-se, apenas. Não sabiam ainda, é verdade, e talvez nem saberiam um dia, mas a incógnita não os incomodava. Já sabiam o principal.

Havia o toque da mão, o rosto lívido e o ar rarefeito, nada mais. E tudo era suficientemente único ali.

terça-feira, fevereiro 08, 2005

Reinvenção

Ele olhava para as mãos trêmulas e sentia que havia algo de errado. Ainda que não sentisse nada diferente, seu corpo parecia reagir de forma estranha ao que o cercava naquele instante. O cenário permanecia intacto: vidros quebrados, móveis revirados, fotos e cartas espalhadas. Não conseguia lembrar a origem do caos que se instaurara ali, apesar de saber que tinha sido ele o responsável por tamanha destruição. Havia perdido o controle, mas não conseguia ainda se dar conta disso.

Seus olhos encheram d?água quando avistaram, no sofá, um velho porta-retratos destruído. Tinha colocado fim à única lembrança de sua infância que ainda guardava: uma foto de quando era criança, em algum carnaval já distante, inocentemente fantasiado de Super-homem. Não conseguiu deixar de perceber a ironia do momento: o pequeno infante, vestido de super-herói, despedia-se do mundo de fantasias e surgia como um homem adulto, fraco, indefeso, despreparado. Uma lágrima tímida escorreu pela face, então.

Caminhava pela sala do apartamento, analisando o estrago que ele mesmo tinha promovido, ainda que sem consciência. Nada, porém, doía mais do que aquele porta-retratos abandonado no sofá, desfalecido. Procurava em cada objeto fora da ordem natural a razão para aquilo tudo ter se originado, mas só obtinha novas perguntas. Voltava a partes remotas de seu passado a todo instante, e se odiava mais por isso. Preferia passar longe de tudo aquilo, e só agora notara o quanto estar ali ao longo de tanto tempo o fazia mal.

De súbito, parou frente ao espelho. Examinou-se atentamente. Os cabelos brancos começavam a surgir, apesar da idade. Seu semblante trazia o peso de quem vivera infeliz até então, com um sorriso que nunca se realizava e um olhar que trazia dor. Da rua, ouvia vida. Sons de folia. Correu até a janela e observou a alegria lá embaixo. Sentou-se, as pernas balançando ao ar. Era um dia quente. Virou-se para a sala, notou mais uma vez a confusão que havia causado ali e entendeu finalmente a grande metáfora que havia feito de sua vida.

Pulou para dentro e correu para a rua.

Crescera ouvindo que o ano só começava depois do Carnaval.

Talvez ele também precisasse ser assim.

sexta-feira, dezembro 24, 2004

Roteiro inacabado

"O que você faria se não tivesse medo?"

A pergunta visitava sua mente de minuto em minuto, em uma repetição enlouquecedora.

Procurava centenas de respostas, mas, no fundo, já sabia.

"Arriscaria para ser feliz".

E foi assim que ele resolveu.

O amor não tardaria em se concretizar.

segunda-feira, dezembro 13, 2004

Sobre ele, sobra ela

Ele tinha medo. Sabia que não fazia sentido, sabia que a situação era favorável a ele, mas mesmo assim não conseguia obter a segurança necessária para não se preocupar a cada segundo com a possibilidade da perda. Talvez porque, pela primeira vez, tivesse a noção de que tinha em mãos algo de muito de valor, algo com que sempre sonhara e nunca conseguira alcançar. Custava até a acreditar que tinha alcançado, e muitas vezes colocava tudo a perder por causa dessa desconfiança. O fato era que ela estava ali, apesar de todas as dificuldades existentes, e ele simplesmente não sabia como fazer para não deixá-la sair de perto. Deveria saber que, para isso, só bastava sê-lo, pois fôra assim que chegara até ali. Mas não. Tinha a sensação de que tudo que fizesse era pouco, que a qualquer instante os castelos de areia poderiam ruir e seus sonhos se perderiam de vez. E não adiantava as palavras ditas, as confissões trocadas e as juras de amor infinitas; ele não se convencia, talvez traído pela própria consciência de quem não aprendeu a amar e não acredita que possa ser amado por alguém. Por vezes se rendia à impossibilidade da situação, descrente na concretização de um sentimento que parecia atravessar quilômetros em estradas sem fim. Porém, ao dormir, tinha a certeza de que o pensamento sublimava, e eles se encontravam, ainda que no campo em que só os amantes à moda antiga costumavam caminhar. E era ali que tudo fazia sentido, que não havia imperfeições, dúvidas ou dificuldades, apenas dois se tornando um, a felicidade no estado mais simples de sua complexidade. Quando a chuva ia embora, mas o sol não aparecia, nem a lua, porque não havia mais a noção de tempo, nem de espaço, só de que não há medida para a paixão. Porque o amor não se dá calado, eles bem sabem (ao menos nos sonhos eles sabem). Ele tinha medo, é verdade. "Não há motivos para isso", ela costumava dizer. Mas ele sabia que o amor não podia ser compartilhado além de dois. Por isso tinha medo. E ela continuava ali.

Esperando.

domingo, dezembro 05, 2004

Texto novo sim, é claro. Mas não aqui. No outro. Driving In The Rain.

sábado, novembro 27, 2004

.viena.paris.rio de janeiro.

"6 anos podem ser 6 dias", era só o que ele pensava quando pousou a cabeça no travesseiro e tentou, em vão, dormir, naquela que seria a noite curta mais longa de toda a sua vida. Já era quase amanhecer quando a voz sumiu e ele passou a sonhar, ainda que seus olhos se mantivessem abertos. Mas não se importava. Havia redescoberto uma direção, encaixado as peças de seu quebra-cabeça existencial depois de uma interrupção abrupta e inexplicável. O outro lado continuava ali, e nada parecia absurdo. Ainda que o tempo tivesse sido tão impiedoso a ponto de manter o vazio existente por tanto tempo, era fácil continuar agora. Eram iguais a antes, ainda que diferentes por tudo. E ele sentia que algo não se perdera dali. O sentido se estabelecera com a possibilidade do reencontro a existir. Porque não faria sentido tudo acabar com um adeus ao entrar no avião.

terça-feira, novembro 16, 2004

Entre engrenagens e tintas

"Toda decisão tem um peso, não adianta tentar fugir", disse ele após olhar nos olhos dela e sentir que havia dúvida pairando ali. Vivera aquela situação incontáveis vezes ao longo de sua breve existência, talvez por isso a frase saísse de seus lábios com tanta facilidade que não representava os tortuosos caminhos que o levaram a essa conclusão. E ela permanecia imóvel, serena, como se não existissem palavras que a atingissem naquele momento. Mas ele sabia que por dentro ela estava dividida, que, por mais que ela tentasse fugir, uma hora a resposta surgiria, e a opção acertada surgiria. Acertada porque aprendera que não havia no mundo opção "errada", todas eram acertadas, ainda que sob uma ótica que só alguns pudessem entender - e isso seria a causa do sofrimento. O fato era que ele sabia que estava avançando no escuro. Não temia, porém. Sempre repetiu que a vida é feita de riscos e curta demais para se ter medo de buscar o melhor. Pena que não conseguia convencê-la a pensar assim também.

"Toda decisão tem um peso, não adianta tentar fugir", pensava ele, enquanto ela desviava de seu olhar. Ele sabia que ela tinha muito mais a perder, mas era seu egoísmo que falava mais alto, e só conseguia pensar em como seria bom se ela se resolvesse por aquilo que era favorável a ele. No fundo, tinha receio de não saber arcar com essa decisão, só que sabia que a certeza apenas seria alcançada pela tentativa. Era preciso achar o lugar dos dois, encontrar-se nela, realizar-se, completar-se, ainda que por um breve momento ou mesmo por toda a eternidade. Não se importaria em ser clichê. Desafiaria o mundo, se isso se mostrasse necessário. E iria insistir. Ainda acreditava em sua intuição, presságios ou coisas do gênero, por mais que fosse um resquício bobo de infância ou pura ingenuidade dos amantes de outras décadas.

"Toda decisão tem um peso, não adianta tentar fugir", escrevia ele, ao mesmo tempo que ouvia Sinatra cantar "Can't Take My Eyes Off Of You" e olhava para o relógio apontando onze horas da noite.

Era terça-feira, chovia no Rio de Janeiro e ele estava em casa. Sabia que o mundo lá fora fugia de seu alcance, mas mesmo assim não temia. Apenas esperava.

Como um ponto final que pacientemente aguarda o seu lugar para selar o destino de um texto triste.

segunda-feira, novembro 15, 2004

Se não há atualização aqui, ressuscita-se lá.

Depois de um ano, o DITR está volta. É só clicar aí do lado e ler.

Em breve, texto novo nesse espaço.
Abraços!

quarta-feira, outubro 20, 2004

O sentido de lá

As ruas eram tortas, mas ele cismava em andar em linha reta. Tinha os passos firmes, a respiração acelerada e a cabeça erguida, traços de quem sabe o que faz. Por dentro, porém, dividia-se em vários, fragmentos de alma que se ressentiam a cada emoção despertada. Aprendera desde cedo que o ser humano era aquilo que aparentava ser, e não o que era de fato, e talvez por isso acreditasse mais na sua imagem projetada do que em sua própria essência. Era criador e criatura em contato sistemático, harmonia de cores como somente o preto e o branco são capazes de compor, fortalecidos pelo contraste. Contraste que ele mesmo era; dicotomia, paradoxo. Imagem ausente frente ao espelho, formas difusas em uma fotografia. Era único, ser singular e irreal. Porém cismava em andar em linha reta, com os passos firmes, a respiração acelerada e a cabeça erguida, traços de quem quer se convencer de que é maior que o mundo, ainda que o céu sempre prove com sua infinitude que há muito mais além de si mesmo. Mas o olhar seguia perdido em esperanças vãs, na crença de que ainda podia ser diferente, melhor do que fôra até então. E aí não bastava o mundo a confrontar, porque o ato de desencorajar já não era o bastante. É quando se descobre que há a capacidade de ir além, ainda que a insegurança insista em por vezes levar para baixo a sensação de plenitude, lembrando que nunca se sabe o que é o certo a se fazer. Só que as linhas tortas só assim as são para quem não enxerga que só há um caminho a se seguir, e que mesmo o erro é o acerto inevitável da imprevisibilidade da vida. Ele sabia. Por isso nunca olhava para baixo, nunca cerrava os punhos ou relutava em pisar em qualquer caminho. E era feliz assim.

