Filme Caseiro
Ela chegou com os olhos bem vermelhos. Se não a conhecesse muito bem, diria que tinha fumado maconha. Só que ela não era de fazer essas coisas. Além do mais, a expressão que seu rosto trazia denunciava que aquela estranha coloração vinha de horas e mais horas de choro desesperado. O que acontecera eu ainda não sabia, mas com certeza não era simples.
Reparei que trazia em suas mãos um papel amassado. Fiz menção para que me entregasse, porém ela o apertou ainda mais. Seus olhos encheram d’água. Aquele gesto me pareceu bastante familiar e, ao mesmo tempo, um tanto incomum para alguém como ela. Sua força sempre fora o motivo de seu maior orgulho e nunca a vira tão descontrolada. A boca estava seca e não dava a impressão de que fosse capaz de emitir qualquer som.
Passei minha mão por seus cabelos e a puxei de encontro ao meu ombro. No que a abracei, ela pareceu desfalecer. Seu corpo pesava indefeso e quente, ansioso por amparo. Eu não conseguia dizer nada, até por não saber o que se passava com ela. Apenas ficava ali presente, esperando que esse meu estar a fizesse bem.
Ela, porém, não se acalmava. Ao contrário, chorava copiosamente e me apertava com a pouca força que lhe restava. Afastei-a por um breve momento e fitei seus olhos outrora azuis. Eram tristes e angustiantes agora, tomados por aquele vermelho que tanto me assustara minutos atrás. E eu simplesmente não sabia o que fazer.
Do som de sua voz baixa tentei identificar alguma palavra, sem sucesso. Aproximei meus ouvidos de seus lábios, porém ela se calou de novo. Disse a ela que podia confiar em mim e que queria saber o que estava acontecendo, ao que fui repreendido com um “você não entenderia”.
Peguei de suas mãos o papel amassado sem que houvesse qualquer resistência. Dentro dele, em letras tremidas, pude ler aquelas palavras que por anos ansiava ouvir de sua boca. Algo me dizia, porém, que não tinham sido escritas para mim. Ela me olhou com firmeza e pude ter a certeza do meu engano. Dessa vez eram meus olhos quem marejavam, infelizes por tanto amor desperdiçado.
Virou as costas e se colocou a sair de minha casa. Antes de ir, olhou-me em um último momento com ar de despedida. Esse gesto doeu mais do que qualquer perda que eu já tivera em meus vinte e poucos anos de vida. Mandou-me um beijo lento e fechou a porta.
O céu era cinza e um vento frio entrava pela janela entreaberta. Meu som tocava Chet Baker e a garrafa de vinho tinto estava vazia em cima do sofá. Tudo seria triste aqui.
"Mas nada vai conseguir mudar o que ficou
Quando penso em alguém, só penso em você
E aí então estamos bem..."
Renato Russo, "Por Enquanto"
terça-feira, julho 02, 2002
Pela Manhã
Acordou assustado. Suava e ofegava como nunca lhe acontecera. Pelo ar, era capaz de sentir aquele perfume que tanto lhe fizera bem em todos os dias de convivência. Ela estivera em seu sonho, sem dúvidas, e isso a colocara tão próxima quanto desejava que estivesse agora.
Sentia um aperto no peito. Desconhecia aquela sensação, mas algo lhe dizia que seu nome era saudade. Ela partira não havia muito tempo, porém a sua ausência já começava a se mostrar como dor. Algumas lágrimas escorreram do seu rosto. Lamentou ainda mais que ela não estivesse por perto para ter seu abraço agora.
Seu primeiro impulso foi pensar em ligar. Discou os primeiros números e desistiu. Teve vontade de jogar o aparelho forte contra a parede. Não o fez, contudo. Abaixou a cabeça e o choro passou a ser compulsivo. Tremia todo o seu corpo. Parecia que sua vida tornara-se vazia sem ela, que as coisas tinham perdido o sentido.
Olhou para o relógio e viu que não passava das oito horas da manhã. Dormira pouco e faltava muito para o dia acabar. E a única coisa que precisava agora era que os dias passassem rapidamente, trazendo-a de volta o mais breve possível. Se é que ela de fato irá voltar. Esperar.
Pela primeira vez, sentiu que suas manhãs seriam difíceis demais.
Acordou assustado. Suava e ofegava como nunca lhe acontecera. Pelo ar, era capaz de sentir aquele perfume que tanto lhe fizera bem em todos os dias de convivência. Ela estivera em seu sonho, sem dúvidas, e isso a colocara tão próxima quanto desejava que estivesse agora.
Sentia um aperto no peito. Desconhecia aquela sensação, mas algo lhe dizia que seu nome era saudade. Ela partira não havia muito tempo, porém a sua ausência já começava a se mostrar como dor. Algumas lágrimas escorreram do seu rosto. Lamentou ainda mais que ela não estivesse por perto para ter seu abraço agora.
