sexta-feira, junho 18, 2010

Através do espelho

Duas vezes não foram suficientes para ele aprender que não devia insistir. Foi preciso que a mágoa falasse mais alto, que as palavras fossem duras, que as atitudes fossem incompreensíveis. Foi preciso que doesse como nunca havia doído, que a saudade se transformasse em raiva e que a lembrança dos momentos felizes fosse ofuscada pela consciência da tristeza constante. Foi preciso entender que o que parecia certo era, na verdade, o seu maior erro. Foi preciso odiar para superar. Foi preciso sentir para esquecer. Foi preciso chorar para não amargar. Foi preciso mentir para si.

Foi preciso ir.

segunda-feira, abril 12, 2010

Periódico

Quando soube de você a primeira vez, algo me dizia que não seria algo irrelevante. E ainda que não fosse manchete de jornal ou chamada na televisão, a notícia de que você existia ficou gravada em minha memória de tal forma que, por muito tempo, qualquer outra que surgisse parecia competir por um espaço em uma página praticamente preenchida.

Com o tempo, a tinta foi se apagando, e a folha que antes imprimia uma grande verdade, foi se perdendo como papel velho e inútil. A partir daí, decidi que não mais leria as novidades como se fossem únicas, deixando que elas soassem como fatos requentados que se fazem clichês a todo instante. Fui perdendo, então, aquelas notícias que as pessoas sorriem quando recebem, quase não acreditando na sorte que tiveram. Também abandonei aquelas que demoram a chegar, por serem exclusivas e definitivas. Por último, deixei para depois aquelas que sempre esperamos que um dia nos dêem, de modo que nos arrebatem e nunca mais nos esqueçamos delas. Passei, então, a colecionar aquelas que eram ruins, que por opção jamais deveríamos querer saber, mas, ainda assim, insistimos em procurar. Aquelas que pesam as páginas do jornal em uma manhã de 2a feira cinzenta.

E assim tudo caminhou.

Não faz muito tempo, uma notícia chegou aqui. E eu sei que, dentre todas, são as ruins as mais fáceis de nunca se esquecer. Talvez por isso, não tenha mesmo dado muita atenção quando ela se anunciou. Eu ainda esperava aquela mesma, que recebi há tanto tempo, e nunca pude esquecer. Aquela que me dizia que nada seria à toa ali, entre nós dois. Aquela na qual valia a pena acreditar.

Pode ser besteira, tudo bem. Mas a verdade é que, desta vez, o que eu queria era que fosse eu a boa notícia que chega agora para você.

segunda-feira, abril 05, 2010

Pequena história de um só fim

Quando a última pedra se encaixou e a calçada tomou forma, os passos que foram dados ainda eram incertos. Terreno novo, pouco firme, toda cautela era necessária. Mas bastou que alguma segurança tomasse conta para que ele corresse como criança despreocupada que era, achando que não havia perigos em fazer aquela travessia. E então foi se afastando, sempre em direção ao infinito. Não havia pressa de chegar porque o fim parecia não existir.

Ele se via ao longe. Sentado, admirando aquele ímpeto que já fizera parte de si. A poltrona era confortável, o ar não parecia pesar. Em dado momento, virou apenas um ponto no horizonte. Sorriu. Hoje ele sabia o que o esperava depois da curva que ainda seria descoberta, alguns metros adiante. E tinha a certeza de que aquela corrida, aquele coração batendo rápido, aqueles olhos brilhantes, mereciam o destino que o esperava.

“Por que você não pára e brinca um pouco aqui comigo?”

“Um dia desses eu me caso com você...”

E foi assim. Não foi?

segunda-feira, março 22, 2010

Depois da tempestade


Eu queria ter descoberto antes o valor da leveza. A importância do beijo apaixonado, do abraço longo, das mãos entrelaçadas. Ter visto que havia mais sentido no que se construía aos poucos do que na sede de se ter o máximo, deixando a tolice da paixão intensa ser domada pela existência de um amor sereno. Talvez assim tivesse reclamado menos das ausências tolas ou das palavras não ditas, e exigisse menos do que viria com o tempo. Mas a verdade é que o se distanciar ensina mais do que a presença, e é no sentir falta que o sentimento acaba se (com)provando. É quando dói saber que a vida segue, mesmo que não se queira assim.

Eu queria ter descoberto antes que era capaz de fazer diferente para não precisar sofrer por insistir em errar.

terça-feira, março 02, 2010

Tempestades

Ela deu um sorriso e pulou a poça. Nos seus sonhos mais infantis, havia alguém que tirava o casaco e cobria o obstáculo, para que ela passasse sem esforço. Mas fazia tempo que ela entendera que a realidade era superior à fantasia e decidira que pular era mais simples do que esperar o gesto que a levasse adiante. Talvez por isso também os seus olhos brilhassem menos, e o seu coração não batesse tão forte.

Endurecera, pois. Ainda que fosse capaz de sorrir, havia um quê de tristeza em sua expressão. E não se tratava mais da passagem traumática da vida juvenil para a adulta, quando o que nos resta de criança corre para brincar da mais difícil de todas as brincadeiras de se esconder. Era algo mais. Algo que muitos diriam ser normal para quem arriscou e se machucou demais, natural para quem esperou e se frustrou muitas vezes. Algo no que ela também passou a acreditar.

Virou-se para trás e olhou novamente a poça. Nos seus sonhos mais distantes, ela parecia bem maior, metáfora boba dos obstáculos intransponíveis que se tornam fáceis quando crescemos. Mais uma vez, sorriu. Um sorriso que se fez trêmulo quando refletido na pequena porção de água que insistia em se mover ao vento. Ali, ele ganhou sinceridade. Apenas seus olhos continuaram turvos, embotados da cor que tomava o chão.

Havia desistido de tentar. Os sinais de cansaço estavam em cada palavra, em cada abraço sem jeito, em cada toque evitado. Não escrevia mais cartas de amor. Por isso, era importante saltar, deixar para trás o passado com o qual já não era capaz de se identificar. Libertar a menina que, um dia, acreditou que seria feliz para sempre, como reza a boa cartilha dos contos de fadas lidos noite após noite para nos iludir.

A chuva voltou a cair repentinamente. Da poça fez-se uma pequena correnteza, cuja direção era contrária à dos seus pés. Então ela correu. Cabeça baixa, respiração ofegante, tênis molhados. Só parou alguns metros depois, quando seus olhos, finalmente, saíram do chão e o casaco se abriu à sua frente, para acolher em vez de facilitar.

Ela deu um sorriso e consentiu.

quinta-feira, fevereiro 04, 2010

Descoberta


“Caiu”. Olhei para ela. Havia um semi-sorriso nos lábios, misturado com um ar preocupado. Pensei que ela pudesse ter perdido algo importante, como o anel dado pela avó ou o lápis que prendia o cabelo. Mas não, continuava tudo ali. Olhei mais uma vez, procurando o que quer que fosse. Mas ela estava calada, e seguia olhando para um horizonte perdido que nada me dizia. Foi nesse momento que a sua mão tocou a minha. Eu tentei dizer alguma coisa, mas acho que foi em vão. Por muitas vezes aquele gesto já havia não me dito nada, e podia ser apenas outro caso assim. Porém, apertei seus dedos com força, e meu coração disparou. Senti voltar tudo, e recuei. Puxei a mão, como quem se queima brincando com fogo. Ela me olhou. “O que houve?”, perguntou. “Eu não sei”, respondi. Foi quando a sua mão encontrou a minha de novo. Tremi. “O que caiu?”, insisti.


“A ficha do quanto eu gosto de você.”

sábado, junho 13, 2009

Take it back

Mais uma vez, ele olhou para o calendário na parede. Parecia não acreditar que a data era aquela, que um ano havia se passado com uma velocidade tão absurda. Lembrou-se dos sorrisos, das promessas, dos beijos. E de tudo que fizera depois. De como suas certezas viraram dúvidas, de como suas garantias viraram pó. Já estavam no carro, ela chorando, ele impassível. Porta que bate, passos apressados. Um tchau virando um adeus. E a ilusão de que fazia o certo começando a se desfazer no segundo seguinte.

Por isso, o calendário doía. Faltava algo ali. Os mesmos sorrisos, os beijos mais acostumados, as novas promessas. Não aquele vazio, aquela pergunta intermitente sobre o que teria sido. Sempre lidara mal com escolhas, e agora tinha a sensação de que a única que fizera acertadamente foi desfeita pouco depois, por uma sucessão de atos que poderiam funcionar como a síntese de sua vida. O carro já não mais existia, nunca mais voltara ao mesmo lugar. Mas era impressionante como tudo ainda era vivo em sua memória. Logo nela, que sempre costuma falhar. Logo nela, que sempre faz questão de esquecer.

“Um ano”, suspirou. Pensou no simbolismo que aquilo tomava, no tanto que havia para ter sido feito nesse tempo e que simplesmente não existiu. A vida seguiu seu curso, muito aconteceu e quase nada estava no mesmo lugar. Não podia dizer que tinha sido ruim esse tempo. Só era impossível negar que queria que ela estivesse ali. Porque, com ela, cada vitória teria tido um sabor especial – e aquelas que não viessem, algo a ser divido, mas nunca sofrido. Porque, com ela, sonhos teriam virado realidade – e aqueles que seguissem no campo do imaginário, algo a ser adiado, mas nunca perdido. Porque, com ela, vencer e sonhar era mais completo. Sentia falta de se sentir assim.

Riscou, finalmente, aquele dia do calendário. Muitas horas ainda faltavam para que ele se encerrasse, mas pensou que pudesse abreviar as lembranças assim. Era mais uma tentativa de se enganar, como tantas outras que surgiram nesses 365 dias em que frio, calor, viagens, aprovações, descobertas, fracassos, bebidas e tanto mais se deu sem ela. Pensou em escrever o que sentia, mas sabia como era ruim com as palavras. Deitou-se na cama e acendeu um cigarro. Sorriu, sem nem saber por que o fazia. E resmungou baixinho, como quem não consegue segurar um pensamento impróprio: “a verdade é que dói pra caralho você não estar aqui”.

domingo, abril 12, 2009

Sobre canções e palavras*

Hoje ouvi o barulho do mar
E contei estrelas no cair da noite

Caminhei descalço, devagarinho
Como se andasse em nuvens no céu

(às vezes parecia até que não estava aqui)

Deixei o vento me envolver

Só assim fui capaz de desenhar, na areia,
Cada palavra
E me fazer poeta de alegrias sem fim

(*diálogo estabelecido com as obras contidas em www.asoutraspalavras.blogspot.com, do poeta e amigo Filipe Couto)

sexta-feira, abril 03, 2009

Sobre tijolos e pétalas

"Dear Prudence, won't you come out to play?" (Lennon/McCartney)

Era tarde, e a eles não restava mais a companhia. Conquistaram o silêncio e o olhar perdido, as lembranças opacas de um dia feliz. Do vento que soprava, nem o frescor lhes cabia - as sensações se desfizeram como pétalas esquecidas de uma declaração apaixonada de outono. 

Permaneciam. Imóveis. Impávidos. Inconseqüentes. Um momento que já não existia, um deixar-se estar que nada acrescentava.

Não se sabia se havia alegria ou tristeza ali. Os minutos caminhavam, as xícaras escureciam. Nas mãos, a frieza de quem agira com certeza. Eram sós, não queriam muito. 

Da janela, avistavam o mar. As poucas ondas preguiçavam por sonhar. Decidiram abandonar os brancos e colorir as estradas opostas, pedindo licença para não incomodar.

Porque tantos outros já estiveram assim.

segunda-feira, janeiro 19, 2009

Sertanismos

"Jurei mentiras e sigo sozinho." ("Sangue Latino", Secos & Molhados)

Ele pegou a primeira curva e se foi, sem pensar. Andava com uma segurança que lembrava os tempos em que as certezas inundavam seu ser e qualquer encruzilhada não era mais do que uma simples armadilha que levava a dois caminhos certos. Respirava forte, olhava firme. Mas seu coração tremia. Tremia como se o inverno tivesse finalmente chegado às suas entranhas, como se o fogo que o movia por paixão tivesse simplesmente se apagado. E talvez fosse isso mesmo, anúncios tantos que já tinha tido de que um dia chegaria aí.