segunda-feira, setembro 27, 2004

Depois das luzes acenderem

Sempre achei que haveria um momento que justificaria toda a nossa existência. Aquele em que tudo se esclareceria, que as respostas seriam dadas e o verdadeiro sentido enfim apareceria. Talvez fosse um sentimento pueril, uma inocência perdida que atenuasse qualquer sofrimento, mas o fato é que sempre esteve comigo, apesar de poucas vezes eu manifestá-lo. Até chegar o amanhecer e o pôr-do-sol, e Viena e Paris explicarem para mim que eu não estava errado, que mesmo após 9 anos algo ainda podia fazer sentido para dois, e que comigo, um dia, não haveria de ser diferente. E as expectativas frustradas e as buscas insanas e as tentativas equivocadas seriam mero pretexto para alcançar o fim, por saber que há um, e somente um, encontro que se completa, que se faz por inteiro. Com olhares, gestos e sensações que nunca se igualam, e que por mais que se viva uma eternidade ficará como a mais forte lembrança. Porque há sempre o reencontro para quem acredita que o primeiro era o único e o certo, e não há mal algum em crer no amor romântico e eterno mesmo depois da adolescência. Todos nós merecemos, ainda que não tenhamos encontrado até então. Ninguém quer chegar aos 52 anos e se divorciar chorando por nunca ter amado a esposa. Eu não serei assim. Sigo esperando acontecer, pois hoje aprendi que Cèline e Jesse vão sempre me justificar.

quarta-feira, setembro 01, 2004

Mal pontuado

Mal ligou o rádio e o primeiro acorde da canção preencheu o ambiente e seu pensamento. Não era preciso ir muito longe para buscar a referência: era a música dela, a mesma que um dia, ao olhar em seus olhos, ele dissera que desejava ter o mínimo de talento para criar algo com palavras que fossem tão apropriadas para defini-la, e que ela sorriu desajeitada e disse que a poesia não tinha dono, desde que o sentimento empregado por quem a declamasse fosse honesto. Podia passar anos sem ouvi-la que não perderia a referência. "Há momentos que são fortes, ainda que breves", ele repetia enquanto se olhava no espelho, os olhos cansados da noite mal dormida e a barba por fazer de quem se sentia vencido pela preguiça. Caía ao chão diariamente, e a sensação de se reerguer era única, uma superação hercúlea. Das mãos não brotavam mais nada, pois estavam fechadas para os ataques às paredes do quarto manifestadas em horas variadas.

A porta do armário não fechava, ela sabia bem, por isso nem se esforçava em tentar arrumar. Até sua mania de colocar tudo em seu devido lugar precisava ter fim. Se nem ela estava se achando apropriada, por que o restante deveria ser? Não havia motivos. Mas ela sabia que não adiantava fugir do espelho, que as paredes podiam ser opressoras se não respeitadas e que tentar ouvir a música que sussurrava ao fundo, do outro lado da casa, era inútil se não estivesse aberta para as conseqüências disso. Anos eram pouco para quem se interessara um dia por mais do que a poesia torta que beira as canções desperdiçadas nas bocas e mãos de amantes ocasionais. "Sou mais do que simples palavras", ela dizia para si, fechada em seu íntimo como quem perdeu a chance de ser diferente do que sempre esperaram que fosse.

Acreditar na fantasia fôra a saída para que tudo caminhasse até então. Alimentar a razão nunca fizera sentido. E tudo parecia tão distante agora que pensar era o que restava. Sem sonho eterno, sem promessa de um novo meio de se viver uma ilusão. Continuar para não acabar. Recomeçar do certo para esquecer os erros. A caneta era a chave, mas só o que se via eram guardanapos rabiscados. Não havia mais versos que unissem os dois. Somente ponto final.

terça-feira, agosto 24, 2004

Das voltas, o (re)início

Escreveu a última palavra e sorriu. Chegara ao fim de mais um texto, mesmo depois de tanto tempo sem escrever. Sentia-se livre novamente, longe do bloqueio que o fazia olhar para a folha em branco e só imaginar um destino para ela: o lixo. Cansara de falar das coisas tristes, cinzas e frias, de tudo aquilo que só fazia com que os outros se identificassem pelo lado mais obscuro, pela essência do sofrimento. Não, não era mais o seu caminho. Almejava aprender a usar suas palavras de forma mais positiva, sem clichês de "Londres-em-meio-à-névoa" e de "chuva-que-traz-saudade", e sabia que era possível. Talvez por isso aquela última palavra significasse tanto. Não era mais um peso, daí o sorriso, tão incomum. De fato, não havia sofrido para chegar até ali. Só tinha que achar os meios para continuar.

"Abriu os olhos e ergueu o corpo da cama. O livro havia terminado, a televisão não transmitia um filme que ele não tivesse visto. Olhou para todos os cds expostos na estante e percebeu que a música não trazia significado se enfurnada entre quatro paredes. Precisava soltar as amarras, precisava abrir as janelas e deixar o sol entrar uma vez, precisava sair, precisava. Ir. Sem saber para onde, sem saber por quê. Tal como no dia em que decidiu que devia buscar o seu espaço e se encontrar em si mesmo. Agora era a hora de perceber o que os outros podiam trazer para que ele alcançasse o ser completo, ainda que esse ser completo só se fizesse assim por breves minutos ou segundos. O quarto não era mais suficiente, seus objetos não eram mais suficientes. Seria mais."

Mas como saber o que viria a ser? Continuava rumo ao nada...

sábado, julho 31, 2004

Aviso aos leitores

O Rumo Ao Nada não morreu, apenas esteve de férias (longas, eu sei, mas acabaram). Promessa de texto novo ainda essa semana.

Enquanto isso, leiam os textos antigos, há coisas boas perdidas pelo site.

Abraços!

sábado, maio 22, 2004

Pecados Capitais

Era claro ainda quando tive seu abraço pela primeira vez. Nem mesmo o tempo nublado poderia estragar o que em mim surgia naquele momento. A vontade era de não soltar mais, aproveitar cada momento daquele gesto dócil, lento e confortável, mas de tão inesperado, só consegui reagir de forma atolada, quase como o menino ingênuo que tem um beijo roubado pela amiga no pátio na hora do recreio e só consegue olhar para os amigos e sorrir, sem graça. Você tinha o domínio da situação ali, ainda que não soubesse disso. As horas que se seguiriam não levariam do pensamento o que acabara de acontecer, e o meu olhar a buscar o seu em meio a centenas de cores de pessoas era independente de mim, desobediente e afoito.

Quando nos afastamos, pairei sobre seus olhos mais uma vez. O brilho deles me lembrou os motivos pelos quais havia me fascinado quando a conheci, e desejei que você voltasse àquela sala mais vezes só para tê-los em minha direção novamente. Balbuciava palavras ilógicas, tentando agradar sem nem pensar como. O intuito talvez fosse apenas prendê-la ali, deixa-la mais tempo ao meu lado, nem que fosse para sentir sua presença me desconcertando. Mas você não se demorou muito, e eu me vi em seguida projetando maneiras de nos encontrarmos outras vezes momentos após, lutando contra a inevitabilidade do dia que iria embora em breve. A partir dali, conformei-me em observá-la ao longe, imaginando que você pudesse estar fazendo o mesmo, calcado em uma ingenuidade que há muito me abandonara.

Inquieto, circulava por todo o local, à espera de que seus passos encontrassem os meus. Por outro momento estivemos perto, mas o tempo que levei me questionando se deveria me aproximar foi o mesmo que a levou embora dali. Passei então a torcer pelo fim, para que a escuridão tomasse conta de tudo ? de repente assim haveria uma nova oportunidade. Nada mais detinha minha atenção. A mente com seu sorriso preenchendo, seu abraço sentido a todo instante, meus ouvidos agraciados com a sua voz. Você já me tinha, mesmo que não quisesse. E eu sabia que a partir de então só seria eu se a trouxesse também para mim.

Já não havia mais esperanças quando resolvi ir embora e a vi ali parada, sozinha, vestida de negro como a noite que se fazia reduto perfeito para um final feliz. Chamei-a. Você sorriu mais uma vez e novamente me abraçou. Dessa vez sentia que aquele era o lugar certo, e correspondi com todo o carinho que queria poder lhe dar pelo resto da vida. Só que uma hora acabou, e quando tive de me despedir, só consegui pedir que você aparecesse pelo menos mais uma vez onde nos conhecemos e ser reticente ao deixar escapar que gosto muito de você. Não devo ter sido tão claro quanto queria, nunca sei sê-lo, porém não saberia fazer diferente com você.

Talvez no dia em que seus olhos não forem capazes de me fazer sentir como um apaixonado, eu consiga fazer você entender o quanto quero você aqui.

domingo, maio 02, 2004

Entre pontos e vírgulas

O que é fazer poesia para quem não sabe ler? Será que há cor nas palavras de quem vê em branco e preto?

Era tudo o princípio. Ainda se via a liberdade pelos seus olhos, e o cinza que fechava o dia era exceção, não a tônica de um mundo particular. E ela sabia, por isso se punha a escrever sobre além do que se vê, ainda que essa percepção pudesse ser sua, só sua, e a dele fosse tão fechada que seria impossível acreditar no novo não concreto.

Mas ela tinha a palavra para enfrentar o seu olhar, e ele fugia para não ter sua verdade descoberta assim. Ignorara a poesia até então, certo de que não havia entrelinhas que justificassem a crença em um outro lugar (talvez não quisesse se achar), mas perdera seu lugar no chão enfim. Caótico, buscava sempre o entendimento, só não o esperava por olhos que não fossem os seus. Afastou-se, por fim.