Seu primeiro impulso foi pensar em ligar. Discou os primeiros números e desistiu. Teve vontade de jogar o aparelho forte contra a parede. Não o fez, contudo. Abaixou a cabeça e o choro passou a ser compulsivo. Tremia todo o seu corpo. Parecia que sua vida tornara-se vazia sem ela, que as coisas tinham perdido o sentido.
Olhou para o relógio e viu que não passava das oito horas da manhã. Dormira pouco e faltava muito para o dia acabar. E a única coisa que precisava agora era que os dias passassem rapidamente, trazendo-a de volta o mais breve possível. Se é que ela de fato irá voltar. Esperar.
Pela primeira vez, sentiu que suas manhãs seriam difíceis demais.
sexta-feira, junho 28, 2002
Cortante
O relógio marcava nove e meia da manhã. O dia acabava de começar, mas ele sentia como se não tivesse mais forças para nada. Levantou-se da cama e abriu a porta que dava até o banheiro. Olhou-se no espelho e viu o quão profundas eram suas olheiras. Jogou água no rosto e passou as mãos com vigor no cabelo, tentando faze-lo ficar de uma forma pelo menos agradável, mas não teve muito sucesso.
Voltou para o quarto e abriu as janelas. Não gostava muito da luz do sol, porém naquele dia parecia-lhe ser uma boa deixá-la entrar no seu mundo. Precisava de algo que lhe injetasse um pouco de ânimo e afastasse aquela tão estranha sensação de infelicidade.
Voltou seus olhos para a poltrona que ficava próxima à cama e viu que havia mancha de sangue na camisa que usara na noite anterior. Tentou lembrar-se do que fizera, mas sua memória parecia ter ficado limitada aos momentos que passara em casa. Não lembrava de ter saído em algum momento. Estranhou aquilo, deu de ombros e foi preparar o café da manhã.
Ao tentar abrir a porta, notou sangue também na maçaneta. Tentou girá-la e não teve sucesso. Estava trancado em seu próprio quarto. Correu até a janela e olhou para fora. Décimo quinto andar. Não tinha sequer como saltar por ali. Para piorar, não havia um aparelho de telefone dentro do quarto, só na sala.
Começou a procurar mais resquícios de sangue pelo ambiente e encontrou uma pequena poça próxima à escrivaninha que usava para desenhar. Ao lado, uma garrafa de vinho quebrada. Mas ele não bebia. Ficou apavorado.
Andava de um lado para o outro freneticamente, como se assim pudesse enxergar alguma solução. Pensou em berrar pela janela, mas daquele andar, no meio de Copacabana, era improvável que alguém o ouvisse. Foi nesse momento que se deu conta de que não tinha qualquer ferimento em seu corpo, o que implicava aquele sangue ser de outra pessoa.
Forçou mais uma vez sua memória, mas não conseguia de fato se lembrar do que ocorrera na noite anterior. Seu desespero aumentava a cada segundo. Em um gesto instintivo, abaixou-se e olhou para baixo da cama.
Só conseguiu ouvir o som de uma porta se abrindo e a lâmina entrando firme em suas costas.
O relógio marcava nove e meia da manhã. O dia acabava de começar, mas ele sentia como se não tivesse mais forças para nada. Levantou-se da cama e abriu a porta que dava até o banheiro. Olhou-se no espelho e viu o quão profundas eram suas olheiras. Jogou água no rosto e passou as mãos com vigor no cabelo, tentando faze-lo ficar de uma forma pelo menos agradável, mas não teve muito sucesso.
Voltou para o quarto e abriu as janelas. Não gostava muito da luz do sol, porém naquele dia parecia-lhe ser uma boa deixá-la entrar no seu mundo. Precisava de algo que lhe injetasse um pouco de ânimo e afastasse aquela tão estranha sensação de infelicidade.
Voltou seus olhos para a poltrona que ficava próxima à cama e viu que havia mancha de sangue na camisa que usara na noite anterior. Tentou lembrar-se do que fizera, mas sua memória parecia ter ficado limitada aos momentos que passara em casa. Não lembrava de ter saído em algum momento. Estranhou aquilo, deu de ombros e foi preparar o café da manhã.
Ao tentar abrir a porta, notou sangue também na maçaneta. Tentou girá-la e não teve sucesso. Estava trancado em seu próprio quarto. Correu até a janela e olhou para fora. Décimo quinto andar. Não tinha sequer como saltar por ali. Para piorar, não havia um aparelho de telefone dentro do quarto, só na sala.
Começou a procurar mais resquícios de sangue pelo ambiente e encontrou uma pequena poça próxima à escrivaninha que usava para desenhar. Ao lado, uma garrafa de vinho quebrada. Mas ele não bebia. Ficou apavorado.