A verdade é que era fácil enganar. Quem olhasse não diria que era um derrotado, mestre que era em maquiar as pequenas chagas que a vida deixava ao longo dos anos. Alguns poucos poderiam dizer que ninguém caminhava tão certo assim, mas nada que o levasse a duvidar de sua personagem. Afinal, nada além do seu quarto testemunhava suas fraquezas, e, por sorte, ele não podia delatar as veias solitárias de seu ocupante. Cauteloso, até apagava as luzes e chorava baixinho - era melhor minimizar os riscos. Mas agora era o depois da curva, estrada reta e certeira. E ele não seria mais inexato para ninguém.

Não à toa escolheu não ter chegada para a sua partida. Qualquer porto seguro poderia estragar seus planos. Que se desse a travessia, por fim.

sábado, março 22, 2008

As mudanças da hora de partir


Dez e meia e ela não estava pronta. Não que fosse a primeira vez, nem mesmo seria a última, mas naquele dia eu estava especialmente cansado de esperar. O tempo corria, o sono aumentava e eu não deveria estar ali. O combinado era nove, ela sabia. E parecia não se importar.


Dez e quarenta e ela não estava pronta. Nada mais natural, já que eu continuava a esperar. Paciente ou impaciente, tanto fazia. O fato é que ela sabia que eu estava ali e, pior, que eu não iria me mandar. Não havia sono, cansaço ou urgência no mundo dela. E eu aceitava sem reclamar.


Dez e cinquenta e ela não estava pronta. Não existia mais o que a fizesse se preocupar. Meu sorriso já era passado, meus olhos repousavam silenciosos. Quase nem lembrava do que fazia ali, cego para a demora que se fazia. Passos leves, portas se abrindo, luzes acesas. E nós dois ainda no mesmo lugar.


As onze nao chegariam. Ela continuaria lá, pensando no que poderia vestir. E eu, absorto em pensamentos de tanto esperar, descobriria o inevitavel: de nada adiantava tentar mudar.

segunda-feira, janeiro 28, 2008

Devagar, começo, fim

Quando levantei, nem eu nem o sol achávamos que era hora de o dia começar. Talvez por isso a chuva ainda caísse fina lá fora, e eu não soubesse se o escuro que preenchia o quarto era do céu ou do meu interior. A verdade é que os dois agora se confundem, presos que são a um eterno movimento de repetição. E eu, quase sério, quase imóvel, quase errado, viro refém daquilo que a minha própria realidade diz. Estou a pouco das quatro horas da manhã. Mas cada minuto dura segundos que não sabem passar.

Ainda lembro a primeira vez que o sol não apareceu para mim. O dia já se anunciava, mas virei para o lado e não tinha nada ali. E a cama vazia me disse que aquela manhã não devia existir, só que os segundos, na época, teimavam em ser velozes, e logo me vi escuro dentro de mim. Quis a chuva tomar o lugar que lhe era de direito, e então descobri que o cinza preenchia os dias que não queriam ganhar cor. Eram não mais do que sete hora da manhã. Mas cada momento significava uma década para lembrar.

Quando acordei, dei alguns passos breves e achei que tudo iria recomeçar. Senti o frio tomar meu corpo, o sorriso desfalecer e uma lágrima se anunciar. O que eu via era o que vinha de dentro, com o pouco de luz que ainda me restava. Tateei o quarto em busca da outra luz, mas ela não era capaz de iluminar. Tive a certeza de que o escuro não iria se deixar vencer. E eu, quase sério, quase imóvel, quase errado, era somente o resultado dos dias que não queriam existir. Sabia que não passava das dez da manhã. Mas cada movimento parecia irromper para machucar.

Ainda lembro a primeira vez que você não apareceu para mim. O dia já se anunciava, mas olhei para o lado e descobri que você não estava mais ali. E o meu corpo vazio me disse que, depois daquela manhã, eu não iria existir. Só que os soluços, na época, teimavam em me dominar, e comecei a desistir de lutar contra o fim. Quis a solidão tomar o lugar que lhe era de direito, e então descobri que as cinzas preenchiam o cinzeiro, o que lembrava mais a minha dor. Era uma hora qualquer de qualquer manhã. Mas nenhum sentimento perderia o lugar.

Quando respirei, o cheiro da chuva começou a me tomar. Foi então que lembrei como era sorrir.

terça-feira, abril 03, 2007

Os Incompletos

Era quase brilho que se via naquele meio olhar. Um quase-sorriso debruçado numa meia felicidade, uma lua semi-nua de um dia quase findo. Ela era quase jovem, quase ingênua em sua total paixão. E se sentia parte completa, mesmo quando dele vinha não mais do que meio aceno. Porque sabia das meias verdades que tomavam seu mundo por inteiro, e achava um todo sentido naquilo que podia não ser nada (e talvez o fosse para aqueles que sempre acreditam no nunca). E mesmo quando ele prometia muito e aparecia com pouco, ela era repleta de alegria vazia. Mas não ligava. Sabia que era quase tudo o que alguém podia querer em uma vida inteira, um amor incompleto cheio de certezas de momento. Porque durava o tempo de um meio-abraço apressado ou de um quase-beijo dado desconcertado. Porque deixava uma vontade imensa de ter um pouco mais. E era sempre assim quando no meio de tudo estavam os dois, formando um. Quando os incompletos viravam duas partes de um mesmo só. Quando o meio-sorriso virava quase-felicidade, e o dia semi-começado levava a lua quase nua. E o meio brilho do quase olhar virava tudo o que eles podiam querer para sempre, um amor completo sem as incertezas de um quase-abraço desconcentrado por um beijo meio embriagado. Até quando ela ligava e dizia verdades inteiras que soavam meio fora do mundo e davam muito sentido para o que parecia tão pouco para uma vida inteira de poucos dois que formavam um imenso um só. Totalmente completos por nunca acreditarem que o sempre deixava repleto de alegria o que era apenas vazio. E o aceno não era mais parte, pois estava completo. E no fim de tudo encontravam o seu início feliz.

sábado, fevereiro 17, 2007

Retroprocessador de ilusões

Eu esperei por todo o tempo o seu telefonema. Esperei por um sinal de vida, por um oi qualquer, por uma palavra que dissesse estou aqui. Esperei por sua notícia, por sua volta, por seu arrependimento. Esperei que você não deixasse longe por tanto tempo, que você percebesse o erro, que me falasse que sabia que me queria. Esperei. Esperei que você escrevesse uma carta, que mandasse sinal de fumaça, que me olhasse por nada, que soubesse me amar. Eu esperei por você, como sempre esperava. E ouvi meu telefone tocar quando ele nem funcionava, abri minha caixa de correio cada manhã que se anunciava, vi palavras onde nada se expressava. Esperei por qualquer atenção que eu sabia (pensava) que você me dava. Eu esperei até você aparecer. E você não apareceu, certa-errada de não se manifestar naquela hora, deixar o tempo passar como se a gente pudesse passar também, mesmo sabendo que nada ia passar sem que nós passássemos a limpo tudo o que tinha passado no passado, e eu fiquei esperando. E esperei de novo, como se você pudesse ter percebido que havia como acertar depois de tudo, e você só me dizendo que o erro era o acerto da sua vida. Mas não da minha. E eu esperei que você notasse que eu estava ali, pronto para amar você, e que você podia me amar se quisesse assim, mas você não quis. Só que eu quis esperar, e esperei. E você veio de novo e me disse ok, a gente precisa saber, e eu não quis mais saber de nada, só de saber com você o que eu nunca soube. Aquilo que a gente sempre esperou sem saber se devia esperar. E você disse tá bom. E eu disse não sei. E você foi embora, e eu fiquei ali, e esperei você olhar para trás e me dizer que sim. E você virou a esquina. Eu esperei. E você não voltou. E eu não fui. Mas esperei. E parei. E assim terminei. Sem você.

terça-feira, fevereiro 06, 2007

Depósito de insensatez

Fechou os olhos e imaginou cada passo que seria dado no dia seguinte. Como sempre, começou a planejar tudo o que fazer assim que a encontrasse; para onde ir, o que pedir, o que dizer. Visualizou os cabelos soltos, os passos apressados, o cigarro na mão e o abraço saudoso. Conseguiu até sentir o cheiro dela, mesmo depois de tantos meses sem sequer vê-la. Era como se o passado fosse logo ali. E isso porque ele fazia questão de apagar essas recordações como poucos.

Abriu os olhos e a porta do carro. Já era perto demais para avistar sua caminhada em direção a ele. Tentou perceber mais alguma coisa, mas era tarde. O telefone nas mãos roubou o abraço, e a ele restou olhar os pés e reparar nos sapatos branco-e-preto. Reconheceu os cabelos, o cheiro também. Trocaram sussurros e ele seguiu o caminho, sem disfarçar para si o prazer de estar de novo ali. O prédio, o quebra-molas, a portaria, o sinal. Tudo era familiar ainda, e trazia à tona um sentimento bom que há muito insistia em se esconder.

Fechou as mãos e deixou as veias pulsarem intensamente. 30 batidas em 10 segundos. Se ainda tivesse 15 anos, seria um adolescente apaixonado. Do alto de quase três décadas de existência, no máximo era uma aflição de quem não sabe como se comportar diante do inevitável. Ela sorriu, como sempre. E falou tudo com a segurança característica, como se não houvesse dúvidas por dentro. E cada gesto e palavra ia lembrando o porquê de ele já ter se sentido tão bem ali, e ajudava a deseja-la por perto novamente.

Abriu a boca e balbuciou qualquer frase sem nexo, apenas para si. Não tinha como não ser de outro modo. Era surpreendente como, na sua presença, ele se desconcertava. Coisa de desarticular a ordem das palavras e das idéias, de deixar tremendo sutilmente. Talvez por ela ser a única que o desafiasse, completando e igualando. Cada minuto era saboreado segundo a segundo, e todos os que se foram ainda eram insuficientes para o satisfazer. Queria mais, queria sempre, queria tudo.

Fechou o bloco e parou de anotar. Preferiu esconder as palavras a se entregar. Sabia que o caminho não tinha mais volta, e que a imaginação o levava para longe demais do que era o real. No som, o recado era simples: “não seremos um casal de velhos”. Pegou mais um café e sorriu. Definitivamente, aquele filme, afinal, não era para eles, fácil de perceber desde a primeira palavra e sem o ponto final.

Abriu a janela. Prendeu as idéias. Soltou um berro. Fechou as cortinas.