Era preciso continuar a ver o sol se pôr sozinho.

terça-feira, abril 13, 2004

Plano-seqüência

Respirou fundo, abriu os olhos e se levantou do chão. Não havia mais ninguém ali, e a chuva que caía do lado de fora era menos triste que as velas acesas por toda parte, ainda que se fizesse luz em meio ao breu naquele instante. Caminhou com passos pesados até a porta, ouvindo atento cada pequeno som que pudesse mudar seu destino (ele não acreditava nisso, mas agora tudo parecia tão irreal que talvez houvesse lógica no absurdo). Chovia forte agora e nada se via lá fora. Abriu a porta. Não havia mais o que o prendesse ali. Seus braços esticados como asas e uma corrida sem pensar. Lágrimas escorriam dos olhos. A água gelada em seu corpo trouxe de volta o alívio que anos de angústia levaram com sua vontade de viver. Nada se via. Só seu corpo parecia capaz de sentir. Abraçou a si mesmo com forças e deixou seu corpo escorregar para o chão. Ali mesmo dormiu, jogado a ratos e sujeira que sintetizavam sua existência.

terça-feira, março 09, 2004

Leaving Here

O dia estava calado. Ele olhava para o horizonte, aflito, e não encontrava uma resposta. Sentia que o mundo mudara desde o momento em que aquelas palavras caíram em seus ouvidos, porém não sabia precisar o que viria a partir de agora. Estava sentado em uma praça, o céu escuro de um fim de tarde atípico e o corpo cansado de tanta responsabilidade. Nem as crianças no parque pareciam sorrir, entediadas com seus brinquedos velhos e os olhares displicentes de suas babás. Ele era único ali. Sua pouca idade pesava mais do que o aceitável para alguém que quase nada sabia da vida adulta, e a falta de perspectivas que lhe tomava agora doía demais. Havia perdido a vontade de agir, apesar de não aceitar os acontecimentos. Fora traído em seu íntimo, a confiança abalada no futuro de tudo aquilo e o medo do fracasso de volta à tona. Chorou. Gotas de chuva caíam dos céus, que eram cúmplices mudos daquela tristeza. Apenas um sinal de que podia sentir-se assim era o que ele conseguia enxergar, mas a resposta do mundo tinha chegado enfim. A melancolia da tarde pintava o quadro do fim de um tempo. Não existia mais saída. Fechou os olhos e correu em direção ao mar. A luz do dia acenou tímida, escapando de sua prisão. Os dois estavam livres de novo.

terça-feira, março 02, 2004

Irreversível

Apenas um sorriso dela e ele soube que estava de volta. Achava que já tinha se acostumado com a sua ausência, sem sentir o vazio no quarto com a cama desarrumada e os pés descalços, mas a verdade é que ainda era ela ali, e só isso bastava para mexer com ele. As pernas quiseram tremer, confusas, enquanto as mãos se escondiam nos bolsos de criança tímida. Fez-se silêncio apesar do vento que soprava as folhas lá fora. Ela não se importava. Era claro ainda, o dia parecia eterno. Dois passos. Um abraço. Ela parecia não existir. Os olhos dele se fecharam e só abriram quando ela se afastava lenta pela estrada de barro. Ele não foi atrás. Conhecia aquele gesto como poucos. O sol se escondeu em meio às nuvens e ele virou as costas. Havia vencido o reencontro enfim.

terça-feira, janeiro 20, 2004

Mais do Mesmo Início

Olhou pela primeira vez depois de anos para a velha foto da casa onde passara a infância e sentiu saudades. Uma lágrima quase escorreu pelo rosto, mas foi contida pela mesma mão que há pouco achara aquela lembrança jogada embaixo de papéis na gaveta da cômoda ao lado da cama. O dia já tinha ido embora, e a pequena luz que iluminava o quarto de súbito tornou-se desconfortável para seus olhos. Achar aquela imagem em papel desbotado, quase sépia, significava voltar duas décadas no tempo, a uma época em que decisões não eram tão penosas e sua vida não havia mudado tanto. Olhava-se no espelho agora e sentia o peso de uma idade que não parecia ser a sua, curvada pelas responsabilidades que lhe vieram tão cedo e sem que desejasse. Não era mais forte, e só ela sabia disso. Antes, pouco importava como reagia ao que lhe vinha de repente, acostumada que era a não se importar com o diferente. Agora, tremia pelo inesperado, fugia do obscuro que o destino lhe trazia como oportunidade. Talvez tivesse se perdido na própria rotina que criara ao optar por viver sozinha desde que tudo se foi e não conseguia mais se achar em si mesma. Estava cansada de tentar definir. Aquela velha foto da casa onde passara a infância lhe dizia muito mais. Viu pela janela seu rosto alegre, brincando sozinha em seu quarto ainda bem nova. Ouviu os latidos do cachorro do vizinho e notou que a mangueira com que brincava no quintal nos dias de sol voltara a jorrar. Fechou os olhos e se sentiu em paz. Lágrimas escorreram livres pelo rosto, mas pela primeira vez em muito tempo, elas não eram de tristeza. Abriu os olhos e a foto continuava sépia. Guardou-a na gaveta, junto com o seu passado de meias rosadas e desenhos em papéis amassados. Era o fim daquela idade. Sabia que precisava seguir em frente.

quinta-feira, novembro 20, 2003

Cores da Noite do Fim

Quase dez da noite e só se ouvia o silêncio. Um leve vento brincava com a cortina da janela semi-aberta e a sala estava escura. Deitada no sofá, ela chorava discretamente, cartas espalhadas pelo chão e uma garrafa vazia de vinho tinto ao seu lado. Transbordava angústia, a consciência da solidão lhe perturbando enquanto tentava não sentir mais dor. Não conseguia esquecer aquele abraço, a despedida para um salto que só poderia terminar em nada. Ainda podia sentir o perfume dela, o toque leve nos cabelos que nunca ficam arrumados, e era impossível não sentir saudade. Aceitar os rumos que tudo tinha tomado era o primeiro passo, mas como seguir? Ficara pequena, abandonada em sua nova condição, e só pensava em quanto errou ao não valorizar o que tinha. Só quando o barulho arruinou uma noite de silêncio uma semana antes ela de fato sentiu. Havia sido tarde, porém. Tirou o rosto das almofadas e enxugou as lágrimas. Do sofá, sentiu que o vento a chamava para fora. Caminhou até a janela e a fechou. As luzes do outro lado do vidro ficaram mais fracas, enquantos seus olhos desistiam de olhar. O corpo ao cair no chão rompeu de novo o silêncio. Mas dessa vez ninguém iria sentir.

domingo, outubro 26, 2003

Dos Meios, O Fim

Ela andava sozinha, pisando descalça nas poças de lama, os olhos cansados e um cigarro nas mãos. Já estava naquele caminho há um bom tempo, horas talvez, mas não tinha a intenção de parar. Era tudo vazio à sua volta, e não havia ponto de partida ou de chegada; apenas o pensamento buscava algum sentido, enquanto o corpo era automático em seus gestos. A estrada de barro, imperfeita, dizia a que ela que não era única em sua busca, ainda que não se soubesse o que deveria ser encontrado. Perturbava-a a idéia de que sua paz fazia-se no silêncio, e um grito amargo saiu de sua boca involuntariamente. Ventava leve agora, e umas poucas nuvens ao longe anunciavam chuva para depois. Mas o agora era o que importava, quieto e vazio em sua essência.

Ajoelhou-se. Seu corpo agora estava mole, cedendo ao cansaço. Curvou-se para a frente e encostou o rosto no chão. A terra parecia lhe dizer algo, mas não conseguia entender. Sentiu o coração bater mais lento e voltou seu olhar para o céu. Um pássaro voava solitário em meio à imensidão cinza do dia. Fechou os olhos e apertou as mãos. Esperou sorrindo. A estrada de barro lhe dera algum sentido enfim.

domingo, outubro 19, 2003

Quase Sempre Nada

“Calma, me dá sua mão...”

Dois passos e ela continua distante. Desde que eles se conheceram parece assim; ele corre em sua direção, ela fecha os olhos e segue seu caminho. Às vezes ele pensa que é uma tentativa inútil, mas basta um aceno dela para se desarmar de novo e seguir achando que é capaz de traze-la para perto.

“Agora vamos, um de cada vez...”

Ele acha tudo isso muito novo. Não costuma se interessar por alguém a ponto de querer trazer por sua vida, mas ela o instiga de tal maneira que não consegue evitar. Talvez não o faça de propósito, é verdade – parece apenas ser o jeito dela, reservada e cautelosa –, só que ele se sente estranhamente atraído. Acaba sendo conduzido sem perceber.

“Um, dois, três, quatro...”

Ela quase nunca vem até ele. Seus passos são secos, sempre para longe. Não parece se importar o suficiente para deixá-lo se aproximar, mas também não o evita. Talvez ele não sinta que é preciso não agir, que na ausência ela pode descobrir que ele é perfeito para ela, por isso reclama e age o tempo todo. Acaba que nada parece sair do lugar.

“Cinco, seis, sete, oito...”

Eles seguem instáveis. Ambos são fechados, mas um quer ceder. O tempo passa e tudo parece permanecer igual. Ele espera cada dia, ela sente as horas pesarem. Para ele, ainda não se conhecem como deveriam se conhecer. Para ela, não deveriam se conhecer como poderiam. Talvez por isso nada pareça mudar, ainda que mude a todo instante. (Eles não sabem, mas é para ser assim.)

“Pronto, chegamos. Abre os olhos...”

Ele não dá mais passos. Ela não sai mais do lugar. Os olhos nunca se cruzam – ele prefere desviar sempre que ela mira os seus. O jazz que toca em seus ouvidos não é o peso que passa pelos dela. Mesmo assim estão lado a lado. Não se tocam, não se tentam, mas não se afastam. A noite cai igual porque continuam assim. E eles não conseguem perceber o óbvio.

“Vem, é aqui. Não falei que era seguro comigo?”

Só que estão sempre ali.

domingo, outubro 12, 2003

Sem Estações

Venta forte cada vez que penso em você. Jamais imaginei que o clima pudesse representar tão bem o que a saudade faz comigo, mas a chuva me ensinou que é simples assim, quando molha meu rosto e lembra as lágrimas que derramei por você. Aprendi que se tudo fica cinza, é porque você não está por perto, e que se está claro, é para meus olhos se fecharem e me forçarem a lembrar do que já se foi.

Mas aqui dentro é sempre escuro, então não sinto você. Talvez seja mais fácil assim. Porque o papel em que lhe escrevi está na minha mesa há mais tempo do que deveria - não o entreguei, mas também não o joguei fora. Observo-o todo dia jogado ali, às vezes o pego e leio as linhas tremidas e palavras manchadas, depois o largo de novo, enquanto volto para minha cama para viver uma vida que não é triste assim. Então acordo em um novo dia sozinho, e fico certo de que não tenho escolhas por as coisas serem tão diferentes nesse mundo daqui.

Estranho perceber que qualquer decisão sempre me é penosa, ainda que elas não representem tanto assim. Talvez não consiga lidar com os resultados, arcar com as conseqüências de uma manhã ser de sol e outra chuvosa. Quem sabe eu prefira o tempo frio para me colocar debaixo das cobertas e me defender dos trovões como criança assustada.

Ou apenas eu sinta que não há lugar seguro para ir sozinho.

segunda-feira, setembro 22, 2003

Recado

Hoje se completam dois anos de Rumo Ao Nada.