Andava de um lado para o outro freneticamente, como se assim pudesse enxergar alguma solução. Pensou em berrar pela janela, mas daquele andar, no meio de Copacabana, era improvável que alguém o ouvisse. Foi nesse momento que se deu conta de que não tinha qualquer ferimento em seu corpo, o que implicava aquele sangue ser de outra pessoa.
Forçou mais uma vez sua memória, mas não conseguia de fato se lembrar do que ocorrera na noite anterior. Seu desespero aumentava a cada segundo. Em um gesto instintivo, abaixou-se e olhou para baixo da cama.
Só conseguiu ouvir o som de uma porta se abrindo e a lâmina entrando firme em suas costas.
domingo, junho 16, 2002
Questionamentos
- Por que você demorou tanto pra voltar?
- Porque era necessário...
- Como assim?
- Ah, eu tinha que repensar algumas coisas.
- E adiantou?
- Com certeza.
- E eu posso saber o que você tinha que repensar?
- Não.
- Por que não?
- Porque são coisas muito íntimas, umas confusões que você não ia entender.
- Não posso nem tentar?
- Esquece isso, vai... o que importa é que eu tô aqui agora.
- Será que tá mesmo?
- O que você acha?
- Não sei...
- Dá pra deixar de ser tão inseguro?
- Só se você disser que me ama.
- E eu preciso mesmo dizer?
- Humm...
- Seu bobo.
- Por que você demorou tanto pra voltar?
- Porque era necessário...
- Como assim?
- Ah, eu tinha que repensar algumas coisas.
- E adiantou?
- Com certeza.
- E eu posso saber o que você tinha que repensar?
- Não.
- Por que não?
- Porque são coisas muito íntimas, umas confusões que você não ia entender.
- Não posso nem tentar?
- Esquece isso, vai... o que importa é que eu tô aqui agora.
- Será que tá mesmo?
- O que você acha?
- Não sei...
- Dá pra deixar de ser tão inseguro?
- Só se você disser que me ama.
- E eu preciso mesmo dizer?
- Humm...
- Seu bobo.
quarta-feira, junho 05, 2002
Por Agora
Segurou as mãos dela com força. Mesmo aquele gesto já repetido tantas outras vezes lhe parecia ser diferente agora. Sensações novas tomavam todo o seu corpo, sem que deixasse esconder toda a felicidade sentida por ele naquele momento.
Ela olhou em seus olhos com ternura. Deu um sorriso único, aquele que ele sempre dissera ser o mais bonito de toda a sua vida, e o abraçou demoradamente. Sentia-se feliz como há muito não conseguia. Apesar de tudo que havia acontecido, parecia que seu lugar era mesmo ali.
Beijaram-se. Não um beijo ansioso, mas singelo. Puro e lento. Diferente de todos os anteriores. Nem melhor, nem pior. Apenas diferente. Com gosto de vitória, talvez. Mas não de certeza, porque há um clichê de mais pura verdade: na vida não se tem certeza de nada.
E é da dúvida que surge a esperança de que algo possa ser a cada dia ainda melhor.
E é por agora que se vê tudo isso.
Segurou as mãos dela com força. Mesmo aquele gesto já repetido tantas outras vezes lhe parecia ser diferente agora. Sensações novas tomavam todo o seu corpo, sem que deixasse esconder toda a felicidade sentida por ele naquele momento.
Ela olhou em seus olhos com ternura. Deu um sorriso único, aquele que ele sempre dissera ser o mais bonito de toda a sua vida, e o abraçou demoradamente. Sentia-se feliz como há muito não conseguia. Apesar de tudo que havia acontecido, parecia que seu lugar era mesmo ali.
Beijaram-se. Não um beijo ansioso, mas singelo. Puro e lento. Diferente de todos os anteriores. Nem melhor, nem pior. Apenas diferente. Com gosto de vitória, talvez. Mas não de certeza, porque há um clichê de mais pura verdade: na vida não se tem certeza de nada.
E é da dúvida que surge a esperança de que algo possa ser a cada dia ainda melhor.
E é por agora que se vê tudo isso.
quinta-feira, maio 30, 2002
Em Um Quarto Escuro
Decidiu que não ia mais se levantar da cama. Ali o mundo parecia mais seguro – era onde se sentia imune a qualquer coisa, capaz de ser feliz de fato –, por isso não havia motivos para sair daquele lugar tão aconchegante. A escuridão do seu quarto trazia a sensação de que, além dele, nada mais existia, e dispersava os pensamentos capazes de lhe fazer sofrer. Na verdade, odiava lembranças. Se tivesse a opção de remover do seu íntimo algo, seria a ridícula capacidade de guardar momentos na memória e traze-los à tona quando menos conveniente.