Era o retorno.

sexta-feira, dezembro 08, 2006

Reiventando o irreparável

Eu queria ter te dito a palavra mais doce. Queria ter te dado o abraço mais apertado, o beijo mais carinhoso, o afago mais adequado. Queria ter olhado nos seus olhos sem medo, ter revelado meus pensamentos mais bobos, ter sussurrado palavras sem sentido. Queria ter cantado aquela música que sempre foi nossa, ter dado um sorriso pela sua felicidade, ter tido aquele seu sorriso que me trazia felicidade. Queria ter enxugado suas lágrimas na hora que escorriam, ter soluçado no seu peito por estar angustiado, ter desabafado por agir sempre errado. Queria ter sentido mais vezes o seu cheiro, ter visto mais filmes abraçado, ter dormido ao seu lado. Queria ter contado estrelas com os dedos, ter escrito poesias inadequadas, ter ouvido você respirar e pensar como era bom estar vivo ali. Queria ter tido mais almoços, jantares. Queria ter preparado o café da manhã, ter tomado sorvete de fim de tarde, ter bebido vinho de madrugada. Queria ter sabido o que você sempre deixou óbvio, ter dado o presente no dia certo, ter ligado quando era hora. Queria ter a consciência de que ainda era tempo, ter a decência de não fugir do erro, ter a sapiência para não insistir quando já é tarde. Queria ter dito como eu gostava de você, ter mostrado como você era a pessoa certa, ter revelado como eu era um tolo por não reconhecer. Queria ter dado o meu melhor por saber que tinha o melhor de você. Queria ter segurado a sua mão e falado o quanto eu precisava de você, ter pedido ajuda para não sumir, ter sido sincero para não precisar me envergonhar. Queria ter deixado você ser a única, porque de fato era, e não temer isso como um adolescente que não sabe o que fazer quando começa a amar. Queria não ter perdido a esperança de que você ainda estaria aí, ter de volta a sua vontade de estar comigo para o que fosse a vida juntos. Queria ter berros, suspiros e suas mãos entre as minhas. Queria ter prometido que faria você feliz e cumprido. Queria ter feito você se sentir especial como era. Queria ter saído do meu mundo para criar o nosso e de mais ninguém. Queria ter sido clichê para poder reinventar o amor ao seu lado. Queria voltar e ser feliz. Porque eu só queria ter sido eu como deveria ser para você para você ser para sempre o que eu queria para mim. E fim.

domingo, abril 02, 2006

O Branco

Resolvi lidar com a brancura das folhas. Não por achar que há algo de útil para ser colocado nelas, mas por acreditar que esse deve ser o destino de quem nasce plantando o vazio. E não me importam também as palavras que nelas depositarei, pois hoje o sentido não é o que me move. Simplesmente sinto, e por isso escrevo. Sou mais um na tarefa de trazer para o tátil o que é abstrato, comum e redundante. Desnecessário até, eu diria. E mesmo assim faço. Tolo, simplório e mambembe. Direto.

Para começar, um nome. Lara. Alguns pediriam a idade, outros as características físicas. Eu dou apenas o nome e um hábito qualquer, porque ela é só mais uma, como todos somos. Depois, um sentimento. Saudade seria óbvio, tristeza seria cômodo. Talvez a ira. Mas que personagem conquista o leitor por algo tão negativo? As pessoas gostam de ler sobre aquilo que elas nunca serão ou aquilo que até sonham em ser. Mas o amor esgota o assunto na mesmice que recai sobre si. E eu não quero conquistar ninguém. Fico com a apatia.

Depois, viria o quando. E o como. E o onde. E o porquê. E eu não sei responder, nem quero, nem pretendo. Ao inferno as convenções, a lógica. A folha era branca, e eu só senti que ela não podia continuar assim. Podia ter feito desenhos, rabiscado, amassado, jogado fora. Mas existem as malditas palavras, e elas insistem em brotar dessas mãos inquietas de pseudo-escritor. Não, não cumpro minha sina. Não sou poeta por direito. Sou flaneur por linhas simetricamente colocadas no vazio dessa cor angustiante.

Mas Lara existe, e me olha. E me pede palavras em sua boca, pensamentos em sua mente, paixão em seus afetos. E ela caminha pelo quadrilátero vazio de onde a luz brota preguiçosamente, afoita com sua mesmice. Enquanto isso, só me sobram as palavras iguais, que definem um sem-número de universos já cantados em verso e prosa. Ela não sorri, porque não a ensinei. Mas vejo nos olhos que não fecham as lágrimas que não existem e o choro que teima em silenciar. Por segundos sou capaz de me arrepender de sua existência. Apenas segundos.

Porque o momento seguinte já é meu, e Lara não está mais aqui. Mas seu cheiro ficou no ar, enquanto o papel se curva ao vento que lhe sopra novos caminhos ao ouvido. São só palavras, alguém me avisaria, mas somente os arrogantes acreditam em sua mente, e não fujo à regra. Escrevo sobre o nada como se soubesse tudo, e crio no vazio um planeta completo. Deserto. De letras que crescem para se tornar palavras que se perdem para se tornar exatas. De gente que se cria personagem para ser real no que não existe.

Enquanto isso, Lara espera. Não tenta mais fugir da folha, não acredita que seu destino chegará ao ponto final. As linhas já não existem mais, nem para mim nem para ela. Acabamos sendo silêncio, autor e personagens tornando-se um.

E há outras folhas no bloco que insistem em me chamar.

segunda-feira, fevereiro 27, 2006

Atores Perfeitos

Ele se virou para o lado e os seus olhares cruzaram novamente. Apesar do tempo longe, foi capaz de sentir aquilo da mesma forma que há mais de um ano. A respiração se manteve forte, o orgulho também, e em poucos segundos já fingia que nada havia acontecido, que estava imune àquele reencontro.

Mas não estava. E ela sabia disso, e parecia olhá-lo ainda mais fixamente, com a certeza de quem um dia foi capaz de enxergar muito além da superfície dura e arrogante. Suas mãos eram as mesmas, trêmulas, só as unhas tomadas de cor se afastavam do passado. Ela havia mudado, sem dúvidas. Mas não tanto que ele também não a reconhecesse.

Falaram. Ele falou. Ela tentava. Havia uma tensão no ar, algo que qualquer um seria capaz de prever, menos os tolos que se consideram imunes ao que vem quando se mexe em baús de antiguidades. É como olhar uma foto antiga e não se perguntar o que passava na cabeça naquele momento. Ou ouvir uma música de outra década e não ser tomado pelas reminiscências de uma situação qualquer. Ilusões próprias. Necessárias para a sanidade.

E então veio o objeto. "Afinal, foi para isso que viemos aqui, não é?". Não, óbvio que não. Eles foram para estudar um ao outro, ver quem sobreviveu melhor, quem percorreu outro caminho, quem consegue ser inabalável, quem é mais forte... ou quem cede primeiro. Porque alguém vai ceder, vai dar o primeiro toque, o primeiro passo, e se render ao inevitável do reencontro.

Não. São olhares, gestos ensaiados, tímidos, pensados, relutantes. Distantes, ainda que próximos. Não avançam. Não podem avançar. Aprenderam a ser românticos e dali nada farão.

Talvez tudo vire palavras. Costumam ser assim. Dizem para si o que não diriam para o outro. Defender.

Foi para isso que voltaram ali. E ainda voltarão.

sexta-feira, janeiro 20, 2006

Dos sons que tiram os sonhos daqui

Treze vezes o relógio bateu e ele relutou em acordar. Mexera-se levemente, abrindo os olhos por não mais do que dois segundos para encarar o raio de sol que fugia por entre a fresta na cortina. Estava calor. Ainda não conseguia raciocinar direito, a cabeça lenta que acabava de despertar. Aos poucos, lembrara que sonhara durante a noite. ?Mas todos sonham?, o leitor irá dizer. E eu digo: não ele. Não ele, que desconhecia até o sonhar acordado. Cético, talvez sequer conseguisse visualizar a realidade. Mas as treze badaladas do relógio lhe disseram algo, e a preguiça precisava lhe abandonar. Seu corpo fez algum esforço, reclamou, mas enfim tomou movimento.

Levantou-se. A cozinha não era longe, e sabia que havia um resto de leite na geladeira. No caminho, jornais espalhados tentavam atrapalhar os pés que cismavam em se arrastar. Esfregou os olhos com força, tentando injetar ânimo em ao menos um dos sentidos. De pouco adiantou. Era início de tarde, mas tudo cheirava a manhã. Mais uma vez a lembrança de um sonho tomou-lhe a mente e se foi com o primeiro gole de leite. Era bom sentir um líquido que não tirasse seus sentidos descer pela goela depois de tantos dias. A cabeça agradecia.

Estava desperto agora. Inquieto. Sentia fome. Sabia bem aquela sensação. Afinal, sentia fome há vários dias. Nem por isso tentava comer. Talvez achasse bom sentir seu corpo declarando-se vivo. Nessas horas costumava lembrar que havia algo com que se preocupar além de olhar o teto ou estalar os dedos. De vez em quando, tomava uma atitude e fazia algo de produtivo. Refletiu por alguns segundos, buscando algo que lhe desse sentido naquele cedo-tarde dia. Nada lhe ocorreu.

Deitou-se. A sensação de que tivera um sonho antes lhe preencheu outra vez. Fechou os olhos. Quis dormir.

De repente existia algum sentido que o tempo não dissesse. Calou os sons que lhe tiravam dali.

sábado, novembro 05, 2005

"Indo embora, deixo-te um adeus"*

E o silêncio fez-se de novo quando o telefone alcançou a mesa. Não o silêncio do espaço, mas o silêncio da alma, aquele que confirma dolorosamente o vazio deixado por uma partida, a angústia causada por uma recusa, a tristeza vinda de uma palavra não-dita. Era ele contra o mundo, de novo. E não havia riso, por isso do silêncio fez-se o pranto, constante e intenso. Uma dor que saía dali e se respaldava ao sul, como se migrasse em busca de lugar melhor para se alojar. Mas lá só encontrava felicidade, alívio, e retornava ao seu centro, solitária, única e inquietante. Enquanto isso, as mãos percorriam a face, tentando em vão conter as lágrimas, e a boca se retorcia, trêmula. Ele pensava conhecer a sensação, mas só agora, vivendo, entendia o que tantas vezes as histórias de amor tentaram lhe dizer em forma de aviso. E chorava como criança, desesperado, buscando justificativas que não existiam e repetindo para si mesmo que não podia ter sido em vão. Talvez precisasse ter aprendido a não esperar tanto, ou então a não acreditar que existia respaldo no impossível. Só que era ingênuo no que falava ao coração, e se deixava trair sempre que buscava melhorar. Dessa vez, porém, havia sido mais. O gesto era familiar. A dor, incomparável. Os protagonistas os mesmos. Bastava mudar o final.

E foi assim que ele partiu para não mais voltar.

*por Marcelo Camelo, em "Tenha Dó"

domingo, outubro 16, 2005

Da distância que teima em voltar

Levantou-se e partiu. Apressado, descalço, ansioso. Não tinha caminho, nem direção. Desde cedo aprendera a se guiar pelo que não era óbvio. Era sempre assim. Acordava e seguia, fazendo do seu dia o que o dia queria que fosse. Vítima da casualidade, vivia sorrindo. Talvez minimizar as expectativas também minimizasse as decepções. Era uma hipótese, mas ninguém sabia ao certo. Ele não falava. Apenas seguia, cabeça erguida, olhar atento. Para onde, não faria diferença. Bastava ir.

Cada dia era o começo de tudo. Como uma tela em branco que, recebendo pinceladas de preto a esmo, ganha forma e sentido, sombra e luz. Andando, tudo ia se preenchendo. Estrada, tela, vida. Partida virando chegada. Chegada virando sentido. Sem direção, sem noção, sem pensar. O vento mudando de lugar. O silêncio dizendo que sim.

Apenas o coração a esperar...

quarta-feira, agosto 31, 2005

Antes da fuga

Ele olhava para as mãos, fascinado. Talvez nunca tenha reparado antes nos dedos, ágeis, finos e delicados, deslizando sobre as teclas do piano. Não ouvia a música, nem faria diferença. A visão era o sentido principal, olhos parados em contemplação. Não sorria. Mal sabia se respirava. No peito, oco, um sinal de alerta. E as mãos seguiam seu caminho, sua rotina, seu destino.

Um vento leve soprava em seu rosto. A janela entreaberta era a possível culpada, de onde vinha também o raio de sol que se insinuava preguiçoso ao final da pauta. Não era um dia quente, nem frio. De repente nem mais era dia, ou o mesmo. Sabia que as horas de sua vida não respeitavam a imortalidade que os belos momentos mereciam, por isso aprendera a ignorá-las. Contudo, não contava o segredo a ninguém.

Era preciso ser esperto, afinal.

terça-feira, julho 26, 2005

Quando dois e dois são nada

Duas vezes eles se viram, e não mais do que isso seria necessário.