Quando comecei isso aqui, a idéia era apenas publicar alguns escritos dos quais eu me orgulhava. De lá para cá, virei um escritor compulsivo, refém do meu próprio monstro. De fato, nunca imaginei que pudesse durar tanto.

Obrigado a todos que fazem parte disso aqui, tanto como leitores quanto como fonte de inspiração. Vocês são a origem e o fim de tudo.

E que mais e mais anos se sigam em palavras!

quinta-feira, setembro 11, 2003

Um Pouco Mais

I

As quatro horas não chegavam, e chovia. Chovia como poucas vezes chovera por ali, gotas finas e quentes, lembrando as lágrimas que vez por outra brotavam dos olhos dela. Mas nada mudava, e as quatro horas não chegavam. Frio, muito frio. A solidão fazia-se sentir nela naquele instante.

Tomava seu café lentamente, a fumaça parecendo brincar em frente ao seu rosto, e um sorriso estático, falso talvez, insinuava-se para os olhares alheios. Seu ar era sóbrio, ainda que seu semblante carregasse uma dor que parecia não querer se esconder. Estava sentada em uma mesa de canto, sozinha, quase perdida em meio à pouca luz. Quase. Perder-se-ia caso não houvesse mais ninguém ali, caso os espaços fossem imensos, mas próxima a tanta gente sua beleza incomum impossibilitava uma ausência de percepção. Um clichê tornando-se real, a personagem colorida de um filme em preto e branco.

Uma garçonete aproximou-se de sua mesa. Mascava um chiclete e andava desajeitada, implorando por desejos masculinos. Recolheu a xícara e anotou algo em seu bloco, olhando para a moça com desdém. Ela sorriu em gesto automático, balbuciou algo e voltou seus olhos para a parede, com charme que não lhe era caro. Ali estava a diferença, ali estava o especial. 'Só ela poderia ser assim', as paredes pareciam dizer. A mim, só restava acreditar. Permaneci sentado no canto extremo, estudando seus gestos como um aluno devoto, dedicado. A distância era muito maior que as doze mesas, sugeria milhas ou léguas, um farol longínquo para um marinheiro perdido em um oceano de incógnitas. E não havia como chegar.

II

O tempo que passa não é mais o meu tempo. Só ouço a chuva, mas não sinto seu gosto, seu cheiro. Ela não me diz mais nada, porque tudo acontece igual, e eu não sei mais ser assim. As quatro horas logo vão chegar, e nada vai ser diferente. Frio, muito frio. Se existe solidão, ela está aqui.

Preciso de café para me manter viva. Não ligo para as lágrimas, não me importo de sorrir por conveniência, não sinto. De onde vem minha calma? A fumaça passeia a minha frente e isso é tão importante quanto o quadro naquela parede. Arte, fé, brinquedo - quem sou eu no meio de tantos nãos? Nada além de mim, outra como eles. Eles. Os donos dos olhares, os sedentos de porquês. Vocês não entendem? Sou essa, branca, vaga, nula. Perdida, talvez. Cansada das cores, descrente de tudo. Menos do café que me aquece a alma. Sorri.

E ela vem de novo, papel e caneta na mão. Desperdício, puro desperdício. Há mais nas palavras do que essa suja consegue perceber. Mas sorrio para ela, ela me traz a vida. 'Um café, por favor'. E sei que você me olha com desdém, mas não ligo. Você é fraca, como eles. Carente de desejos, como eles. Só eu tenho as paredes, e só elas falam para mim. Doze mesas e ele está ali. O que olha, se não consegue ver? Há um mar entre nós, você está disposto a nadar? Consegue ver a luz que mostro a você? É longe, é forte, é perigoso. Vivo aqui para mim, e não acredito que você possa viver também. Há um barco, talvez, mas é preciso achar. Meus olhos não são de ninguém, só as paredes os têm. Está escuro. Um dia poderemos nos encontrar. Até.

sábado, agosto 30, 2003

Recomeço

Tudo estava em desordem. Ainda havia chuva caindo do lado de fora, roupas jogadas pelo chão e pontas de cigarro pelos cinzeiros. Talvez um quadro que se pudesse pintar daquela situação servisse como síntese da sua vida, porém ninguém se interessaria em imortalizar o banal. Já se conhecia o suficiente para saber que era assim.

“Eu só encanto os que já perderam as esperanças.”

Existia calma no lugar, ainda que dentro dele tudo estivesse virado pelo avesso. Nada mais doía. Só importava estar de volta.

quinta-feira, agosto 07, 2003

FIM

Porque toda estrada tem um final e essa daqui encontrou o seu.

terça-feira, julho 08, 2003

Mentiras Certeiras

Não criei a mim mesmo para seguir um caminho que é só meu. Não sei quais foram as razões que me levaram a esses dias que eu gostaria apenas de deixar para trás. Não vim para ouvir de você o que sempre escuto quando tento voltar. Não.

É algo mais aqui.

O maior problema da dor é quando ela se torna tão banal que a gente nem se importa mais se sente ou não.

E fica fingindo ser feliz para nada, porque na verdade não merece ser além do que se pode ver.

Por isso é tudo escuro assim.

segunda-feira, junho 30, 2003

De Tão Pouco Tempo

O silêncio meu e seu naquele fim de tarde não dizia nada, como todo silêncio nosso dos últimos meses. E eu que sempre achei que o dia em que não conseguíssemos falar nada seria porque tudo estava dito, agora via que estava totalmente enganada. Você olhava para a parede cinza como se dela fossem saltar as perguntas que você deveria fazer para mim, e eu olhava para você como se da sua boca ainda pudesse sair algo mais do que um suspiro triste. Já estávamos distantes um do outro, por mais que não quiséssemos aceitar. Eu corria e parava sem saber a direção que estava por vir.

Não sentia mais vontade de lhe dar um abraço ou mesmo de olhar em seus olhos com o mesmo brilho de quando nos conhecemos. Eu era mais inocente ali, perdida em suas vontades, e você enxergava de mim muito além do que eu sabia. Só que eu sempre tive medo, você sabe, menina que era e não sabia lidar com minhas emoções, e ia e voltava de nós dois como se pudesse continuar brincando com as minhas incertezas, até a hora em que me vi obrigada a decidir. O problema foi que eu nem sabia que decisão era essa, e você também não sabia o que dizer para me confortar.

Mas as palavras ainda existiam dentro de mim e de você, apesar do silêncio. Elas estavam distantes, perdidas em emoções passadas, jogadas na solidão que cada um de nós construiu para si, esperando ser encontradas. E se foram assim. Tentar chegar até você já não era o refúgio que o meu coração pedia, e talvez deixar você partir não fosse tão ruim assim. Ou talvez o melhor seria eu sair. Sempre é difícil decidir o que não se sabe ao certo.

De repente nem mais estávamos ali.

domingo, junho 22, 2003

Outros Campos

E ela me olhou com os olhos de quem não sabe o caminho certo e disse: “vem, vamos ficar juntos, com você do meu lado nada é ruim, eu preciso de paz agora”, aí pegou em minhas mãos com força, como se isso me fizesse acreditar ainda mais nas suas palavras.

Eu estava quieto. Mais do que nunca queria trazer alguém para perto de mim, começar um mundo novo com ela, que nem eu quis quando conversamos pela primeira vez algumas semanas antes. Mas minhas mãos não mexiam, eu continuava em silêncio e só conseguia pensar em como tudo tinha mudado tão de repente.

Era apenas um sonho, só um sonho. Não conseguia tirar os olhos das mãos dela. Os dedos entrelaçavam-se rapidamente, depois batiam as pontas na mesa, depois se esticavam preguiçosos e então descansavam de novo por alguns segundos, não mais do que alguns segundos, e aí tudo se repetia incontáveis vezes. E eu ria desajeitado, tentando disfarçar o fascínio que aquela timidez me despertava, mas que ao mesmo tempo me dava uma sensação de imobilidade, de que nada daquilo seria de grande serventia no futuro. Era apenas um momento, só um momento, e quando acabasse eu talvez nem fosse lembrar que me sentira bem em estar ali.

O início de uma tarde fria. Os livros, o jazz, o capuccino sobre a mesa redonda. “Você não precisa ficar distante, eu estou aqui, vem, vamos ser felizes, você sabe me deixar assim”, mas eu não consigo, não chego perto, não me mexo. Eu não sou capaz de trazer para perto de mim. E as cortinas se fecham, eu quero abrir, mas elas se fecham, aos poucos, inteiras, cinzas. Que nem ela, quando disse que havia trancado as portas e que só existia o medo de não ter amor para dar em troca. É que a estrada se tornou escura e já não dá para saber se o sonhar é tão real quanto parece ser. Resta sentir.

domingo, junho 08, 2003

Quase Um Só

Quebrar tudo que tem pela frente sempre me pareceu a solução ideal para compensar minhas frustrações. Quando eu era pequeno e não sentia tanta dor, ainda assim gostava de jogar coisas na parede e gritar bem alto para tirar daqui de dentro o que incomodava. Naquela época eu já não entendia direito o que se passava, mas achava que era porque não tinha ainda idade para entender, e não porque não era capaz de controlar minhas angústias. Só que a gente cresce e percebe estranhamente que certos hábitos nunca mudam, e aí passa a chorar de desespero e a não conseguir aceitar que as atitudes podem fugir da vontade. E pensa que a vida de repente pode mudar, que aquela solidão não é uma solidão só, mas várias, e que deixar as coisas inteiras não significa nada se você também não está inteiro. E aí os objetos viram os inimigos, a parede se torna o mundo e você se torna nada. Tudo cai, tudo quebra, tudo vira ao contrário. Não há mais dor por um instante, depois a dor volta e te joga a realidade na cara, e aí a gente acha que o que é real nunca foi real ou então que vive numa mentira própria, que é tudo inventado pela gente ou por um outro alguém. Dá vontade de sair correndo, de voltar a gritar bem alto para expulsar tudo, e o grito sai mudo, e as pernas não respondem, e tá tudo escuro de novo. Sozinho. E as paredes que eram o mundo agora são o buraco negro e você é pequeno, pequeno, pequeno. Não consegue alcançar as coisas e elas não podem ser quebradas. Aí começa a se quebrar, porque não pode ficar inteiro, não há inteiro, só partes, e cada parte é um pouco de um todo que não existe, mas que quebrado pode existir. E surge de novo a angústia, a dor que não pára nunca, a vontade de ficar imóvel e simplesmente deixar o tempo passar. Só que ele não passa, e a gente se mexe à toa, só para ver se alguma coisa ainda está no lugar. E volta a ser grande, a se atrapalhar com as coisas e querer que elas não existam. Pede para a dor parar, para o gritar ter som e as cores do mundo preto e branco saírem do lugar que não é delas. E cai da cama para acordar da solidão e sentir que é tudo sozinho mesmo sem querer. Não há fuga para a confusão. As coisas estão no mesmo lugar.

terça-feira, junho 03, 2003

Epílogo de Duas Vidas em Papel

A última voz que imaginava ouvir naquela noite de fim de semana era a sua. Talvez por isso não tenha atendido de primeira quando vi no telefone o número de um lugar que não era o seu. E até agora não entendi o que aconteceu ao certo, como você voltou a fazer parte da confusão que existe aqui dentro. Mas a verdade é que voltou, e eu preciso fazer algo.