Mantinha os olhos abertos. Não tinha idéia da hora, mas podia precisar que já era tarde da noite. Madrugada, talvez. Era sempre assim. Não conseguia deitar e simplesmente esquecer de tudo, por mais que quisesse. Seus pensamentos eram tomados por todos os seus fracassos, pela noção de que era incapaz de acertar pelo menos uma vez. Recontava as experiências, via que os erros se repetiam com inacreditável freqüência e só conseguia chorar. Tornara-se um fraco, é verdade. Fragilizado por constantes decepções, atirado ao isolamento por não agüentar mais colecionar insucessos. Se um dia existira esperança em seu peito, ela com certeza se perdera.
Parecia que o mundo se tornara complexo demais para ele. Estava com medo de viver em companhia de outras pessoas, como se todos fossem ameaças à sua felicidade. Não conseguia perceber, no entanto, que não havia mais uma felicidade a ser estragada. Sua conduta lhe fazia amargo e o afastava daqueles que ainda tinham algum tipo de carinho por ele. A solidão daquele momento em seu quarto nada mais era do que uma metáfora do que estava por se tornar a sua vida.
Fechou os olhos por um breve instante e teve vontade de não estar mais ali. Ao abrir, porém, percebeu que nada mudara. Os castelos de areia em que calcou sua vida estavam destruídos há tempos, e era tarde demais para mudar o mundo de ilusões e fantasias que criara para si.
Abraçado ao seu travesseiro, chorou mais uma vez. Descobriu que precisava muito mais do que a escuridão de um quarto e uma cama aconchegante para fingir ser feliz, mas um pouco tarde para que as coisas pudessem ser diferentes. Só conseguia pensar no que havia deixado para trás.
Precisava ter aprendido a viver no universo real.
Decidiu que não ia mais se levantar da cama. Ali o mundo parecia mais seguro – era onde se sentia imune a qualquer coisa, capaz de ser feliz de fato –, por isso não havia motivos para sair daquele lugar tão aconchegante. A escuridão do seu quarto trazia a sensação de que, além dele, nada mais existia, e dispersava os pensamentos capazes de lhe fazer sofrer. Na verdade, odiava lembranças. Se tivesse a opção de remover do seu íntimo algo, seria a ridícula capacidade de guardar momentos na memória e traze-los à tona quando menos conveniente.
Mantinha os olhos abertos. Não tinha idéia da hora, mas podia precisar que já era tarde da noite. Madrugada, talvez. Era sempre assim. Não conseguia deitar e simplesmente esquecer de tudo, por mais que quisesse. Seus pensamentos eram tomados por todos os seus fracassos, pela noção de que era incapaz de acertar pelo menos uma vez. Recontava as experiências, via que os erros se repetiam com inacreditável freqüência e só conseguia chorar. Tornara-se um fraco, é verdade. Fragilizado por constantes decepções, atirado ao isolamento por não agüentar mais colecionar insucessos. Se um dia existira esperança em seu peito, ela com certeza se perdera.
Parecia que o mundo se tornara complexo demais para ele. Estava com medo de viver em companhia de outras pessoas, como se todos fossem ameaças à sua felicidade. Não conseguia perceber, no entanto, que não havia mais uma felicidade a ser estragada. Sua conduta lhe fazia amargo e o afastava daqueles que ainda tinham algum tipo de carinho por ele. A solidão daquele momento em seu quarto nada mais era do que uma metáfora do que estava por se tornar a sua vida.
Fechou os olhos por um breve instante e teve vontade de não estar mais ali. Ao abrir, porém, percebeu que nada mudara. Os castelos de areia em que calcou sua vida estavam destruídos há tempos, e era tarde demais para mudar o mundo de ilusões e fantasias que criara para si.
Abraçado ao seu travesseiro, chorou mais uma vez. Descobriu que precisava muito mais do que a escuridão de um quarto e uma cama aconchegante para fingir ser feliz, mas um pouco tarde para que as coisas pudessem ser diferentes. Só conseguia pensar no que havia deixado para trás.
Precisava ter aprendido a viver no universo real.
sexta-feira, maio 24, 2002
ALLC
Ontem eu quis controlar o tempo. Ser capaz de voltar, fazer segundos durarem horas, semanas se tornarem anos. Se eu pudesse ter esse controle, tentaria deixar cada momento nosso eterno, para que eles não se tornassem, de uma hora pra outra, apenas lembranças (dolorosas por serem só isso). Não agiria da mesma forma, é verdade, e daria um valor ainda maior a cada instante ao seu lado.
Se eu soubesse que você iria embora tão rápido assim, não deixaria sequer o tempo passar, acredite. Só que eu não tenho esse poder. E é por isso que hoje eu acordei chorando. E é por isso que amanhã vai ser assim também. E é por isso que eu não sei quando vai parar. Porque se realmente eu fosse capaz de fazer algo parar, com certeza eu optaria por parar você quando foi embora, quando me levou toda a esperança que nem eu acreditava existir. Porque se o tempo existe para mim agora, é para lamentar que ele possa andar.