Na primeira, mal trocaram olhares, tímidos ou receosos que eram - só notaram um ao outro, o que bastava naquele espaço mínimo onde pessoas dançavam despretensiosamente. Eram dois estranhos em um lugar mais estranho ainda, com pessoas que pareciam se ignorar, fechadas em seus mundos de luzes, álcool e som. A eles só restava a solidão da normalidade, de quem ainda achava que o ser humano nasceu para se relacionar com o outro, mas eram traídos pela própria falta de iniciativa, e assim ficavam como todos os demais, fingindo não perceber nada que se passava à sua volta. Seria uma noite curta, ainda que eles não a sentissem assim.

Ela queria pegar sua mão. Ele, dizer coisas ao seu ouvido. Só que se afastavam, quase alcançando o limite das paredes. Saíram de lá em horas ímpares, sem serem um par. Sem esperança de se reencontrarem também.

O segundo encontro parecia inadequado, mas inevitável. Fazia sol, havia gente na rua e pouco espaço para pensar. Eles eram filme, e se esbarraram de repente. Ela sorriu desajeitada, ele pegou sua bolsa caída ao chão. Pediram desculpas, mas não se foram. Também nada diziam. Sabiam que não eram dois quaisquer, mas não sabiam como agir para não sê-los. Atabalhoados, seguiram adiante. Ônibus e carros também. Ela na contramão do fluxo, ele na contramão da vida. Talvez pudessem ser felizes assim.

Mas seria o mesmo se ela tivesse olhado para trás?

domingo, junho 19, 2005

Saquarema (ou um lugar de mim que ainda não se perdeu)

Eu via a bicicleta, mas não via mais a rua. Era de barro, eu me lembro, nada daquele cimento que só machuca quando a gente cai e que deixa tudo tão cinza que dá até vontade de pegar o lápis de cor e pintar por cima para ver se o mundo volta a ter vida. Mas só tinha a bicicleta, e eu sabia que precisava subir e andar.

Havia o sol também, eu sentia, mas parecia que o calor que vinha de fora não tirava o frio que batia aqui dentro, e que eu mesmo grande agora não ia conseguir alcançá-lo como um dia achei que ia ser capaz. É longe, eu sei, mas sempre sonhei em ir até lá. Que nem quando vi a lua pela primeira vez. Não, não era a primeira vez, com certeza não, eu já tinha visto antes, mas não apaixonado, e aí é muito diferente. É incrível como tudo muda, e como você cresce, e como se torna pequeno para tanta vontade. O fato é que eu também queria ir até lá, e nunca consegui. Nem a pé, nem de bicicleta - por mais que tentasse, sempre estava longe.

Eu via o balanço, a árvore, a bola jogada no quintal e o verde-amarelado da grama sob o sol do fim da tarde, mas não tinha mais ninguém ali. Se fechasse os olhos, talvez ainda fosse capaz de me ver correndo com meus primos pra lá e pra cá, despreocupados, crianças que nunca deveríamos ter deixado de ser. Ali éramos vivos, éramos amigos, éramos felizes. E de repente a gente cresceu, e o mundo diminuiu, e os sonhos escaparam dos olhos brilhantes para virarem chagas nas mãos duras de realidade. E o que sobrou para hoje, além de pequenos pontos que vivem a cintilar nas nossas memórias?

Havia o vento também, os cabelos sentiam, mas parecia que ele estava a favor de nós, soprando nossos caminhos e dizendo que era preciso seguir em frente, levando a vida a seu sabor. Só que a gente acaba sempre indo contra, e tudo fica tão difícil que uma hora as pernas sentem o cansaço e só nos resta sentar e esperar. Não, não é pra ser assim, a gente não pode ver o filme da vida sentado na primeira fila, precisa ser protagonista, diretor, roteirista... dono. E esquecer essa história de destino, essa coisa de que todos um dia viramos adultos sérios e comprometidos com o bem da humanidade. Um absurdo, se nem o nosso bem a gente se preocupava em fazer, apenas vivia, e isso bastava.

Eu via possibilidades. Eu via estrelas. Eu via vocês. E éramos de novo os mesmos inocentes.

segunda-feira, maio 23, 2005

Finitude

Estendeu a mão e não alcançou nada. Estranhou aquilo, mas tentou de novo. Vazio. Seus olhos, porém, continuavam a ver as formas à sua frente. Não fazia sentido. Era capaz de sentir a energia que vinha, uma força de presente e de passado, com referências que o inquietavam. Tinha a sensação de que as coisas sempre estiveram ali, apenas esperando para serem associadas. Só ele era capaz de ver. E ela. Só que ela já não mais queria enxergar, deixava as luzes se apagarem e as formas se esvaírem, mesmo sabendo que bastava o seu olhar para tudo voltar a existir. Os braços dela agora estavam cruzados, e sozinho ele não conseguia alcançar. Mas tudo lembrava, tudo o chamava, tudo ainda era. Não haveria de sumir, pois já tinha vida própria - não eram coisas simplesmente, mas as coisas deles, construídas, planejadas, sonhadas, com ou sem forma para o mundo, reais. E é por isso que os olhos dele ainda vêem, mas as mãos não conseguem tocar, porque nunca tocaram, nunca puderam sentir como era a matéria. Não que não tivesse desejado; somente não havia ido até lá. Assim, fechava os olhos toda noite esperando não ver mais nada ao acordar, ainda que soubesse quão inútil aquilo era. E se via feliz depois porque as coisas estavam dentro de si, fortes, pulsantes, intensas, e o vazio não era verdadeiro. Promessas, "pontos-em-comum" e o que ainda estava por construir. Tudo como sempre e como nunca. Por isso as mãos dele insistiam em buscar - só cessariam se ele parasse de existir. Os olhos fugiam, mas não tinham por quê. Aquelas luzes jamais iriam se apagar.

sábado, abril 23, 2005

Pequeno dicionário do silêncio e do pensamento

Abria a boca e não emitia um som sequer. Sentia-se preso dentro de seu próprio corpo, os sentimentos pedindo para saírem e ele, angustiado, incapaz de libertar tudo aquilo que apertava o peito. Doía não poder mostrar o que tinha em si, ainda que fosse capaz de compreender tudo aquilo que o cercava. De sua boca vinham apenas grunhidos impossíveis de ser entendidos, um misto de angústia e vontade de liberdade, uma aflição que parecia não ter fim. Talvez por isso seus olhos dissessem tanto, cada olhar imprimindo uma verdade ao mundo que poucos seriam capazes de notar. Mas a visão humana era limitada, ele sabia, por isso, por mais que enxergasse além do óbvio, aquilo era só seu, não havia como compartilhar. E assim muitas vezes pensava em se entregar, desistir, porque o caminho que ele via era só seu, e não tinha sentido seguir sozinho.

Só que havia um farol, então continuava ali. Uma luz lhe dava a direção, e o brilho que vinha do horizonte era tão intenso e reconfortante que o fazia insistir em perseguí-lo. Ali não precisava dos sons, nem dos gestos; quem o visse perceberia que era o lugar certo, e que ali encontraria a paz. Porque não havia palavras que dissessem tudo quanto era necessário naquele instante, que fossem precisas o suficiente para explicar o que só se sentia. Não havia prisão. Não havia corpo. Não havia nada. Mas havia sentido. E era tudo que bastava para ele se sentir bem assim.

Um dia, porém, tudo era escuro. A luz não mais piscava, os sons não mais existiam, o olhar não mais falava. Era só tristeza, um reflexo opaco num espelho partido.

Nunca entendera o que se passara para a vida se transformar daquele jeito. Como não tinha as palavras, era incapaz de explicar.

Melhor seria se ficasse assim.

A isso deram o nome saudade.

domingo, abril 03, 2005

As formas que se tornam parte *

* com os devidos agradecimentos à Amanda pela frase inspiradora do texto.

Ela pedia o silêncio de volta enquanto abria a gaveta da cômoda. Da caixa de madeira, cartas caíram por cima do lençol molhado de lágrimas, abertas grosseiramente com a ânsia típica dos amantes. Sentou-se. As pernas cruzadas, os óculos recostados na ponta do nariz, a luz baixa da luminária escondendo-a na semi-escuridão. Eram palavras agora, não mais do que palavras, mas para ela eram tiros, facadas, tapas. Era dor. E só ouvia barulho agora dentro de si mesma. Cada parte sua parecia gritar, querendo ir embora de vez. Mas ela nunca se separava, e só o que fazia era voltar ao passado, como se assim o tempo fosse passar. E toda noite aquelas cartas estavam ali, aquela cama estava ali, e ela não estava mais.

O ritual era sempre o mesmo, e toda noite começava e terminava da mesma forma. Lia cada palavra já decorada, levantava-se, abria a janela, respirava fundo como se pudesse tragar a pureza da lua lá fora e retornava para sua penumbra, deixando o pensamento vago e o coração aflito. Abria um livro, olhava para as outras palavras, aquelas que eram ditas para todos e para ninguém, e sabia que ali não havia o seu sentido. Só não percebia que nas cartas também não, porque aquela não era mais sua vida, nem ele era mais seu. Como não era mais seu o sangue que escorria quando fechava os olhos ou os sussurros que saíam de dentro de si quando tentava se calar. Só ela ainda acreditava que era ela.

Talvez porque a porta ainda se movesse, o armário se tornasse imenso e ela fosse tão pequena dentro daquele quarto, não conseguia se encontrar mais em si. Mas a verdade é que era mais dúvida que certeza, e não havia como deixar de ser assim.

Ali, esperava. E escrevia apenas o que precisava ainda dizer.

"Lembrei de você no meu fim também..."

segunda-feira, março 07, 2005

Sobre o que é real e coisas pequenas

Achava que conhecia todas as dores do mundo, mas no seu peito estourava agora uma que era avassaladora, única. Mal conseguia respirar, e em sua consciência pairava a dúvida de um outro destino não traçado. Pesava. Não o peso do mundo, como se costuma dizer; um ainda maior, insuportável: o do vazio. E aquilo que parecia paradoxal nele tomava forma, cristalizando uma tristeza que cismava em se refugiar na mudez de um soluço contido, nas lágrimas amargas que nasciam e morriam nos olhos. Era dor e inverno, melancolia e outono. Era silêncio, um silêncio injusto e indesejado, característico das grandes perdas. Era solidão. Era ausência. Era.

Porque ela foi. E se foi.

segunda-feira, fevereiro 21, 2005

àsvezesquasenuncaparasempre

Ela fechou os olhos, ele esticou a mão. O rosto fora tocado de leve, enquanto a lágrima que escorria de um dos olhos era desviada de seu fatídico destino, o chão. Não havia som ali, nem mesmo o choro contido de um sofrimento incomum. Talvez nem respiração existisse naquele momento; apenas um gesto e nada mais. O tempo até poderia ser medido, se um instante como aquele coubesse em um lugar pequeno como o universo, mas eles mesmos não desejavam saber. Estavam, eram, foram. O que mais precisava existir?

Ele mexeu os lábios, ela levou seu dedo a eles. Não havia porque buscar palavras, pois elas não seriam capazes de significar algo assim. Não devia existir movimento, sob o risco de esvanecer o belo. Eram dois e um só, a união perfeita da imperfeição humana. Impossível definir o que se passava em corações paradoxais como aqueles: eram dor e alegria, distância e companhia. Completavam-se, apenas. Não sabiam ainda, é verdade, e talvez nem saberiam um dia, mas a incógnita não os incomodava. Já sabiam o principal.

Havia o toque da mão, o rosto lívido e o ar rarefeito, nada mais. E tudo era suficientemente único ali.

terça-feira, fevereiro 08, 2005

Reinvenção

Ele olhava para as mãos trêmulas e sentia que havia algo de errado. Ainda que não sentisse nada diferente, seu corpo parecia reagir de forma estranha ao que o cercava naquele instante. O cenário permanecia intacto: vidros quebrados, móveis revirados, fotos e cartas espalhadas. Não conseguia lembrar a origem do caos que se instaurara ali, apesar de saber que tinha sido ele o responsável por tamanha destruição. Havia perdido o controle, mas não conseguia ainda se dar conta disso.