Não sou imune a você. Nunca fui, desde o primeiro instante, e pareço ser menos ainda depois de tudo que aconteceu. Pedir para ignorar o que sua voz me disse naquela noite de fim de semana é inútil, você sabe que não sou assim. Eu me preocupo, sempre me preocupei, e não foram meses, distância e silêncio que afastaram isso de mim, não mesmo. Só estava guardado, e agora voltou tudo. Estou aqui.

Você não vai ler isso, ninguém vai. Não dessa vez. Acho que aprendi com você que as palavras dizem mais do que os olhos sem dor podem perceber. Você entenderia, eu sei, mas talvez seja tarde. Quem sabe não é. Você escolheu assim.

Espero que fique bem.

domingo, maio 25, 2003

Os Sãos
Para uma amiga

Por onde anda você? Talvez estejamos distantes demais agora para ver que nada está no mesmo lugar. Você consegue perceber isso? Nosso castelo ruiu, não há mais um só em dois de nós. Acho que eu gostava do escuro que era nosso, o cinza preenchendo as certezas que você sempre quis ter.

Por que você continua? Não precisa ficar se não for para estar ao meu lado. Você não sente que já acabou? Fizemos o que estava ao nosso alcance, mas algo se perdeu nesse caminho de luz que surgiu a nossa frente. Acho que você gostava do silêncio das nossas confissões, o olhar cheio de respostas a perguntas que eu nunca quis fazer.

Às vezes as coisas simplesmente terminam em vazio.

Eu achei que os dias de sol esquentassem a gente, mas a verdade é que eles podem ser tão gélidos quanto tentar achar algum sentido para estarmos aqui.

quarta-feira, maio 14, 2003

Casa nova para o Rumo Ao Nada, com direito a comentários e o quadro que é a síntese do conceito disso aqui.

sábado, maio 10, 2003

Rumo Ao Nada

Eu não sei escrever textos alegres. Meu alimento é a melancolia, minha inspiração é a tristeza que consome o mundo. Talvez isso represente a forma como eu vivo. Ou talvez seja a forma como eu vejo o que é externo a mim. De fato, não sei. Não acho que tenho uma resposta para isso, e nem acho que preciso ter. Apenas deixo as coisas saírem daqui.

- Mas você não sabe o que escreve? Não é o que você sente?

- Seus textos são tão intensos, eu sinto eles em mim...

- Adoro quando você fala de olhares!

- Sabe aquele texto da menina e do malabarista? É o meu favorito!

- Doeu ler seu último texto. Fico preocupada com você.

- Tá tudo bem? Me escreve.

- Quando é que você vai atualizar o site, hein?

- Que lindo esse seu último texto!

- Não agüento mais suas lamentações.

- Sei lá, eu não curto muito os diálogos...

- Ok. Depois eu leio.

Eu só sei escrever por causa de vocês.

terça-feira, maio 06, 2003

Silly Love Songs

- Aí, não tô gostando da minha vida assim não.

- Quê? Você só pode estar brincando! Que que foi agora, cara?

- Não sei. Tá tudo calmo demais. Não gosto disso.

- Como assim, porra? Você vivia reclamando das suas confusões e agora não tá satisfeito porque tá tudo calmo? Você é louco!

- É...

- Não acredito nisso, na boa.

- É sério, cara. Minha vida tá muito calma, preferia como era antes.

- Puta merda, hein? Nada te agrada, que saco.

- É... acho que sou assim mesmo. Mas agora é diferente, sabe...

- Diferente por quê?

- Porque pelo menos eu sei do que não tô gostando.

- Ah, mas isso você sempre sabe.

- Não, não sei. Eu sempre acho que sei, mas nunca sei de verdade. Tanto é que nenhuma mudança me agrada. Acho que é esse lance de ser pós-moderno...

- Ahn?!

- É, pô... de criticar por criticar, saca? De estar insatisfeito com o que tá rolando mas não ter idéias pra melhorar.

- Você é maluco.

- Também. Mas faz sentido, vê só... eu nunca tô satisfeito com nada, não é isso?

- É, pô.

- Então pronto. Na verdade, eu não gosto de nada. Ou gosto de tudo e não consigo escolher o que me satisfaz, sacou?

- Não. Você é maluco.

- Você já disse isso.

- ...

- Mas não é culpa minha.

- Claro que é!

- Não, não é não. Dessa vez não.

- Então tá.

- É tudo culpa das canções de amor.

- Quê?

- As canções de amor, pô. Se não fosse por elas, eu não estaria assim.

- Eu, hein.

- É. Eu descobri que preciso de paixões na minha vida. Me alimento disso.

- Mas você sempre sofre quando tá apaixonado...

- Talvez seja essa a lógica da coisa.

- Ahn?

- Eu me sinto mais vivo assim.

- Putz...

- É que eu adoro tolas canções de amor.

domingo, abril 20, 2003

Pintura Abstrata

- Sou sentimental como nunca. Inadequado como sempre.

Deu um aperto no peito quando estiquei o braço logo que acordei e você não estava do lado da cama que sempre foi seu. Essa cena já tinha acontecido várias vezes (faz tempo que você não está ali), mas, por algum motivo, só hoje senti o vazio que se instaurara desde então. É um problema grave; às vezes meu cérebro não aceita o perder, me deixando suspenso, longe da realidade, como se o conceito de perda pudesse ser relativizado. Talvez seja essa a explicação de fato - ou apenas a verdade que eu criei para mim, a que eu prefira acreditar para não ter que lutar pela volta e admitir um novo fracasso (não é sempre assim?).

Confesso que estranhei minha frieza ter ido embora nesse momento. O espaço maior na cama me agradava, representação concreta dos anseios de liberdade que sempre tive. Não há constância em minhas vontades, eu sei, só que o caminho percorrido agora é muito longo para fugir do paradoxo. Levanto e olho pela janela, a mesma que já foi um quadro com o tempo parado e hoje vaza a parede. A neve cai forte no mundo que não é meu. Seus óculos ainda estão na mesa de cabeceira, marcados na lente direita pelos seus dedos sonolentos, e me pergunto se o calor que sentíamos dentro dessas quatro paredes um dia realmente existiu.

O cinza delas me diz que não.

quarta-feira, abril 09, 2003

Genérico

Tentei correr, mas minhas pernas não obedeceram – sequer saí do lugar, para ser mais exato. Ainda que em minha mente eu quisesse evitar a cena que estava para acontecer, dentro de mim algo dizia que eu devia continuar e encarar de frente, e acho que foi por isso que não me movi.

Acabou que tudo aconteceu e eu nem me dei conta. Talvez eu devesse ser mais cauteloso nessas horas, tentar manter a racionalidade a qualquer custo. Mas eu não me obedeço. Daí vem a insegurança que me toma parte por parte, e com ela a crise de consciência e a vontade de sumir do mapa.

Eu atravesso a rua com esforço e encontro outro ponto claro vindo em minha direção.

Começa tudo de novo. E vai. E volta. Cedo ou tarde.

Odeio quando eu me divido dentro de mim mesmo.

quinta-feira, março 20, 2003

Not In This Life


- Eu só queria saber o que fazer quando você me olha assim.

- Por que você simplesmente não age?

- Porque eu tenho certeza que, quando eu tiver você, vou perder de vez.

- E mesmo assim não terá valido o risco?

(confesso que não sei.)

quarta-feira, fevereiro 26, 2003

Em Cortes e Sombras

Eu não imaginava que a perda ia ser tão grande quando você virou as costas e saiu daqui. Na hora dei pouca importância, sequer ouvi o que você disse ao bater a porta. Simplesmente sorri com o canto da boca e pensei que era só mais uma vez que isso acontecia. E deixei você ir, confiante de que minha frieza seria capaz de me ajudar a superar sua ausência ou que mais cedo ou mais tarde voltaríamos ao normal. Acho que descobri tarde demais que nada daquilo era normal, que o que estava escapando de mim era mais do que eu mesmo tinha constatado até então.

“Por que você só enxerga aquilo que quer? Por que insiste em tentar entender?”

Há dias não saio de dentro do meu quarto. Isso normalmente me incomodaria muito, mas não agora. Sinto que tudo ficou parado. A música que toca no meu rádio tem apenas um acorde e as palavras da carta que você escreveu naquele dia distante são todas iguais. Os lugares perderam os seus sentidos se eles não podem mais ser atribuídos a nós dois. Não há mais o que ver lá fora. Da minha janela, olho para o céu nublado e penso que a chuva traz saudade. É estranho, eu costumava gostar desses dias, antes dessa imagem ficar associada a você.

“Mas você precisa aprender a viver sem mim. Eu sei que as coisas não ficaram legais, mas não temos mais o que fazer. Vai ser melhor assim”

Foi num dia como esse que tomamos café juntos pela primeira vez, naquela livraria. Eu ainda tinha dores pelo corpo e você, olhos desafiadores. Algo de diferente surgia ali, algo que não soubemos dimensionar então – e até hoje ainda não sei. Só lembro que seu cheiro se fundiu à cena e nunca mais pude esquecer. Hoje mesmo, enquanto minha caneta percorria tensa as linhas do papel, senti ele preencher o ambiente de novo. Talvez uma lágrima tenha escorrido pelo meu rosto nesse momento, mas preferi ignorar e continuar a escrever. É assim que a dor sai de dentro do peito, você sabe.

“A verdade é que eu só queria te ver feliz.”

sábado, fevereiro 15, 2003

Sem Título

Caiu mais uma folha da árvore lá fora. Acho que chegamos ao outono e nem percebi. É estranho, mas as estações do ano não são diferentes para mim agora. Na verdade, há algum tempo eu já não me importo mais se faz frio ou calor, se a chuva lá fora alaga as ruas por onde poderia andar ou se o sol queima a pele mais do que deveria. São coisas que parecem tão pequenas que prefiro não ligar para elas. Acho que fui mal acostumado, as sutilezas da vida não me comovem mais.