Eu só queria que isso fosse diferente. Eu só queria que nossa história não terminasse assim. Eu só queria você aqui. Agora. Sempre. Sem ter tempo. Para que eu não chorasse mais e voltasse a ser feliz.
Ontem eu quis controlar o tempo. Ser capaz de voltar, fazer segundos durarem horas, semanas se tornarem anos. Se eu pudesse ter esse controle, tentaria deixar cada momento nosso eterno, para que eles não se tornassem, de uma hora pra outra, apenas lembranças (dolorosas por serem só isso). Não agiria da mesma forma, é verdade, e daria um valor ainda maior a cada instante ao seu lado.
Se eu soubesse que você iria embora tão rápido assim, não deixaria sequer o tempo passar, acredite. Só que eu não tenho esse poder. E é por isso que hoje eu acordei chorando. E é por isso que amanhã vai ser assim também. E é por isso que eu não sei quando vai parar. Porque se realmente eu fosse capaz de fazer algo parar, com certeza eu optaria por parar você quando foi embora, quando me levou toda a esperança que nem eu acreditava existir. Porque se o tempo existe para mim agora, é para lamentar que ele possa andar.
Eu só queria que isso fosse diferente. Eu só queria que nossa história não terminasse assim. Eu só queria você aqui. Agora. Sempre. Sem ter tempo. Para que eu não chorasse mais e voltasse a ser feliz.
quarta-feira, maio 22, 2002
segunda-feira, maio 20, 2002
Sem Complicar
Ele a pegou pela mão e a puxou para perto de si. Os olhos dela estavam umedecidos por lágrimas que insistiam em não escorrer pela face. Seu corpo tremia levemente, como se pedisse amparo. Tinha a impressão que ela podia desmontar a qualquer instante tamanha era sua fragilidade, e a única coisa que lhe parecia ser possível fazer era abraça-la. Assim permaneceu por um longo momento, até que tivesse coragem de dizer ao menos uma palavra.
- Eu...
- Não fala nada.
- Você precisa...
- Pra quê? Eu já sei...
- Tem certeza?
- Claro. Você também sabe, não é?
- Talvez. Tenho tanto medo...
- Medo? Medo de quê?
- De te perder, ora.
- Deixa de ser bobo, vai...
Era ele quem chorava agora. Um choro alto, angustiado, que parecia não querer parar. Abraçou-a de novo com força, em um gesto de desespero para não deixa-la partir.
- Eu não quero te perder...
- E nem vai, pára com isso!
- Mas você parece tão...
- Apaixonada.
- Como é?
- É isso mesmo.
- Você tem certeza?
- Isso importa tanto?
- Claro...
- Não deveria.
- Como não?
- Você precisa aprender uma coisa...
- O quê?
- A não querer ter tantas certezas.
- Não dá.
- Claro que dá.
- E pra que eu pensaria assim?
- Pra ver que é muito mais simples viver.
- Até parece...
- Olha, acredita numa coisa: eu te adoro.
- Mesmo?
- Eu nem vou lhe responder. Não ouviu o que eu falei?
- Desculpa. Posso lhe dar um beijo?
- Ainda precisa pedir?
- É só pra ter certeza...
- Puta merda, desisto!
Ele a pegou pela mão e a puxou para perto de si. Os olhos dela estavam umedecidos por lágrimas que insistiam em não escorrer pela face. Seu corpo tremia levemente, como se pedisse amparo. Tinha a impressão que ela podia desmontar a qualquer instante tamanha era sua fragilidade, e a única coisa que lhe parecia ser possível fazer era abraça-la. Assim permaneceu por um longo momento, até que tivesse coragem de dizer ao menos uma palavra.
- Eu...
- Não fala nada.
- Você precisa...
- Pra quê? Eu já sei...
- Tem certeza?
- Claro. Você também sabe, não é?
- Talvez. Tenho tanto medo...
- Medo? Medo de quê?
- De te perder, ora.
- Deixa de ser bobo, vai...
Era ele quem chorava agora. Um choro alto, angustiado, que parecia não querer parar. Abraçou-a de novo com força, em um gesto de desespero para não deixa-la partir.
- Eu não quero te perder...
- E nem vai, pára com isso!
- Mas você parece tão...
- Apaixonada.
- Como é?
- É isso mesmo.
- Você tem certeza?
- Isso importa tanto?
- Claro...
- Não deveria.
- Como não?
- Você precisa aprender uma coisa...
- O quê?
- A não querer ter tantas certezas.
- Não dá.
- Claro que dá.
- E pra que eu pensaria assim?
- Pra ver que é muito mais simples viver.
- Até parece...
- Olha, acredita numa coisa: eu te adoro.
- Mesmo?
- Eu nem vou lhe responder. Não ouviu o que eu falei?