Seus olhos encheram d?água quando avistaram, no sofá, um velho porta-retratos destruído. Tinha colocado fim à única lembrança de sua infância que ainda guardava: uma foto de quando era criança, em algum carnaval já distante, inocentemente fantasiado de Super-homem. Não conseguiu deixar de perceber a ironia do momento: o pequeno infante, vestido de super-herói, despedia-se do mundo de fantasias e surgia como um homem adulto, fraco, indefeso, despreparado. Uma lágrima tímida escorreu pela face, então.

Caminhava pela sala do apartamento, analisando o estrago que ele mesmo tinha promovido, ainda que sem consciência. Nada, porém, doía mais do que aquele porta-retratos abandonado no sofá, desfalecido. Procurava em cada objeto fora da ordem natural a razão para aquilo tudo ter se originado, mas só obtinha novas perguntas. Voltava a partes remotas de seu passado a todo instante, e se odiava mais por isso. Preferia passar longe de tudo aquilo, e só agora notara o quanto estar ali ao longo de tanto tempo o fazia mal.

De súbito, parou frente ao espelho. Examinou-se atentamente. Os cabelos brancos começavam a surgir, apesar da idade. Seu semblante trazia o peso de quem vivera infeliz até então, com um sorriso que nunca se realizava e um olhar que trazia dor. Da rua, ouvia vida. Sons de folia. Correu até a janela e observou a alegria lá embaixo. Sentou-se, as pernas balançando ao ar. Era um dia quente. Virou-se para a sala, notou mais uma vez a confusão que havia causado ali e entendeu finalmente a grande metáfora que havia feito de sua vida.

Pulou para dentro e correu para a rua.

Crescera ouvindo que o ano só começava depois do Carnaval.

Talvez ele também precisasse ser assim.

sexta-feira, dezembro 24, 2004

Roteiro inacabado

"O que você faria se não tivesse medo?"

A pergunta visitava sua mente de minuto em minuto, em uma repetição enlouquecedora.

Procurava centenas de respostas, mas, no fundo, já sabia.

"Arriscaria para ser feliz".

E foi assim que ele resolveu.

O amor não tardaria em se concretizar.

segunda-feira, dezembro 13, 2004

Sobre ele, sobra ela

Ele tinha medo. Sabia que não fazia sentido, sabia que a situação era favorável a ele, mas mesmo assim não conseguia obter a segurança necessária para não se preocupar a cada segundo com a possibilidade da perda. Talvez porque, pela primeira vez, tivesse a noção de que tinha em mãos algo de muito de valor, algo com que sempre sonhara e nunca conseguira alcançar. Custava até a acreditar que tinha alcançado, e muitas vezes colocava tudo a perder por causa dessa desconfiança. O fato era que ela estava ali, apesar de todas as dificuldades existentes, e ele simplesmente não sabia como fazer para não deixá-la sair de perto. Deveria saber que, para isso, só bastava sê-lo, pois fôra assim que chegara até ali. Mas não. Tinha a sensação de que tudo que fizesse era pouco, que a qualquer instante os castelos de areia poderiam ruir e seus sonhos se perderiam de vez. E não adiantava as palavras ditas, as confissões trocadas e as juras de amor infinitas; ele não se convencia, talvez traído pela própria consciência de quem não aprendeu a amar e não acredita que possa ser amado por alguém. Por vezes se rendia à impossibilidade da situação, descrente na concretização de um sentimento que parecia atravessar quilômetros em estradas sem fim. Porém, ao dormir, tinha a certeza de que o pensamento sublimava, e eles se encontravam, ainda que no campo em que só os amantes à moda antiga costumavam caminhar. E era ali que tudo fazia sentido, que não havia imperfeições, dúvidas ou dificuldades, apenas dois se tornando um, a felicidade no estado mais simples de sua complexidade. Quando a chuva ia embora, mas o sol não aparecia, nem a lua, porque não havia mais a noção de tempo, nem de espaço, só de que não há medida para a paixão. Porque o amor não se dá calado, eles bem sabem (ao menos nos sonhos eles sabem). Ele tinha medo, é verdade. "Não há motivos para isso", ela costumava dizer. Mas ele sabia que o amor não podia ser compartilhado além de dois. Por isso tinha medo. E ela continuava ali.

Esperando.

domingo, dezembro 05, 2004

Texto novo sim, é claro. Mas não aqui. No outro. Driving In The Rain.

sábado, novembro 27, 2004

.viena.paris.rio de janeiro.

"6 anos podem ser 6 dias", era só o que ele pensava quando pousou a cabeça no travesseiro e tentou, em vão, dormir, naquela que seria a noite curta mais longa de toda a sua vida. Já era quase amanhecer quando a voz sumiu e ele passou a sonhar, ainda que seus olhos se mantivessem abertos. Mas não se importava. Havia redescoberto uma direção, encaixado as peças de seu quebra-cabeça existencial depois de uma interrupção abrupta e inexplicável. O outro lado continuava ali, e nada parecia absurdo. Ainda que o tempo tivesse sido tão impiedoso a ponto de manter o vazio existente por tanto tempo, era fácil continuar agora. Eram iguais a antes, ainda que diferentes por tudo. E ele sentia que algo não se perdera dali. O sentido se estabelecera com a possibilidade do reencontro a existir. Porque não faria sentido tudo acabar com um adeus ao entrar no avião.

terça-feira, novembro 16, 2004

Entre engrenagens e tintas

"Toda decisão tem um peso, não adianta tentar fugir", disse ele após olhar nos olhos dela e sentir que havia dúvida pairando ali. Vivera aquela situação incontáveis vezes ao longo de sua breve existência, talvez por isso a frase saísse de seus lábios com tanta facilidade que não representava os tortuosos caminhos que o levaram a essa conclusão. E ela permanecia imóvel, serena, como se não existissem palavras que a atingissem naquele momento. Mas ele sabia que por dentro ela estava dividida, que, por mais que ela tentasse fugir, uma hora a resposta surgiria, e a opção acertada surgiria. Acertada porque aprendera que não havia no mundo opção "errada", todas eram acertadas, ainda que sob uma ótica que só alguns pudessem entender - e isso seria a causa do sofrimento. O fato era que ele sabia que estava avançando no escuro. Não temia, porém. Sempre repetiu que a vida é feita de riscos e curta demais para se ter medo de buscar o melhor. Pena que não conseguia convencê-la a pensar assim também.

"Toda decisão tem um peso, não adianta tentar fugir", pensava ele, enquanto ela desviava de seu olhar. Ele sabia que ela tinha muito mais a perder, mas era seu egoísmo que falava mais alto, e só conseguia pensar em como seria bom se ela se resolvesse por aquilo que era favorável a ele. No fundo, tinha receio de não saber arcar com essa decisão, só que sabia que a certeza apenas seria alcançada pela tentativa. Era preciso achar o lugar dos dois, encontrar-se nela, realizar-se, completar-se, ainda que por um breve momento ou mesmo por toda a eternidade. Não se importaria em ser clichê. Desafiaria o mundo, se isso se mostrasse necessário. E iria insistir. Ainda acreditava em sua intuição, presságios ou coisas do gênero, por mais que fosse um resquício bobo de infância ou pura ingenuidade dos amantes de outras décadas.

"Toda decisão tem um peso, não adianta tentar fugir", escrevia ele, ao mesmo tempo que ouvia Sinatra cantar "Can't Take My Eyes Off Of You" e olhava para o relógio apontando onze horas da noite.

Era terça-feira, chovia no Rio de Janeiro e ele estava em casa. Sabia que o mundo lá fora fugia de seu alcance, mas mesmo assim não temia. Apenas esperava.

Como um ponto final que pacientemente aguarda o seu lugar para selar o destino de um texto triste.

segunda-feira, novembro 15, 2004

Se não há atualização aqui, ressuscita-se lá.

Depois de um ano, o DITR está volta. É só clicar aí do lado e ler.

Em breve, texto novo nesse espaço.
Abraços!

quarta-feira, outubro 20, 2004

O sentido de lá

As ruas eram tortas, mas ele cismava em andar em linha reta. Tinha os passos firmes, a respiração acelerada e a cabeça erguida, traços de quem sabe o que faz. Por dentro, porém, dividia-se em vários, fragmentos de alma que se ressentiam a cada emoção despertada. Aprendera desde cedo que o ser humano era aquilo que aparentava ser, e não o que era de fato, e talvez por isso acreditasse mais na sua imagem projetada do que em sua própria essência. Era criador e criatura em contato sistemático, harmonia de cores como somente o preto e o branco são capazes de compor, fortalecidos pelo contraste. Contraste que ele mesmo era; dicotomia, paradoxo. Imagem ausente frente ao espelho, formas difusas em uma fotografia. Era único, ser singular e irreal. Porém cismava em andar em linha reta, com os passos firmes, a respiração acelerada e a cabeça erguida, traços de quem quer se convencer de que é maior que o mundo, ainda que o céu sempre prove com sua infinitude que há muito mais além de si mesmo. Mas o olhar seguia perdido em esperanças vãs, na crença de que ainda podia ser diferente, melhor do que fôra até então. E aí não bastava o mundo a confrontar, porque o ato de desencorajar já não era o bastante. É quando se descobre que há a capacidade de ir além, ainda que a insegurança insista em por vezes levar para baixo a sensação de plenitude, lembrando que nunca se sabe o que é o certo a se fazer. Só que as linhas tortas só assim as são para quem não enxerga que só há um caminho a se seguir, e que mesmo o erro é o acerto inevitável da imprevisibilidade da vida. Ele sabia. Por isso nunca olhava para baixo, nunca cerrava os punhos ou relutava em pisar em qualquer caminho. E era feliz assim.

segunda-feira, setembro 27, 2004

Depois das luzes acenderem

Sempre achei que haveria um momento que justificaria toda a nossa existência. Aquele em que tudo se esclareceria, que as respostas seriam dadas e o verdadeiro sentido enfim apareceria. Talvez fosse um sentimento pueril, uma inocência perdida que atenuasse qualquer sofrimento, mas o fato é que sempre esteve comigo, apesar de poucas vezes eu manifestá-lo. Até chegar o amanhecer e o pôr-do-sol, e Viena e Paris explicarem para mim que eu não estava errado, que mesmo após 9 anos algo ainda podia fazer sentido para dois, e que comigo, um dia, não haveria de ser diferente. E as expectativas frustradas e as buscas insanas e as tentativas equivocadas seriam mero pretexto para alcançar o fim, por saber que há um, e somente um, encontro que se completa, que se faz por inteiro. Com olhares, gestos e sensações que nunca se igualam, e que por mais que se viva uma eternidade ficará como a mais forte lembrança. Porque há sempre o reencontro para quem acredita que o primeiro era o único e o certo, e não há mal algum em crer no amor romântico e eterno mesmo depois da adolescência. Todos nós merecemos, ainda que não tenhamos encontrado até então. Ninguém quer chegar aos 52 anos e se divorciar chorando por nunca ter amado a esposa. Eu não serei assim. Sigo esperando acontecer, pois hoje aprendi que Cèline e Jesse vão sempre me justificar.

quarta-feira, setembro 01, 2004

Mal pontuado

Mal ligou o rádio e o primeiro acorde da canção preencheu o ambiente e seu pensamento. Não era preciso ir muito longe para buscar a referência: era a música dela, a mesma que um dia, ao olhar em seus olhos, ele dissera que desejava ter o mínimo de talento para criar algo com palavras que fossem tão apropriadas para defini-la, e que ela sorriu desajeitada e disse que a poesia não tinha dono, desde que o sentimento empregado por quem a declamasse fosse honesto. Podia passar anos sem ouvi-la que não perderia a referência. "Há momentos que são fortes, ainda que breves", ele repetia enquanto se olhava no espelho, os olhos cansados da noite mal dormida e a barba por fazer de quem se sentia vencido pela preguiça. Caía ao chão diariamente, e a sensação de se reerguer era única, uma superação hercúlea. Das mãos não brotavam mais nada, pois estavam fechadas para os ataques às paredes do quarto manifestadas em horas variadas.