Queria poder olhar para a parede e dizer que o branco dela não me passa nada, mas estaria mentindo de novo, que nem aconteceu certa vez que você estava aqui. Agora falta algo nela, só não sei bem o quê. Já tentei preenchê-la com fotos e desenhos e ela continua olhando severa para mim, pedindo de volta o que eu não sei que se perdeu. Nem mesmo o urso polar de quem fiz só o contorno deixou o espaço mais familiar. Não sei de quem é a culpa pelo vazio, mas nesse quarto parece caber muito mais do que trago comigo ultimamente.

Em meus poucos metros, ando sem firmeza, receoso. Os passos que tenho dado nunca foram tão incertos e o gelo fino que cobre o meu caminho parece que vai se romper a qualquer momento. Fico parado, tentando evitar a queda. É frio lá embaixo, eu sei, e já chega de frieza por aqui. Deixo o vento ir embora, os pensamentos também. Queria tudo quieto como antes – foi assim que aprendemos a nos gostar, lembra? – só que o barulho das vontades agora é mais forte por aqui. Eu não consigo dormir assim.

Já sei que o livro largado na mesa de cabeceira está assim há mais tempo do que deveria, mas não tenho vontade de continuar a ler. Talvez hoje eu prefira ser mais burro, saber menos do que todo mundo (eu acreditava que sabia demais). Ou talvez não o leia simplesmente porque ele me lembra que eu o comprei junto ao seu presente de Natal do ano passado. Confesso que já nem sei ao certo. Às vezes parece que as palavras de suas páginas são tão silenciosas quanto as que tentam sair de minha boca, e em nossa mudez somos cúmplices e inimigos.

A verdade é que tudo que ficou está juntando poeira da mesma forma como junto solidão em mim.

quarta-feira, janeiro 29, 2003

Muito Além de Nós Dois

Eu queria entender o que seus olhos dizem quando encontram os meus assim, tão aflitos. É estranho, talvez diferente, mas a verdade é que sempre fico desconfortável, procurando abrigo no chão ou no céu, mas acho que há menos formigas e estrelas para contar do que o tempo que dura a sinceridade do seu olhar. Não sei se isso é bom ou ruim. Às vezes parece que eles buscam uma verdade que eu não tenho ou me dizem uma que eu não quero ouvir, e nessas horas meu corpo não responde como deveria. Dá vontade de correr para algum lugar seguro, onde eu possa ficar quieto. Trancado em uma bolha, talvez. Só que eu não consigo, tudo o que faço é ficar parado, esquivando-me de você. Mas seus olhos continuam pairando sobre mim, pesando como a consciência de quem esqueceu de amar a si mesmo por não saber amar aos outros.

Sua mão estendida já não me diz muita coisa, enquanto seu olhar me revela mais do que eu posso agüentar. É meu espelho, meu retrato em tons de cinza. Parado em sua órbita, sou eu encolhido em um canto, caricatura de menino amedrontado. Sou eu indefeso, deixando que o mundo me tome por completo, sem que sobre um pouco de mim em mim mesmo. Desconstruo-me nas suas certezas e fico solto em seu espaço. Não fujo mais do que seus olhos tentam dizer. As formigas estão imensas agora e as estrelas se apagaram. No escuro, ficamos eu e você de cara para a parede, em confronto injusto - eu intimidado e você muda. Não há paz aqui, só dor e tensão. Ainda lembro da dúvida que o seu olhar trazia quando me encontrou pela primeira vez. Você era mais você ali. E eu me sentia leve assim.

No silêncio da nossa confusão, ouço os gritos que vêm de dentro de mim e de você. Talvez pudéssemos entendê-los antes, quando o universo parecia ser um só para nós dois e o rancor não havia nos tomado, mas hoje isso me parece tão impossível quanto não ser doloroso olhar em seu íntimo de novo. Seu abraço não traz conforto, e prefiro procurar por você em algum lugar perdido da memória. A inquietude em nosso encontro revela o quanto já fomos diferentes, ainda que nos olhemos no espelho e vejamos sempre a mesma insatisfação daquele tempo. Eu sei que os céus se tornaram mais nublados desde então, e nada podemos fazer agora. A verdade que eu buscava está perdida em algum espaço em branco do seu olhar e a minha não mais lhe parece assim. “É apenas a vida”, você irá me dizer.

Mas eu prefiro acreditar que não.

sábado, janeiro 18, 2003

Dia de Festa

“Acho graça ver que os discos continuam os mesmos, mesmo a música entrando no meu ouvido diferente. Tudo porque os discos cantam só pra gente.”

Disse isso e se sentou na poltrona velha da sala pouco iluminada. O frio que anunciava a chegada da noite entrando pela janela fez com que ela se arrepiasse por um breve instante, mas assim que se acomodou o calor das taças de vinho tinto entornadas durante todo o dia tomou seu corpo novamente.

“Gosto dessa vitrola”, ele disse. “Na verdade, acho que gosto do que ela me traz de volta, sabe? Sei lá, era um tempo bom aquele, não era?” Seus olhos procuraram conforto nos da irmã. Ela acenou com a cabeça positivamente. “Era bom quando a gente pegava a coleção dos Beatles da mamãe e ouvia o dia todo, sonhando com o dia que seríamos famosos. Lembra disso, Lu? Por que tiraram isso da gente?”

“A gente cresce, Rafa. Não tem jeito. Também sinto falta, foi um tempo bom, mas passou. Não volta mais. Era bom sonhar, mas hoje a gente tem que ver as coisas reais mesmo.”

Esticou a mão e fez um afago na cabeça do irmão. Apesar dos 26 anos, ele às vezes era mais criança que ela, parecendo despreparado para encarar o mundo com olhos de adulto. Isso, de certa forma, doía bastante nela, que aos 18 já se cobrava como responsável pelo rumo da sua vida.

“Não devia ser assim.”, ele falou bem baixinho.

O coração dela apertou. Sabia que tudo aquilo era difícil demais para o irmão, e pela primeira vez desde que tudo acontecera teve vontade de chorar com ele. Mas não podia, precisava ser forte. Sua mãe lhe ensinara desde cedo a ser assim, e por mais que todos a considerassem fria e distante, era um comportamento que lhe dava agora a segurança necessária para encarar mudanças tão bruscas.

“Rafa, olha pra mim. Não fica assim, vai. Você precisa se acostumar. Sério, você precisa crescer. O mundo de fantasias acabou, você não percebe isso? Meu Deus...”

Ele a encarou de forma séria. Levantou-se do chão onde sentara ao lado da poltrona e caminhou até a vitrola. Abriu a tampa com raiva, puxou um dos discos cuidadosamente arrumados na prateleira acima e colocou para tocar. A música alta preencheu o ambiente rapidamente. Lucia levou as mãos aos ouvidos e fez uma careta de desaprovação. Rafael sorriu e esticou a mão direita em sua direção.

Dançaram pela sala como faziam quando eram crianças ainda inocentes na casa dos pais. Sentiram-se mais leves e mais distantes de tudo naqueles minutos que puderam sonhar de novo. No dia seguinte, tudo voltaria ao normal. A música soaria diferente mais uma vez, o vinho não faria mais efeito. Mas, naquela noite, ao menos naquela sala, o que soava aos ouvidos tinha gosto de nostalgia. Apenas os dois, os mesmos discos velhos dos Beatles tocando e a velha vitrola. Simples como sempre deveria ser.

*com a colaboração especial da amiga Natalia Warth, autora do parágrafo inicial.*

terça-feira, dezembro 10, 2002

Diálogo (In)Consciente

- Você já pensou em sumir?

- Sumir? Como assim?

- Sumir, cara. Desaparecer mesmo. Dar um tempo de tudo. Da vida, das pessoas...

- Ah, tá. Não, acho que não. Quer dizer... sei lá, tem horas que bate um desespero, que parece que nada dá certo, mas acho que nunca quis sumir não.

- Sei...

- Por quê?

- Eu devo ser muito estranho, então. Penso nisso direto.

- Tá falando sério?

- Tô, cara. Volta e meia tenho vontade de sumir.

- Mas por quê?

- Pô, não sei dizer... acho que é porque nada dá certo pra mim.

- Ah, fala sério! Também não é assim.

- É sim.

- Claro que não. Deixa de ser pessimista.

- Como se desse...

- Ih, pode parar. Não vem com esse papo de novo não.

- Tá bom.

- Você precisa mudar, cara.

- Eu sei.

- Precisa se acostumar a ser feliz.

- Eu sei.

- E o que você tá fazendo pra conseguir isso?

- Sei lá.

- Porra, não é possível. Você tem que fazer algo, cara!

- Todo mundo diz isso.

- Então pronto. Por que não faz nada?

- Não sei o que fazer.

- Como não?

- Não sei, pô! Tudo que eu tento dá errado. Acho que eu só faço escolhas erradas, nunca vi.

- Isso é coisa da sua cabeça, na boa. Tem que acreditar mais, cara. Senão vai mesmo dar tudo errado sempre.

- É foda.

- Não, não é. Você precisa mudar.

- Eu sei.

- Sabe?

- Não. Na verdade eu não sei nada.

- Pois é. Aí é que tá o problema. Sabe do que você precisa?

- Do quê?

- Aprender a viver.

- E como eu faço isso?

- Pra começar, pára de querer fugir. Você tem que viver a realidade, porra.

- Mas isso dói.

- Claro que dói! Se relacionar com os outros é complicado. Mas você não pode viver sozinho!

- Por que não?

- Porque não dá, ora. Você vai viver se escondendo por aí?

- Acho que sim.

- Então, amigo, vai nessa. Só não diz depois que eu não avisei.

- Beleza.

- Ah, só mais uma coisa...

- Diz.

- Desse jeito você vai ficar sozinho pra sempre.

- Eu sei.

- E isso não te incomoda?

- Talvez. Mas não tanto ao ponto de eu me preocupar agora.

- E por que não?

- Porque amanhã isso tudo pode mudar.

- Como assim?

- Ah, esquece. Eu sou muito instável.

- Tô vendo.

- É por isso que mantenho todo mundo longe de mim.