- Desculpa. Posso lhe dar um beijo?
- Ainda precisa pedir?
- É só pra ter certeza...
- Puta merda, desisto!
quinta-feira, maio 09, 2002
Antes Que Seja Tarde
Certa vez eu falei para você que as coisas não voltariam a ser como eram antes. Você, como sempre, riu e disse que eu sempre falava isso e nunca colocava em prática. Talvez fosse verdade até então, mas estava decidido a mudar. Você não acreditou, é óbvio.
Ontem você passou por mim e trocamos apenas breves olhares. O tempo nos tornou mais amargos e distantes. Era inevitável que isso acontecesse, mas você nunca acreditou. Brigava comigo e falava para eu deixar de ser idiota. Essa é uma das poucas lembranças doces que trago de nossos momentos passados.
Não tive muito tempo para reparar em você, mas pude notar que o brilho que você carregava em seus olhos desapareceu. Infelizmente não estive por perto para acompanhar essa mudança e, quem sabe, poder ajudá-la a não perder esse que era seu maior atrativo. Confesso que doeu vê-la assim.
Mas eu tinha que mudar, as coisas não podiam continuar daquele jeito. Éramos só você e eu contra o mundo, vivendo isolados de tudo e de todos. Precisávamos crescer. Nosso medo de perder um ao outro me parece tão inútil hoje quanto as juras de amor eterno que fizemos ao longo de anos de convivência.
Sua forma de andar ainda era a mesma. Por alguns segundos, virei a cabeça para trás e fiquei torcendo para que você fizesse o mesmo e nossos olhares se cruzassem novamente. Imaginei-me correndo de encontro a você, abraçando-a e dizendo que agora estava pronto para nós dois. Só que você seguiu andando sem dar qualquer sinal de que pudesse mudar seu curso.
Eu devia ter ouvido você, mas meu orgulho não deixou. E você sabia disso também, por isso não se preocupou em insistir comigo. Respeitou minha decisão e foi embora sem demonstrar qualquer ressentimento.
Pois é. Hoje chorei por ter visto você assim, e nem precisava lhe falar isso. Você já sabe. Ninguém jamais soube de mim como você.
Certa vez eu falei para você que as coisas não voltariam a ser como eram antes. Você, como sempre, riu e disse que eu sempre falava isso e nunca colocava em prática. Talvez fosse verdade até então, mas estava decidido a mudar. Você não acreditou, é óbvio.
Ontem você passou por mim e trocamos apenas breves olhares. O tempo nos tornou mais amargos e distantes. Era inevitável que isso acontecesse, mas você nunca acreditou. Brigava comigo e falava para eu deixar de ser idiota. Essa é uma das poucas lembranças doces que trago de nossos momentos passados.
Não tive muito tempo para reparar em você, mas pude notar que o brilho que você carregava em seus olhos desapareceu. Infelizmente não estive por perto para acompanhar essa mudança e, quem sabe, poder ajudá-la a não perder esse que era seu maior atrativo. Confesso que doeu vê-la assim.
Mas eu tinha que mudar, as coisas não podiam continuar daquele jeito. Éramos só você e eu contra o mundo, vivendo isolados de tudo e de todos. Precisávamos crescer. Nosso medo de perder um ao outro me parece tão inútil hoje quanto as juras de amor eterno que fizemos ao longo de anos de convivência.
Sua forma de andar ainda era a mesma. Por alguns segundos, virei a cabeça para trás e fiquei torcendo para que você fizesse o mesmo e nossos olhares se cruzassem novamente. Imaginei-me correndo de encontro a você, abraçando-a e dizendo que agora estava pronto para nós dois. Só que você seguiu andando sem dar qualquer sinal de que pudesse mudar seu curso.
Eu devia ter ouvido você, mas meu orgulho não deixou. E você sabia disso também, por isso não se preocupou em insistir comigo. Respeitou minha decisão e foi embora sem demonstrar qualquer ressentimento.
Pois é. Hoje chorei por ter visto você assim, e nem precisava lhe falar isso. Você já sabe. Ninguém jamais soube de mim como você.
domingo, abril 28, 2002
Ciclo
Era a terceira vez que ela passava por ali. Parecia querer se fazer notar, pedir olhares atentos e pensamentos ansiosos. Caminhava com calma, como se o tempo tivesse parado e ela não quisesse ir a lugar algum.
Era a terceira vez que ele a via passar à sua frente. Seus olhos não conseguiam ser indiferentes e mais uma vez a seguiam afoitos. Sentia-se dividido entre falar algo ou apenas seguir contemplando-a, mesmo sabendo que qualquer uma dessas atitudes constituia-se como inútil.
Ela pára. Vira-se para trás. Seus olhares se cruzam por um breve instante. Ele respira fundo. Abre a boca como se fosse mencionar algo, mas desiste e abaixa a cabeça. Nela, o sorriso que se principiava logo desaparece, dando espaço à vaguidão. Vira-se novamente e segue seu caminho. Ele permanece sentado.