A porta do armário não fechava, ela sabia bem, por isso nem se esforçava em tentar arrumar. Até sua mania de colocar tudo em seu devido lugar precisava ter fim. Se nem ela estava se achando apropriada, por que o restante deveria ser? Não havia motivos. Mas ela sabia que não adiantava fugir do espelho, que as paredes podiam ser opressoras se não respeitadas e que tentar ouvir a música que sussurrava ao fundo, do outro lado da casa, era inútil se não estivesse aberta para as conseqüências disso. Anos eram pouco para quem se interessara um dia por mais do que a poesia torta que beira as canções desperdiçadas nas bocas e mãos de amantes ocasionais. "Sou mais do que simples palavras", ela dizia para si, fechada em seu íntimo como quem perdeu a chance de ser diferente do que sempre esperaram que fosse.

Acreditar na fantasia fôra a saída para que tudo caminhasse até então. Alimentar a razão nunca fizera sentido. E tudo parecia tão distante agora que pensar era o que restava. Sem sonho eterno, sem promessa de um novo meio de se viver uma ilusão. Continuar para não acabar. Recomeçar do certo para esquecer os erros. A caneta era a chave, mas só o que se via eram guardanapos rabiscados. Não havia mais versos que unissem os dois. Somente ponto final.

terça-feira, agosto 24, 2004

Das voltas, o (re)início

Escreveu a última palavra e sorriu. Chegara ao fim de mais um texto, mesmo depois de tanto tempo sem escrever. Sentia-se livre novamente, longe do bloqueio que o fazia olhar para a folha em branco e só imaginar um destino para ela: o lixo. Cansara de falar das coisas tristes, cinzas e frias, de tudo aquilo que só fazia com que os outros se identificassem pelo lado mais obscuro, pela essência do sofrimento. Não, não era mais o seu caminho. Almejava aprender a usar suas palavras de forma mais positiva, sem clichês de "Londres-em-meio-à-névoa" e de "chuva-que-traz-saudade", e sabia que era possível. Talvez por isso aquela última palavra significasse tanto. Não era mais um peso, daí o sorriso, tão incomum. De fato, não havia sofrido para chegar até ali. Só tinha que achar os meios para continuar.

"Abriu os olhos e ergueu o corpo da cama. O livro havia terminado, a televisão não transmitia um filme que ele não tivesse visto. Olhou para todos os cds expostos na estante e percebeu que a música não trazia significado se enfurnada entre quatro paredes. Precisava soltar as amarras, precisava abrir as janelas e deixar o sol entrar uma vez, precisava sair, precisava. Ir. Sem saber para onde, sem saber por quê. Tal como no dia em que decidiu que devia buscar o seu espaço e se encontrar em si mesmo. Agora era a hora de perceber o que os outros podiam trazer para que ele alcançasse o ser completo, ainda que esse ser completo só se fizesse assim por breves minutos ou segundos. O quarto não era mais suficiente, seus objetos não eram mais suficientes. Seria mais."

Mas como saber o que viria a ser? Continuava rumo ao nada...

sábado, julho 31, 2004

Aviso aos leitores

O Rumo Ao Nada não morreu, apenas esteve de férias (longas, eu sei, mas acabaram). Promessa de texto novo ainda essa semana.

Enquanto isso, leiam os textos antigos, há coisas boas perdidas pelo site.

Abraços!

sábado, maio 22, 2004

Pecados Capitais

Era claro ainda quando tive seu abraço pela primeira vez. Nem mesmo o tempo nublado poderia estragar o que em mim surgia naquele momento. A vontade era de não soltar mais, aproveitar cada momento daquele gesto dócil, lento e confortável, mas de tão inesperado, só consegui reagir de forma atolada, quase como o menino ingênuo que tem um beijo roubado pela amiga no pátio na hora do recreio e só consegue olhar para os amigos e sorrir, sem graça. Você tinha o domínio da situação ali, ainda que não soubesse disso. As horas que se seguiriam não levariam do pensamento o que acabara de acontecer, e o meu olhar a buscar o seu em meio a centenas de cores de pessoas era independente de mim, desobediente e afoito.

Quando nos afastamos, pairei sobre seus olhos mais uma vez. O brilho deles me lembrou os motivos pelos quais havia me fascinado quando a conheci, e desejei que você voltasse àquela sala mais vezes só para tê-los em minha direção novamente. Balbuciava palavras ilógicas, tentando agradar sem nem pensar como. O intuito talvez fosse apenas prendê-la ali, deixa-la mais tempo ao meu lado, nem que fosse para sentir sua presença me desconcertando. Mas você não se demorou muito, e eu me vi em seguida projetando maneiras de nos encontrarmos outras vezes momentos após, lutando contra a inevitabilidade do dia que iria embora em breve. A partir dali, conformei-me em observá-la ao longe, imaginando que você pudesse estar fazendo o mesmo, calcado em uma ingenuidade que há muito me abandonara.

Inquieto, circulava por todo o local, à espera de que seus passos encontrassem os meus. Por outro momento estivemos perto, mas o tempo que levei me questionando se deveria me aproximar foi o mesmo que a levou embora dali. Passei então a torcer pelo fim, para que a escuridão tomasse conta de tudo ? de repente assim haveria uma nova oportunidade. Nada mais detinha minha atenção. A mente com seu sorriso preenchendo, seu abraço sentido a todo instante, meus ouvidos agraciados com a sua voz. Você já me tinha, mesmo que não quisesse. E eu sabia que a partir de então só seria eu se a trouxesse também para mim.

Já não havia mais esperanças quando resolvi ir embora e a vi ali parada, sozinha, vestida de negro como a noite que se fazia reduto perfeito para um final feliz. Chamei-a. Você sorriu mais uma vez e novamente me abraçou. Dessa vez sentia que aquele era o lugar certo, e correspondi com todo o carinho que queria poder lhe dar pelo resto da vida. Só que uma hora acabou, e quando tive de me despedir, só consegui pedir que você aparecesse pelo menos mais uma vez onde nos conhecemos e ser reticente ao deixar escapar que gosto muito de você. Não devo ter sido tão claro quanto queria, nunca sei sê-lo, porém não saberia fazer diferente com você.

Talvez no dia em que seus olhos não forem capazes de me fazer sentir como um apaixonado, eu consiga fazer você entender o quanto quero você aqui.

domingo, maio 02, 2004

Entre pontos e vírgulas

O que é fazer poesia para quem não sabe ler? Será que há cor nas palavras de quem vê em branco e preto?

Era tudo o princípio. Ainda se via a liberdade pelos seus olhos, e o cinza que fechava o dia era exceção, não a tônica de um mundo particular. E ela sabia, por isso se punha a escrever sobre além do que se vê, ainda que essa percepção pudesse ser sua, só sua, e a dele fosse tão fechada que seria impossível acreditar no novo não concreto.

Mas ela tinha a palavra para enfrentar o seu olhar, e ele fugia para não ter sua verdade descoberta assim. Ignorara a poesia até então, certo de que não havia entrelinhas que justificassem a crença em um outro lugar (talvez não quisesse se achar), mas perdera seu lugar no chão enfim. Caótico, buscava sempre o entendimento, só não o esperava por olhos que não fossem os seus. Afastou-se, por fim.

Era preciso continuar a ver o sol se pôr sozinho.

terça-feira, abril 13, 2004

Plano-seqüência

Respirou fundo, abriu os olhos e se levantou do chão. Não havia mais ninguém ali, e a chuva que caía do lado de fora era menos triste que as velas acesas por toda parte, ainda que se fizesse luz em meio ao breu naquele instante. Caminhou com passos pesados até a porta, ouvindo atento cada pequeno som que pudesse mudar seu destino (ele não acreditava nisso, mas agora tudo parecia tão irreal que talvez houvesse lógica no absurdo). Chovia forte agora e nada se via lá fora. Abriu a porta. Não havia mais o que o prendesse ali. Seus braços esticados como asas e uma corrida sem pensar. Lágrimas escorriam dos olhos. A água gelada em seu corpo trouxe de volta o alívio que anos de angústia levaram com sua vontade de viver. Nada se via. Só seu corpo parecia capaz de sentir. Abraçou a si mesmo com forças e deixou seu corpo escorregar para o chão. Ali mesmo dormiu, jogado a ratos e sujeira que sintetizavam sua existência.

terça-feira, março 09, 2004

Leaving Here

O dia estava calado. Ele olhava para o horizonte, aflito, e não encontrava uma resposta. Sentia que o mundo mudara desde o momento em que aquelas palavras caíram em seus ouvidos, porém não sabia precisar o que viria a partir de agora. Estava sentado em uma praça, o céu escuro de um fim de tarde atípico e o corpo cansado de tanta responsabilidade. Nem as crianças no parque pareciam sorrir, entediadas com seus brinquedos velhos e os olhares displicentes de suas babás. Ele era único ali. Sua pouca idade pesava mais do que o aceitável para alguém que quase nada sabia da vida adulta, e a falta de perspectivas que lhe tomava agora doía demais. Havia perdido a vontade de agir, apesar de não aceitar os acontecimentos. Fora traído em seu íntimo, a confiança abalada no futuro de tudo aquilo e o medo do fracasso de volta à tona. Chorou. Gotas de chuva caíam dos céus, que eram cúmplices mudos daquela tristeza. Apenas um sinal de que podia sentir-se assim era o que ele conseguia enxergar, mas a resposta do mundo tinha chegado enfim. A melancolia da tarde pintava o quadro do fim de um tempo. Não existia mais saída. Fechou os olhos e correu em direção ao mar. A luz do dia acenou tímida, escapando de sua prisão. Os dois estavam livres de novo.

terça-feira, março 02, 2004

Irreversível

Apenas um sorriso dela e ele soube que estava de volta. Achava que já tinha se acostumado com a sua ausência, sem sentir o vazio no quarto com a cama desarrumada e os pés descalços, mas a verdade é que ainda era ela ali, e só isso bastava para mexer com ele. As pernas quiseram tremer, confusas, enquanto as mãos se escondiam nos bolsos de criança tímida. Fez-se silêncio apesar do vento que soprava as folhas lá fora. Ela não se importava. Era claro ainda, o dia parecia eterno. Dois passos. Um abraço. Ela parecia não existir. Os olhos dele se fecharam e só abriram quando ela se afastava lenta pela estrada de barro. Ele não foi atrás. Conhecia aquele gesto como poucos. O sol se escondeu em meio às nuvens e ele virou as costas. Havia vencido o reencontro enfim.

terça-feira, janeiro 20, 2004

Mais do Mesmo Início

Olhou pela primeira vez depois de anos para a velha foto da casa onde passara a infância e sentiu saudades. Uma lágrima quase escorreu pelo rosto, mas foi contida pela mesma mão que há pouco achara aquela lembrança jogada embaixo de papéis na gaveta da cômoda ao lado da cama. O dia já tinha ido embora, e a pequena luz que iluminava o quarto de súbito tornou-se desconfortável para seus olhos. Achar aquela imagem em papel desbotado, quase sépia, significava voltar duas décadas no tempo, a uma época em que decisões não eram tão penosas e sua vida não havia mudado tanto. Olhava-se no espelho agora e sentia o peso de uma idade que não parecia ser a sua, curvada pelas responsabilidades que lhe vieram tão cedo e sem que desejasse. Não era mais forte, e só ela sabia disso. Antes, pouco importava como reagia ao que lhe vinha de repente, acostumada que era a não se importar com o diferente. Agora, tremia pelo inesperado, fugia do obscuro que o destino lhe trazia como oportunidade. Talvez tivesse se perdido na própria rotina que criara ao optar por viver sozinha desde que tudo se foi e não conseguia mais se achar em si mesma. Estava cansada de tentar definir. Aquela velha foto da casa onde passara a infância lhe dizia muito mais. Viu pela janela seu rosto alegre, brincando sozinha em seu quarto ainda bem nova. Ouviu os latidos do cachorro do vizinho e notou que a mangueira com que brincava no quintal nos dias de sol voltara a jorrar. Fechou os olhos e se sentiu em paz. Lágrimas escorreram livres pelo rosto, mas pela primeira vez em muito tempo, elas não eram de tristeza. Abriu os olhos e a foto continuava sépia. Guardou-a na gaveta, junto com o seu passado de meias rosadas e desenhos em papéis amassados. Era o fim daquela idade. Sabia que precisava seguir em frente.