- Tarde demais, eu já tô aqui. O que você vai fazer agora?

sábado, novembro 09, 2002

Uma Incerta Canção

Certo dia alguém lhe disse que sua vida era um mundo de fantasias. Na hora em que ouviu isso, só conseguiu sorrir e fazer de conta que não se importava, mas, em seu interior, sentiu-se invadida e desnorteada. Como alguém ousava entrar assim em suas defesas? Que direito tinha uma pessoa qualquer de afirmar o que se passava ali dentro dela? Não era justo. Doía aquela constatação, doía a incerteza que ela trazia em si, doía a realidade. Precisava ser tão difícil? Não via mal em ser assim; era seu refúgio, seu abrigo.

Estava em um imenso campo verde. Poucas árvores compunham a paisagem e o sol brilhava alaranjado de fim de tarde. Deitada, sentia uma leve brisa passear por entre seus lisos fios de cabelo e os olhos teimavam em fechar como se tivessem medo. Não sentia a paz que todos os romances lidos em sua adolescência de sonhos davam como certa em um lugar assim. Ao contrário, havia algo de incômodo ali, ainda que não pudesse precisar o quê.

O branco manchado da parede do quarto a deixava sem asas, só que os pés também não tocavam o chão (ela já sabia). Prendia-se naquele instante, enquanto a mente vagava solta por algum lugar em que nunca esteve, mas que era familiar a ela. Estava em sua cama, vendo tv. Estava à beira de um penhasco, pronta para pular. Estava no colo de sua mãe, criança carente e indefesa. Estava só. Não estava mais ali.

Batidas incessantes à porta chamavam a realidade de volta. Seu corpo não respondia. Em silêncio, falava com o olhar perdido de quem vivia muito além daquele espaço. Se chamavam fantasia aquilo, para ela o nome era vida. Nunca se questionara o porquê de ser assim, nem mesmo sabia o que seria ser diferente. Entendia-se bem às voltas com as criações de sua imaginação, apesar de todo o medo que as aparições costumavam causar. Era dor e aprendizado em sensação única, vontade de se encontrar no escuro da alma.

Cerrou os punhos por um breve instante, em gesto de apreensão. Não sabia em que se segurar – só havia uma fortaleza em seu mundo, a sua própria – por isso precisava sentir-se presente de novo. Tinha que coibir as fugas de sua alma, tornar-se parte da realidade que insistia em escapar. E era naquele gesto que se fazia entender na solidão do seu quarto e do seu íntimo, seca e quieta, sem que sua consciência estivesse ali.

O espelho não refletia sua imagem. Era noite fria e um rádio ao longe tocava uma velha canção que lembrava Bob Dylan. O silêncio não estava mais no ambiente, mas ainda assim dentro dela tudo ficou quieto. As imprecisões e os cortes de seus pensamentos também desapareceram.

No chão, um pequeno papel se movia, leve como o vento que vinha da janela. Nem mesmo a pequena poça d’água era capaz de para-lo por completo. O despertador tocou em hora que não era comum e nem assim ela se levantou. Só um suspiro lento se ouviu ali.

“Moça! Ei, moça! Acorda! O dia ainda não acabou!”

A vida, sim.

domingo, outubro 20, 2002

Ponto Zero

Acredite, comecei a organizar minha vida sem você. E eu sei que você acha que sou incapaz, que não vai se passar nem uma semana e eu vou voltar correndo, só que dessa vez você está enganada. Já estou me acostumando com a idéia e até curtindo não ter mais suas manias por aqui.

Lembra quando você resolveu ir embora de vez? Achei mesmo que o meu mundo ia desabar. Pois é, nessas horas eu sempre maximizo as emoções, chega a ser ridículo. Choro, me desespero, imploro por mais uma chance. Aí, quando passa, parece até que nunca senti nada. E logo estou rindo à toa, embalado pela memória do momento.

Nos primeiros dias foi difícil, reconheço. Ainda olhava para qualquer canto da casa e sentia sua presença aqui. Chegava até a desejar que você não tivesse ido embora, olha só! Se eu soubesse que eu sem você seria paz, juro que não teria insistido tanto para ficar. Na verdade, está tão agradável agora que nem parece que você esteve presente há tão pouco tempo.

O que acontece é que eu sempre tive muito medo de mudanças, e o que me apavorava na sua partida era ter que começar a viver mais uma vez e de forma diferente. Tinha perdido a paciência já, e, mal ou bem, o que existia era o conforto que os anos de convivência nos trouxeram. Mas isso não podia ser o suficiente para nos manter juntos, e sua decisão de me largar abriu meus olhos para isso.

Falando assim, parece que não foi bom enquanto você esteve comigo. Não, não é isso. A última coisa que quero é soar recalcado, e também não quero fazer discurso entusiástico da minha solidão. No fundo, ainda estou espantado com a tranqüilidade que é encarar a vida com a sua ausência.

Aprendi com você que certas decisões, por mais que sejam difíceis em um primeiro momento, precisam ser mantidas até que se esteja acostumado a elas. Isso me motiva ainda mais a deixar tudo como está. Sei que algo se perdeu de mim nesse processo, mas encaro como natural.

Agora meus vinis podem ficar arrumados do jeito que eu quero, sem qualquer ordem lógica. As roupas podem ficar jogadas sobre a cama por dias e não preciso deixar a mesa do café posta todas as manhãs. Meu apartamento voltou a ser o meu caos, onde só eu me entendo (só, eu me entendo).

De fato, eu já sei como vai ser minha vida sem você. Vou viver acordando tarde e comendo qualquer besteira. Os dias vão ser todos iguais, simples como eu sempre quis, sem preocupações ou aborrecimentos. Tudo vai ser mais fácil.

O problema é que eu nunca soube lidar com o que vem fácil, e talvez por isso o complicado me atraia tanto. Não teria como ser diferente agora.

Acredite, comecei a organizar minha vida sem você. Só não me acostumei ainda com a sua ausência. Será que você ainda demora muito para voltar?

domingo, outubro 13, 2002

Silêncio (texto-clichê)

Ele olhou para o relógio na parede mais uma vez. Nos últimos vinte minutos, esse gesto havia se repetido mais de dez vezes. O pé direito batendo inquietante no chão, em compassos quaternários, era a reprodução mais instantânea de sua ansiedade. A poltrona começava a se tornar desconfortável, mais até do que o corpo que coibia o vôo de sua alma, e o silêncio atrapalhado pela maquinaria que girava os ponteiros não era o aliado de antes.

Levantou-se e pegou mais um pouco de vinho tinto. A noite já ia alta e quente, incomum para aquela época do ano, mas mesmo assim se sentia à vontade para aquele gesto invernal. Ao se sentar novamente, viu o porta-retratos que ficava na mesa de centro. Vazio. Não conseguia lembrar desde quando estava assim, muito menos qual havia sido a última foto a ocupar aquele lugar que deveria ser de destaque, só que isso não o incomodava. Muito além de uma representação estática, precisava agora de algo tangível. Voltou sua cabeça para a parede do relógio e os minutos ainda demoravam a passar.

O telefone ao seu lado, mudo, berrava por atenção. O toque incessante de outras épocas parecia esquecido, e mesmo a poeira que tomava conta do aparelho não era capaz de dar a dimensão da ausência. Pela primeira vez, ele o olhou com vontade de usá-lo. Abriu a pequena caderneta de números anotados em formas tremidas e letras corridas e procurou alguém para quem valia a pena ligar. Os nomes que se seguiam pouco diziam, até que a letra J se fez notar em cores, quebrando sua visão monocromática.

Uma palavra configurada como quebra de sentidos. Não se imaginava mais capaz de ser tomado por algo assim, muito por conta do tempo que já se ia perdido na memória, mas estava de novo imerso naquilo que tanto desconhecia. Em momentos assim, sentia-se estranho a si mesmo, uma incógnita que o mundo adorava ignorar, e procurava respostas a perguntas ainda não feitas. Era o clichê personificado, uma convergência de direções rumo ao nada.

Sua covardia o impediu de ligar. O mundo quase autista em que se encerrava a sua vida mantinha-se como norteador, como o ponto de segurança. Modificar a lógica da inércia não lhe era mais atraente, ainda que soubesse ser erro e omissão não buscar algo tão importante que se perdera por obra do tempo e da imaturidade. Olhou mais uma vez para a máquina que se movia lentamente na parede e decidiu, em caso raro, agir sem o respaldo de uma máscara.

No dia seguinte, haveria de falar pessoalmente com ela e colocar um fim na angústia que se apossara há quase uma década de seu interior. Precisava reorganizar o seu próprio caos, por isso não se calaria mais.

Do frio que se projetava dele naquela noite quente, tomou forma um único sentimento, aquele em que nunca acreditava ver tomando a si.

Mas já era tarde demais para a luta ser vencida, e o vento seco que passava lento pela janela levou consigo as vontades adormecidas. Os ponteiros do relógio se calaram e o pé não mais bateu compassado no chão.

Despediu-se da vida como sempre a encarara, sem entender o que fazia ali.

quinta-feira, setembro 12, 2002

P&B

Ela caminhava com leveza, como se os seus pés mal tocassem o chão. Do rosto vinha uma alegria incontida, uma espécie de prazer que parecia ser único. Era impossível passar por ela e ser indiferente. Aquela mesma cena, vista todo dia por quem, às sete horas da manhã, passava pela Avenida Ataulfo de Paiva no trecho entre as ruas Carlos Góes e Cupertino Durão era capaz de dar mais cor às lindas manhãs do Leblon.

Seu nome ninguém sabia; a chamavam "moça do cabelo vermelho", mas só em conversas de bar ou caminhadas na praia, quando ela estava distante e se tornava traços nas memórias apenas. Despertava fascínio e medo, tanto que não se ouvia falar de uma só pessoa que já tivesse falado com ela. A intangibilidade criada pelos que a viam andando por lá havia se tornado tão forte quanto o mito em torno de sua própria existência.

A noite se anunciava lentamente. Os postes acendendo um a um, orquestra de vaga-lumes errantes, clamavam pelo calor humano em suas ruas. A boemia ainda não estava ali, apenas alguns passantes enfadonhos, apressados em suas vidas rotineiras. Não era a hora dela, mas ela apareceu mesmo assim. Branca, leve, serena, como naquelas manhãs. Seu rosto, no entanto, não era o de sempre. Em seu olhar, angústia tão grande parecia corpo estranho. Pela primeira vez, ela parou.

Um adolescente mal vestido aproximou-se. Decerto tinha doze anos, não mais, e era sua coragem pueril traço mais velho que o bairro-cenário. Talvez não tivesse visto a moça antes, talvez sequer soubesse de quem se tratava. Quem sabia, porém? Não a temia. Realidade e fantasia caminhavam juntas sem que se fizessem entender como um algo só naquela história. E a pequena mão que se pronunciou em gesto de afago, compreensiva e trêmula, logo a tocou. Não mais do que dez segundos. Os olhos que voltaram ao jovem penetraram a sua alma masculina com ternura, e a boca exprimiu gratidão em palavra singela: "obrigado".