O dia ainda era claro quando ele se levantou e se colocou a andar sem rumo certo. Não sabia ao certo quanto tempo se passara - segundos, minutos, talvez horas. Ela não estava mais presente. Fora vencido mais uma vez por sua inconstância, ainda que tenha visto naquele olhar uma esperança perdida.
Um vazio tomou-lhe o peito. Estava sozinho, tal qual imaginara um dia estar por se fechar em um mundo de medo. Angustiado, olhou para a frente e decidiu continuar, já se acostumando às derrotas diárias em tentativas quase sempre inexistentes. Não haveria de ser diferente agora.
Era a última vez que ele parava por ali.
Era a terceira vez que ela passava por ali. Parecia querer se fazer notar, pedir olhares atentos e pensamentos ansiosos. Caminhava com calma, como se o tempo tivesse parado e ela não quisesse ir a lugar algum.
Era a terceira vez que ele a via passar à sua frente. Seus olhos não conseguiam ser indiferentes e mais uma vez a seguiam afoitos. Sentia-se dividido entre falar algo ou apenas seguir contemplando-a, mesmo sabendo que qualquer uma dessas atitudes constituia-se como inútil.
Ela pára. Vira-se para trás. Seus olhares se cruzam por um breve instante. Ele respira fundo. Abre a boca como se fosse mencionar algo, mas desiste e abaixa a cabeça. Nela, o sorriso que se principiava logo desaparece, dando espaço à vaguidão. Vira-se novamente e segue seu caminho. Ele permanece sentado.
O dia ainda era claro quando ele se levantou e se colocou a andar sem rumo certo. Não sabia ao certo quanto tempo se passara - segundos, minutos, talvez horas. Ela não estava mais presente. Fora vencido mais uma vez por sua inconstância, ainda que tenha visto naquele olhar uma esperança perdida.
Um vazio tomou-lhe o peito. Estava sozinho, tal qual imaginara um dia estar por se fechar em um mundo de medo. Angustiado, olhou para a frente e decidiu continuar, já se acostumando às derrotas diárias em tentativas quase sempre inexistentes. Não haveria de ser diferente agora.
Era a última vez que ele parava por ali.
terça-feira, abril 23, 2002
Por Um Ser Incompleto
Outro dia seu sorriso passou por mim
Lindo, inocente, reconfortante
Um sorriso como nunca vira
Talvez ele fosse assim por tudo e com todos
Talvez sequer tivesse a intenção de sê-lo
Mas pareceu que ele o era só para mim
No mesmo dia vi você dormir ali
Quieta, inocente, apaixonante
Simples como eu nunca imaginara
Talvez seu sono fosse o mais belo sono
Talvez eu fosse feliz por vê-la assim tão perto
Mesmo sabendo que aquele momento iria passar
E eu não iria conseguir esquecer
Talvez o tempo tenha parado por algumas horas
Talvez meus olhos tenham marejado ao pensar no depois
Talvez meus dedos tenham tocado de leve seu rosto
Talvez eu ainda fosse eu
Mas depois de você, tenho minhas dúvidas
Outro dia seu sorriso passou por mim
Lindo, inocente, reconfortante
Um sorriso como nunca vira
Talvez ele fosse assim por tudo e com todos
Talvez sequer tivesse a intenção de sê-lo
Mas pareceu que ele o era só para mim
No mesmo dia vi você dormir ali
Quieta, inocente, apaixonante
Simples como eu nunca imaginara
Talvez seu sono fosse o mais belo sono
Talvez eu fosse feliz por vê-la assim tão perto
Mesmo sabendo que aquele momento iria passar
E eu não iria conseguir esquecer
Talvez o tempo tenha parado por algumas horas
Talvez meus olhos tenham marejado ao pensar no depois
Talvez meus dedos tenham tocado de leve seu rosto
Talvez eu ainda fosse eu
Mas depois de você, tenho minhas dúvidas
quarta-feira, abril 17, 2002
sexta-feira, abril 12, 2002
Bola de Papel
O papel continuava em branco, exceto por uma discreta mancha de tinta no canto inferior esquerdo. Uma mão, a que segurava a caneta-tinteiro, parecia frágil, como se não suportasse o peso daquele pequeno instrumento. A outra, mais decidida, sustentava a testa com força, como se ajudasse em um esforço máximo de concentração.
Retrato-vivo, ele estava parado naquela posição há minutos. Os olhos miravam o espaço em branco em tom de súplica, pedindo compreensão e auxílio daquele que um dia fora seu maior companheiro. Não obtia qualquer resposta. Suspirou profundamente e tentou rabiscar algo na folha. A imprecisão das palavras irritou-o a tal ponto que quase atirou a caneta de encontro à parede. Na mesa iluminada por uma pequena luminária de querosene, sua angústia parecia crescer.