quinta-feira, novembro 20, 2003

Cores da Noite do Fim

Quase dez da noite e só se ouvia o silêncio. Um leve vento brincava com a cortina da janela semi-aberta e a sala estava escura. Deitada no sofá, ela chorava discretamente, cartas espalhadas pelo chão e uma garrafa vazia de vinho tinto ao seu lado. Transbordava angústia, a consciência da solidão lhe perturbando enquanto tentava não sentir mais dor. Não conseguia esquecer aquele abraço, a despedida para um salto que só poderia terminar em nada. Ainda podia sentir o perfume dela, o toque leve nos cabelos que nunca ficam arrumados, e era impossível não sentir saudade. Aceitar os rumos que tudo tinha tomado era o primeiro passo, mas como seguir? Ficara pequena, abandonada em sua nova condição, e só pensava em quanto errou ao não valorizar o que tinha. Só quando o barulho arruinou uma noite de silêncio uma semana antes ela de fato sentiu. Havia sido tarde, porém. Tirou o rosto das almofadas e enxugou as lágrimas. Do sofá, sentiu que o vento a chamava para fora. Caminhou até a janela e a fechou. As luzes do outro lado do vidro ficaram mais fracas, enquantos seus olhos desistiam de olhar. O corpo ao cair no chão rompeu de novo o silêncio. Mas dessa vez ninguém iria sentir.

domingo, outubro 26, 2003

Dos Meios, O Fim

Ela andava sozinha, pisando descalça nas poças de lama, os olhos cansados e um cigarro nas mãos. Já estava naquele caminho há um bom tempo, horas talvez, mas não tinha a intenção de parar. Era tudo vazio à sua volta, e não havia ponto de partida ou de chegada; apenas o pensamento buscava algum sentido, enquanto o corpo era automático em seus gestos. A estrada de barro, imperfeita, dizia a que ela que não era única em sua busca, ainda que não se soubesse o que deveria ser encontrado. Perturbava-a a idéia de que sua paz fazia-se no silêncio, e um grito amargo saiu de sua boca involuntariamente. Ventava leve agora, e umas poucas nuvens ao longe anunciavam chuva para depois. Mas o agora era o que importava, quieto e vazio em sua essência.

Ajoelhou-se. Seu corpo agora estava mole, cedendo ao cansaço. Curvou-se para a frente e encostou o rosto no chão. A terra parecia lhe dizer algo, mas não conseguia entender. Sentiu o coração bater mais lento e voltou seu olhar para o céu. Um pássaro voava solitário em meio à imensidão cinza do dia. Fechou os olhos e apertou as mãos. Esperou sorrindo. A estrada de barro lhe dera algum sentido enfim.

domingo, outubro 19, 2003

Quase Sempre Nada

“Calma, me dá sua mão...”

Dois passos e ela continua distante. Desde que eles se conheceram parece assim; ele corre em sua direção, ela fecha os olhos e segue seu caminho. Às vezes ele pensa que é uma tentativa inútil, mas basta um aceno dela para se desarmar de novo e seguir achando que é capaz de traze-la para perto.

“Agora vamos, um de cada vez...”

Ele acha tudo isso muito novo. Não costuma se interessar por alguém a ponto de querer trazer por sua vida, mas ela o instiga de tal maneira que não consegue evitar. Talvez não o faça de propósito, é verdade – parece apenas ser o jeito dela, reservada e cautelosa –, só que ele se sente estranhamente atraído. Acaba sendo conduzido sem perceber.

“Um, dois, três, quatro...”

Ela quase nunca vem até ele. Seus passos são secos, sempre para longe. Não parece se importar o suficiente para deixá-lo se aproximar, mas também não o evita. Talvez ele não sinta que é preciso não agir, que na ausência ela pode descobrir que ele é perfeito para ela, por isso reclama e age o tempo todo. Acaba que nada parece sair do lugar.

“Cinco, seis, sete, oito...”

Eles seguem instáveis. Ambos são fechados, mas um quer ceder. O tempo passa e tudo parece permanecer igual. Ele espera cada dia, ela sente as horas pesarem. Para ele, ainda não se conhecem como deveriam se conhecer. Para ela, não deveriam se conhecer como poderiam. Talvez por isso nada pareça mudar, ainda que mude a todo instante. (Eles não sabem, mas é para ser assim.)

“Pronto, chegamos. Abre os olhos...”

Ele não dá mais passos. Ela não sai mais do lugar. Os olhos nunca se cruzam – ele prefere desviar sempre que ela mira os seus. O jazz que toca em seus ouvidos não é o peso que passa pelos dela. Mesmo assim estão lado a lado. Não se tocam, não se tentam, mas não se afastam. A noite cai igual porque continuam assim. E eles não conseguem perceber o óbvio.

“Vem, é aqui. Não falei que era seguro comigo?”

Só que estão sempre ali.

domingo, outubro 12, 2003

Sem Estações

Venta forte cada vez que penso em você. Jamais imaginei que o clima pudesse representar tão bem o que a saudade faz comigo, mas a chuva me ensinou que é simples assim, quando molha meu rosto e lembra as lágrimas que derramei por você. Aprendi que se tudo fica cinza, é porque você não está por perto, e que se está claro, é para meus olhos se fecharem e me forçarem a lembrar do que já se foi.

Mas aqui dentro é sempre escuro, então não sinto você. Talvez seja mais fácil assim. Porque o papel em que lhe escrevi está na minha mesa há mais tempo do que deveria - não o entreguei, mas também não o joguei fora. Observo-o todo dia jogado ali, às vezes o pego e leio as linhas tremidas e palavras manchadas, depois o largo de novo, enquanto volto para minha cama para viver uma vida que não é triste assim. Então acordo em um novo dia sozinho, e fico certo de que não tenho escolhas por as coisas serem tão diferentes nesse mundo daqui.

Estranho perceber que qualquer decisão sempre me é penosa, ainda que elas não representem tanto assim. Talvez não consiga lidar com os resultados, arcar com as conseqüências de uma manhã ser de sol e outra chuvosa. Quem sabe eu prefira o tempo frio para me colocar debaixo das cobertas e me defender dos trovões como criança assustada.

Ou apenas eu sinta que não há lugar seguro para ir sozinho.

segunda-feira, setembro 22, 2003

Recado

Hoje se completam dois anos de Rumo Ao Nada.

Quando comecei isso aqui, a idéia era apenas publicar alguns escritos dos quais eu me orgulhava. De lá para cá, virei um escritor compulsivo, refém do meu próprio monstro. De fato, nunca imaginei que pudesse durar tanto.

Obrigado a todos que fazem parte disso aqui, tanto como leitores quanto como fonte de inspiração. Vocês são a origem e o fim de tudo.

E que mais e mais anos se sigam em palavras!

quinta-feira, setembro 11, 2003

Um Pouco Mais

I

As quatro horas não chegavam, e chovia. Chovia como poucas vezes chovera por ali, gotas finas e quentes, lembrando as lágrimas que vez por outra brotavam dos olhos dela. Mas nada mudava, e as quatro horas não chegavam. Frio, muito frio. A solidão fazia-se sentir nela naquele instante.

Tomava seu café lentamente, a fumaça parecendo brincar em frente ao seu rosto, e um sorriso estático, falso talvez, insinuava-se para os olhares alheios. Seu ar era sóbrio, ainda que seu semblante carregasse uma dor que parecia não querer se esconder. Estava sentada em uma mesa de canto, sozinha, quase perdida em meio à pouca luz. Quase. Perder-se-ia caso não houvesse mais ninguém ali, caso os espaços fossem imensos, mas próxima a tanta gente sua beleza incomum impossibilitava uma ausência de percepção. Um clichê tornando-se real, a personagem colorida de um filme em preto e branco.

Uma garçonete aproximou-se de sua mesa. Mascava um chiclete e andava desajeitada, implorando por desejos masculinos. Recolheu a xícara e anotou algo em seu bloco, olhando para a moça com desdém. Ela sorriu em gesto automático, balbuciou algo e voltou seus olhos para a parede, com charme que não lhe era caro. Ali estava a diferença, ali estava o especial. 'Só ela poderia ser assim', as paredes pareciam dizer. A mim, só restava acreditar. Permaneci sentado no canto extremo, estudando seus gestos como um aluno devoto, dedicado. A distância era muito maior que as doze mesas, sugeria milhas ou léguas, um farol longínquo para um marinheiro perdido em um oceano de incógnitas. E não havia como chegar.

II

O tempo que passa não é mais o meu tempo. Só ouço a chuva, mas não sinto seu gosto, seu cheiro. Ela não me diz mais nada, porque tudo acontece igual, e eu não sei mais ser assim. As quatro horas logo vão chegar, e nada vai ser diferente. Frio, muito frio. Se existe solidão, ela está aqui.

Preciso de café para me manter viva. Não ligo para as lágrimas, não me importo de sorrir por conveniência, não sinto. De onde vem minha calma? A fumaça passeia a minha frente e isso é tão importante quanto o quadro naquela parede. Arte, fé, brinquedo - quem sou eu no meio de tantos nãos? Nada além de mim, outra como eles. Eles. Os donos dos olhares, os sedentos de porquês. Vocês não entendem? Sou essa, branca, vaga, nula. Perdida, talvez. Cansada das cores, descrente de tudo. Menos do café que me aquece a alma. Sorri.

E ela vem de novo, papel e caneta na mão. Desperdício, puro desperdício. Há mais nas palavras do que essa suja consegue perceber. Mas sorrio para ela, ela me traz a vida. 'Um café, por favor'. E sei que você me olha com desdém, mas não ligo. Você é fraca, como eles. Carente de desejos, como eles. Só eu tenho as paredes, e só elas falam para mim. Doze mesas e ele está ali. O que olha, se não consegue ver? Há um mar entre nós, você está disposto a nadar? Consegue ver a luz que mostro a você? É longe, é forte, é perigoso. Vivo aqui para mim, e não acredito que você possa viver também. Há um barco, talvez, mas é preciso achar. Meus olhos não são de ninguém, só as paredes os têm. Está escuro. Um dia poderemos nos encontrar. Até.

sábado, agosto 30, 2003

Recomeço

Tudo estava em desordem. Ainda havia chuva caindo do lado de fora, roupas jogadas pelo chão e pontas de cigarro pelos cinzeiros. Talvez um quadro que se pudesse pintar daquela situação servisse como síntese da sua vida, porém ninguém se interessaria em imortalizar o banal. Já se conhecia o suficiente para saber que era assim.

“Eu só encanto os que já perderam as esperanças.”

Existia calma no lugar, ainda que dentro dele tudo estivesse virado pelo avesso. Nada mais doía. Só importava estar de volta.

quinta-feira, agosto 07, 2003

FIM

Porque toda estrada tem um final e essa daqui encontrou o seu.

terça-feira, julho 08, 2003

Mentiras Certeiras

Não criei a mim mesmo para seguir um caminho que é só meu. Não sei quais foram as razões que me levaram a esses dias que eu gostaria apenas de deixar para trás. Não vim para ouvir de você o que sempre escuto quando tento voltar. Não.

É algo mais aqui.

O maior problema da dor é quando ela se torna tão banal que a gente nem se importa mais se sente ou não.

E fica fingindo ser feliz para nada, porque na verdade não merece ser além do que se pode ver.

Por isso é tudo escuro assim.

segunda-feira, junho 30, 2003

De Tão Pouco Tempo

O silêncio meu e seu naquele fim de tarde não dizia nada, como todo silêncio nosso dos últimos meses. E eu que sempre achei que o dia em que não conseguíssemos falar nada seria porque tudo estava dito, agora via que estava totalmente enganada. Você olhava para a parede cinza como se dela fossem saltar as perguntas que você deveria fazer para mim, e eu olhava para você como se da sua boca ainda pudesse sair algo mais do que um suspiro triste. Já estávamos distantes um do outro, por mais que não quiséssemos aceitar. Eu corria e parava sem saber a direção que estava por vir.