Ela atravessou a pista e foi em direção à praia. No mar, perdeu-se juntos às ondas nervosas, de olhos de ressaca, tão misteriosa quanto o fora ao longo daquelas manhãs leblônicas de poucos privilegiados, descoloridas a partir de então. Era noite de outono e a boemia chegava às ruas. A vida ainda estava ali.

sábado, agosto 03, 2002

Sentido do Novo

Esses dias têm sido estranhos. Tenho dormido mais tarde e acordado sem sono. Não tenho vontade de sair de casa, muito menos de ver pessoas. Você provavelmente dirá que isso é o meu normal, que nada há de estranho nisso. E eu deveria concordar, mas não posso. Porque sei que estou me sentindo diferente, porque sei que esse igual não é o mesmo igual daquele tempo que você me conheceu.

Ao mesmo tempo, nada mudou. O frio que tem feito e essa chuva que insiste em cair ainda me trazem conforto. A cama desarrumada ainda é lembrança de suas reclamações. E toda vez que eu bebo vinho ou ouço "All Blues", aquela do Miles Davis, eu acabo lhe vendo em mim. Minha raiva do espelho continua, minha mania de contar estrelas no céu à noite também. Olhando assim, o tempo parece não ter passado. Se não fosse pela sua ausência, eu até poderia achar que isso é verdade.

Os livros ainda estão jogados no chão. Não passei das cinco primeiras páginas em todos que tentei ler. Não sei, talvez essa busca em escritos por algo que me dê sentido esteja me atormentando demais. Quero respostas imediatas, fim de angústias e incertezas. Eu sempre fui assim, não é? Por mais que você tenha tentado me ensinar que precisamos refletir mais sobre nós mesmos, acho que eu nunca tive coragem de tentar. Talvez eu tenha muito medo de mim.

Apesar disso tudo, há algo de novo aqui. Porque minha vida está diferente, eu sei. E ainda que seja estranho, não é ruim. Você não deve ter reparado, até por estar tão distante agora.

E é melhor que continue assim.

terça-feira, julho 23, 2002

Filme Caseiro

Ela chegou com os olhos bem vermelhos. Se não a conhecesse muito bem, diria que tinha fumado maconha. Só que ela não era de fazer essas coisas. Além do mais, a expressão que seu rosto trazia denunciava que aquela estranha coloração vinha de horas e mais horas de choro desesperado. O que acontecera eu ainda não sabia, mas com certeza não era simples.

Reparei que trazia em suas mãos um papel amassado. Fiz menção para que me entregasse, porém ela o apertou ainda mais. Seus olhos encheram d’água. Aquele gesto me pareceu bastante familiar e, ao mesmo tempo, um tanto incomum para alguém como ela. Sua força sempre fora o motivo de seu maior orgulho e nunca a vira tão descontrolada. A boca estava seca e não dava a impressão de que fosse capaz de emitir qualquer som.

Passei minha mão por seus cabelos e a puxei de encontro ao meu ombro. No que a abracei, ela pareceu desfalecer. Seu corpo pesava indefeso e quente, ansioso por amparo. Eu não conseguia dizer nada, até por não saber o que se passava com ela. Apenas ficava ali presente, esperando que esse meu estar a fizesse bem.

Ela, porém, não se acalmava. Ao contrário, chorava copiosamente e me apertava com a pouca força que lhe restava. Afastei-a por um breve momento e fitei seus olhos outrora azuis. Eram tristes e angustiantes agora, tomados por aquele vermelho que tanto me assustara minutos atrás. E eu simplesmente não sabia o que fazer.

Do som de sua voz baixa tentei identificar alguma palavra, sem sucesso. Aproximei meus ouvidos de seus lábios, porém ela se calou de novo. Disse a ela que podia confiar em mim e que queria saber o que estava acontecendo, ao que fui repreendido com um “você não entenderia”.

Peguei de suas mãos o papel amassado sem que houvesse qualquer resistência. Dentro dele, em letras tremidas, pude ler aquelas palavras que por anos ansiava ouvir de sua boca. Algo me dizia, porém, que não tinham sido escritas para mim. Ela me olhou com firmeza e pude ter a certeza do meu engano. Dessa vez eram meus olhos quem marejavam, infelizes por tanto amor desperdiçado.

Virou as costas e se colocou a sair de minha casa. Antes de ir, olhou-me em um último momento com ar de despedida. Esse gesto doeu mais do que qualquer perda que eu já tivera em meus vinte e poucos anos de vida. Mandou-me um beijo lento e fechou a porta.

O céu era cinza e um vento frio entrava pela janela entreaberta. Meu som tocava Chet Baker e a garrafa de vinho tinto estava vazia em cima do sofá. Tudo seria triste aqui.

"Mas nada vai conseguir mudar o que ficou
Quando penso em alguém, só penso em você
E aí então estamos bem..."

Renato Russo, "Por Enquanto"

terça-feira, julho 02, 2002

Pela Manhã

Acordou assustado. Suava e ofegava como nunca lhe acontecera. Pelo ar, era capaz de sentir aquele perfume que tanto lhe fizera bem em todos os dias de convivência. Ela estivera em seu sonho, sem dúvidas, e isso a colocara tão próxima quanto desejava que estivesse agora.

Sentia um aperto no peito. Desconhecia aquela sensação, mas algo lhe dizia que seu nome era saudade. Ela partira não havia muito tempo, porém a sua ausência já começava a se mostrar como dor. Algumas lágrimas escorreram do seu rosto. Lamentou ainda mais que ela não estivesse por perto para ter seu abraço agora.

Seu primeiro impulso foi pensar em ligar. Discou os primeiros números e desistiu. Teve vontade de jogar o aparelho forte contra a parede. Não o fez, contudo. Abaixou a cabeça e o choro passou a ser compulsivo. Tremia todo o seu corpo. Parecia que sua vida tornara-se vazia sem ela, que as coisas tinham perdido o sentido.

Olhou para o relógio e viu que não passava das oito horas da manhã. Dormira pouco e faltava muito para o dia acabar. E a única coisa que precisava agora era que os dias passassem rapidamente, trazendo-a de volta o mais breve possível. Se é que ela de fato irá voltar. Esperar.

Pela primeira vez, sentiu que suas manhãs seriam difíceis demais.

sexta-feira, junho 28, 2002

Cortante

O relógio marcava nove e meia da manhã. O dia acabava de começar, mas ele sentia como se não tivesse mais forças para nada. Levantou-se da cama e abriu a porta que dava até o banheiro. Olhou-se no espelho e viu o quão profundas eram suas olheiras. Jogou água no rosto e passou as mãos com vigor no cabelo, tentando faze-lo ficar de uma forma pelo menos agradável, mas não teve muito sucesso.

Voltou para o quarto e abriu as janelas. Não gostava muito da luz do sol, porém naquele dia parecia-lhe ser uma boa deixá-la entrar no seu mundo. Precisava de algo que lhe injetasse um pouco de ânimo e afastasse aquela tão estranha sensação de infelicidade.

Voltou seus olhos para a poltrona que ficava próxima à cama e viu que havia mancha de sangue na camisa que usara na noite anterior. Tentou lembrar-se do que fizera, mas sua memória parecia ter ficado limitada aos momentos que passara em casa. Não lembrava de ter saído em algum momento. Estranhou aquilo, deu de ombros e foi preparar o café da manhã.

Ao tentar abrir a porta, notou sangue também na maçaneta. Tentou girá-la e não teve sucesso. Estava trancado em seu próprio quarto. Correu até a janela e olhou para fora. Décimo quinto andar. Não tinha sequer como saltar por ali. Para piorar, não havia um aparelho de telefone dentro do quarto, só na sala.

Começou a procurar mais resquícios de sangue pelo ambiente e encontrou uma pequena poça próxima à escrivaninha que usava para desenhar. Ao lado, uma garrafa de vinho quebrada. Mas ele não bebia. Ficou apavorado.

Andava de um lado para o outro freneticamente, como se assim pudesse enxergar alguma solução. Pensou em berrar pela janela, mas daquele andar, no meio de Copacabana, era improvável que alguém o ouvisse. Foi nesse momento que se deu conta de que não tinha qualquer ferimento em seu corpo, o que implicava aquele sangue ser de outra pessoa.

Forçou mais uma vez sua memória, mas não conseguia de fato se lembrar do que ocorrera na noite anterior. Seu desespero aumentava a cada segundo. Em um gesto instintivo, abaixou-se e olhou para baixo da cama.

Só conseguiu ouvir o som de uma porta se abrindo e a lâmina entrando firme em suas costas.

domingo, junho 16, 2002

Questionamentos

- Por que você demorou tanto pra voltar?

- Porque era necessário...

- Como assim?

- Ah, eu tinha que repensar algumas coisas.

- E adiantou?

- Com certeza.

- E eu posso saber o que você tinha que repensar?

- Não.

- Por que não?

- Porque são coisas muito íntimas, umas confusões que você não ia entender.

- Não posso nem tentar?

- Esquece isso, vai... o que importa é que eu tô aqui agora.

- Será que tá mesmo?

- O que você acha?

- Não sei...

- Dá pra deixar de ser tão inseguro?

- Só se você disser que me ama.

- E eu preciso mesmo dizer?

- Humm...

- Seu bobo.

quarta-feira, junho 05, 2002

Por Agora

Segurou as mãos dela com força. Mesmo aquele gesto já repetido tantas outras vezes lhe parecia ser diferente agora. Sensações novas tomavam todo o seu corpo, sem que deixasse esconder toda a felicidade sentida por ele naquele momento.

Ela olhou em seus olhos com ternura. Deu um sorriso único, aquele que ele sempre dissera ser o mais bonito de toda a sua vida, e o abraçou demoradamente. Sentia-se feliz como há muito não conseguia. Apesar de tudo que havia acontecido, parecia que seu lugar era mesmo ali.

Beijaram-se. Não um beijo ansioso, mas singelo. Puro e lento. Diferente de todos os anteriores. Nem melhor, nem pior. Apenas diferente. Com gosto de vitória, talvez. Mas não de certeza, porque há um clichê de mais pura verdade: na vida não se tem certeza de nada.

E é da dúvida que surge a esperança de que algo possa ser a cada dia ainda melhor.

E é por agora que se vê tudo isso.