Não sentia mais vontade de lhe dar um abraço ou mesmo de olhar em seus olhos com o mesmo brilho de quando nos conhecemos. Eu era mais inocente ali, perdida em suas vontades, e você enxergava de mim muito além do que eu sabia. Só que eu sempre tive medo, você sabe, menina que era e não sabia lidar com minhas emoções, e ia e voltava de nós dois como se pudesse continuar brincando com as minhas incertezas, até a hora em que me vi obrigada a decidir. O problema foi que eu nem sabia que decisão era essa, e você também não sabia o que dizer para me confortar.

Mas as palavras ainda existiam dentro de mim e de você, apesar do silêncio. Elas estavam distantes, perdidas em emoções passadas, jogadas na solidão que cada um de nós construiu para si, esperando ser encontradas. E se foram assim. Tentar chegar até você já não era o refúgio que o meu coração pedia, e talvez deixar você partir não fosse tão ruim assim. Ou talvez o melhor seria eu sair. Sempre é difícil decidir o que não se sabe ao certo.

De repente nem mais estávamos ali.

domingo, junho 22, 2003

Outros Campos

E ela me olhou com os olhos de quem não sabe o caminho certo e disse: “vem, vamos ficar juntos, com você do meu lado nada é ruim, eu preciso de paz agora”, aí pegou em minhas mãos com força, como se isso me fizesse acreditar ainda mais nas suas palavras.

Eu estava quieto. Mais do que nunca queria trazer alguém para perto de mim, começar um mundo novo com ela, que nem eu quis quando conversamos pela primeira vez algumas semanas antes. Mas minhas mãos não mexiam, eu continuava em silêncio e só conseguia pensar em como tudo tinha mudado tão de repente.

Era apenas um sonho, só um sonho. Não conseguia tirar os olhos das mãos dela. Os dedos entrelaçavam-se rapidamente, depois batiam as pontas na mesa, depois se esticavam preguiçosos e então descansavam de novo por alguns segundos, não mais do que alguns segundos, e aí tudo se repetia incontáveis vezes. E eu ria desajeitado, tentando disfarçar o fascínio que aquela timidez me despertava, mas que ao mesmo tempo me dava uma sensação de imobilidade, de que nada daquilo seria de grande serventia no futuro. Era apenas um momento, só um momento, e quando acabasse eu talvez nem fosse lembrar que me sentira bem em estar ali.

O início de uma tarde fria. Os livros, o jazz, o capuccino sobre a mesa redonda. “Você não precisa ficar distante, eu estou aqui, vem, vamos ser felizes, você sabe me deixar assim”, mas eu não consigo, não chego perto, não me mexo. Eu não sou capaz de trazer para perto de mim. E as cortinas se fecham, eu quero abrir, mas elas se fecham, aos poucos, inteiras, cinzas. Que nem ela, quando disse que havia trancado as portas e que só existia o medo de não ter amor para dar em troca. É que a estrada se tornou escura e já não dá para saber se o sonhar é tão real quanto parece ser. Resta sentir.

domingo, junho 08, 2003

Quase Um Só

Quebrar tudo que tem pela frente sempre me pareceu a solução ideal para compensar minhas frustrações. Quando eu era pequeno e não sentia tanta dor, ainda assim gostava de jogar coisas na parede e gritar bem alto para tirar daqui de dentro o que incomodava. Naquela época eu já não entendia direito o que se passava, mas achava que era porque não tinha ainda idade para entender, e não porque não era capaz de controlar minhas angústias. Só que a gente cresce e percebe estranhamente que certos hábitos nunca mudam, e aí passa a chorar de desespero e a não conseguir aceitar que as atitudes podem fugir da vontade. E pensa que a vida de repente pode mudar, que aquela solidão não é uma solidão só, mas várias, e que deixar as coisas inteiras não significa nada se você também não está inteiro. E aí os objetos viram os inimigos, a parede se torna o mundo e você se torna nada. Tudo cai, tudo quebra, tudo vira ao contrário. Não há mais dor por um instante, depois a dor volta e te joga a realidade na cara, e aí a gente acha que o que é real nunca foi real ou então que vive numa mentira própria, que é tudo inventado pela gente ou por um outro alguém. Dá vontade de sair correndo, de voltar a gritar bem alto para expulsar tudo, e o grito sai mudo, e as pernas não respondem, e tá tudo escuro de novo. Sozinho. E as paredes que eram o mundo agora são o buraco negro e você é pequeno, pequeno, pequeno. Não consegue alcançar as coisas e elas não podem ser quebradas. Aí começa a se quebrar, porque não pode ficar inteiro, não há inteiro, só partes, e cada parte é um pouco de um todo que não existe, mas que quebrado pode existir. E surge de novo a angústia, a dor que não pára nunca, a vontade de ficar imóvel e simplesmente deixar o tempo passar. Só que ele não passa, e a gente se mexe à toa, só para ver se alguma coisa ainda está no lugar. E volta a ser grande, a se atrapalhar com as coisas e querer que elas não existam. Pede para a dor parar, para o gritar ter som e as cores do mundo preto e branco saírem do lugar que não é delas. E cai da cama para acordar da solidão e sentir que é tudo sozinho mesmo sem querer. Não há fuga para a confusão. As coisas estão no mesmo lugar.

terça-feira, junho 03, 2003

Epílogo de Duas Vidas em Papel

A última voz que imaginava ouvir naquela noite de fim de semana era a sua. Talvez por isso não tenha atendido de primeira quando vi no telefone o número de um lugar que não era o seu. E até agora não entendi o que aconteceu ao certo, como você voltou a fazer parte da confusão que existe aqui dentro. Mas a verdade é que voltou, e eu preciso fazer algo.

Não sou imune a você. Nunca fui, desde o primeiro instante, e pareço ser menos ainda depois de tudo que aconteceu. Pedir para ignorar o que sua voz me disse naquela noite de fim de semana é inútil, você sabe que não sou assim. Eu me preocupo, sempre me preocupei, e não foram meses, distância e silêncio que afastaram isso de mim, não mesmo. Só estava guardado, e agora voltou tudo. Estou aqui.

Você não vai ler isso, ninguém vai. Não dessa vez. Acho que aprendi com você que as palavras dizem mais do que os olhos sem dor podem perceber. Você entenderia, eu sei, mas talvez seja tarde. Quem sabe não é. Você escolheu assim.

Espero que fique bem.

domingo, maio 25, 2003

Os Sãos
Para uma amiga

Por onde anda você? Talvez estejamos distantes demais agora para ver que nada está no mesmo lugar. Você consegue perceber isso? Nosso castelo ruiu, não há mais um só em dois de nós. Acho que eu gostava do escuro que era nosso, o cinza preenchendo as certezas que você sempre quis ter.

Por que você continua? Não precisa ficar se não for para estar ao meu lado. Você não sente que já acabou? Fizemos o que estava ao nosso alcance, mas algo se perdeu nesse caminho de luz que surgiu a nossa frente. Acho que você gostava do silêncio das nossas confissões, o olhar cheio de respostas a perguntas que eu nunca quis fazer.

Às vezes as coisas simplesmente terminam em vazio.

Eu achei que os dias de sol esquentassem a gente, mas a verdade é que eles podem ser tão gélidos quanto tentar achar algum sentido para estarmos aqui.

quarta-feira, maio 14, 2003

Casa nova para o Rumo Ao Nada, com direito a comentários e o quadro que é a síntese do conceito disso aqui.

sábado, maio 10, 2003

Rumo Ao Nada

Eu não sei escrever textos alegres. Meu alimento é a melancolia, minha inspiração é a tristeza que consome o mundo. Talvez isso represente a forma como eu vivo. Ou talvez seja a forma como eu vejo o que é externo a mim. De fato, não sei. Não acho que tenho uma resposta para isso, e nem acho que preciso ter. Apenas deixo as coisas saírem daqui.

- Mas você não sabe o que escreve? Não é o que você sente?

- Seus textos são tão intensos, eu sinto eles em mim...

- Adoro quando você fala de olhares!

- Sabe aquele texto da menina e do malabarista? É o meu favorito!

- Doeu ler seu último texto. Fico preocupada com você.

- Tá tudo bem? Me escreve.

- Quando é que você vai atualizar o site, hein?

- Que lindo esse seu último texto!

- Não agüento mais suas lamentações.

- Sei lá, eu não curto muito os diálogos...

- Ok. Depois eu leio.

Eu só sei escrever por causa de vocês.

terça-feira, maio 06, 2003

Silly Love Songs

- Aí, não tô gostando da minha vida assim não.

- Quê? Você só pode estar brincando! Que que foi agora, cara?

- Não sei. Tá tudo calmo demais. Não gosto disso.

- Como assim, porra? Você vivia reclamando das suas confusões e agora não tá satisfeito porque tá tudo calmo? Você é louco!

- É...

- Não acredito nisso, na boa.

- É sério, cara. Minha vida tá muito calma, preferia como era antes.

- Puta merda, hein? Nada te agrada, que saco.

- É... acho que sou assim mesmo. Mas agora é diferente, sabe...

- Diferente por quê?

- Porque pelo menos eu sei do que não tô gostando.

- Ah, mas isso você sempre sabe.

- Não, não sei. Eu sempre acho que sei, mas nunca sei de verdade. Tanto é que nenhuma mudança me agrada. Acho que é esse lance de ser pós-moderno...

- Ahn?!

- É, pô... de criticar por criticar, saca? De estar insatisfeito com o que tá rolando mas não ter idéias pra melhorar.

- Você é maluco.

- Também. Mas faz sentido, vê só... eu nunca tô satisfeito com nada, não é isso?

- É, pô.

- Então pronto. Na verdade, eu não gosto de nada. Ou gosto de tudo e não consigo escolher o que me satisfaz, sacou?

- Não. Você é maluco.

- Você já disse isso.

- ...

- Mas não é culpa minha.

- Claro que é!

- Não, não é não. Dessa vez não.

- Então tá.

- É tudo culpa das canções de amor.

- Quê?

- As canções de amor, pô. Se não fosse por elas, eu não estaria assim.

- Eu, hein.

- É. Eu descobri que preciso de paixões na minha vida. Me alimento disso.

- Mas você sempre sofre quando tá apaixonado...

- Talvez seja essa a lógica da coisa.

- Ahn?

- Eu me sinto mais vivo assim.

- Putz...

- É que eu adoro tolas canções de amor.

domingo, abril 20, 2003

Pintura Abstrata

- Sou sentimental como nunca. Inadequado como sempre.

Deu um aperto no peito quando estiquei o braço logo que acordei e você não estava do lado da cama que sempre foi seu. Essa cena já tinha acontecido várias vezes (faz tempo que você não está ali), mas, por algum motivo, só hoje senti o vazio que se instaurara desde então. É um problema grave; às vezes meu cérebro não aceita o perder, me deixando suspenso, longe da realidade, como se o conceito de perda pudesse ser relativizado. Talvez seja essa a explicação de fato - ou apenas a verdade que eu criei para mim, a que eu prefira acreditar para não ter que lutar pela volta e admitir um novo fracasso (não é sempre assim?).

Confesso que estranhei minha frieza ter ido embora nesse momento. O espaço maior na cama me agradava, representação concreta dos anseios de liberdade que sempre tive. Não há constância em minhas vontades, eu sei, só que o caminho percorrido agora é muito longo para fugir do paradoxo. Levanto e olho pela janela, a mesma que já foi um quadro com o tempo parado e hoje vaza a parede. A neve cai forte no mundo que não é meu. Seus óculos ainda estão na mesa de cabeceira, marcados na lente direita pelos seus dedos sonolentos, e me pergunto se o calor que sentíamos dentro dessas quatro paredes um dia realmente existiu.

O cinza delas me diz que não.