Levantou-se e caminhou até a janela. Procurou estrelas no céu mas só as encontrou em seu pensamento. A noite era fria, como todas daquele mês. Olhou mais uma vez o papel em branco. Jamais imaginara uma metáfora tão perfeita para si mesmo. Vazio. Puxou a cadeira com sutileza e se posicionou mais uma vez diante daquilo que se tornara o seu maior desafio.
De súbito, a caneta agora percorria a superfície com desenvoltura. Parecia ter vida própria. Uma. Duas. Três linhas. Parou mais uma vez. Seus olhos acompanharam afoitos o que escrevera até ali. Fecharam-se lentamente. Abriram, porém, a tempo de presenciar as palavras uma a uma serem riscadas.
Havia agora uma grande mancha preta na folha. Com as duas mãos, levou-a à altura do queixo e a amassou com um prazer antes nunca sentido por ele. Voltou à janela e atirou a pequena esfera que se constituíra dos pedaços de sentimentos escritos.
Pela primeira vez entendera o quanto era difícil escrever o amor.
O papel continuava em branco, exceto por uma discreta mancha de tinta no canto inferior esquerdo. Uma mão, a que segurava a caneta-tinteiro, parecia frágil, como se não suportasse o peso daquele pequeno instrumento. A outra, mais decidida, sustentava a testa com força, como se ajudasse em um esforço máximo de concentração.
Retrato-vivo, ele estava parado naquela posição há minutos. Os olhos miravam o espaço em branco em tom de súplica, pedindo compreensão e auxílio daquele que um dia fora seu maior companheiro. Não obtia qualquer resposta. Suspirou profundamente e tentou rabiscar algo na folha. A imprecisão das palavras irritou-o a tal ponto que quase atirou a caneta de encontro à parede. Na mesa iluminada por uma pequena luminária de querosene, sua angústia parecia crescer.
Levantou-se e caminhou até a janela. Procurou estrelas no céu mas só as encontrou em seu pensamento. A noite era fria, como todas daquele mês. Olhou mais uma vez o papel em branco. Jamais imaginara uma metáfora tão perfeita para si mesmo. Vazio. Puxou a cadeira com sutileza e se posicionou mais uma vez diante daquilo que se tornara o seu maior desafio.
De súbito, a caneta agora percorria a superfície com desenvoltura. Parecia ter vida própria. Uma. Duas. Três linhas. Parou mais uma vez. Seus olhos acompanharam afoitos o que escrevera até ali. Fecharam-se lentamente. Abriram, porém, a tempo de presenciar as palavras uma a uma serem riscadas.
Havia agora uma grande mancha preta na folha. Com as duas mãos, levou-a à altura do queixo e a amassou com um prazer antes nunca sentido por ele. Voltou à janela e atirou a pequena esfera que se constituíra dos pedaços de sentimentos escritos.
Pela primeira vez entendera o quanto era difícil escrever o amor.
sábado, abril 06, 2002
O Simples Que Se Torna...
Era a terceira vez que o elevador parava em menos de 1 minuto. 5º andar. Quase duas horas da tarde e ainda faltavam 14 andares para que chegasse até o seu. Fazia um calor infernal ali dentro e as três pessoas que lhe serviam de companhia não eram nem um pouco interessantes, pelo menos à primeira vista. 6º andar. O elevador parou de novo. Ninguém entrou e ninguém saiu. A senhora que estava ao lado vira-se para ele e solta a típica pergunta daqueles que querem começar uma conversa mas não sabem como.
- Tá calor aqui dentro, não?
Ele se limitou a acenar com a cabeça positivamente, ao mesmo tempo que pensava em várias respostas aplicáveis àquela situação ridícula.
- Não, não tá calor não, sua velha estúpida! Na verdade isso que está escorrendo do meu rosto não é suor... é água! Estou tentando mudar de estado físico para ver se consigo escapar daqui. Ih, acabei de revelar minha identidade secreta... agora você já sabe quem é o Homem-água das histórias em quadrinhos.
- Calor? Não... tá até um vento fresco aqui. Eu acho que a senhora está é ficando excitada com a minha presença ao seu lado. Controle-se, minha tia, eu não curto coroas não...
- Você tá com calor? Ah, essas mulheres depois da menopausa...
O elevador parou de novo. 7º andar. Não era possível. Os 4 se entreolharam. Nenhum deles fez menção de sair. Do lado de fora, também não havia ninguém.
- Só podem estar de sacanagem comigo, soltou ele em voz alta.
A jovem moça que também estava ali dentro deu uma discreta risada. Ele a reconheceu de algum lugar, mas não sabia de onde. Talvez já tivessem se esbarrado alguma outra vez naquele mesmo elevador. Não era difícil. O horário de almoço das empresas do prédio costumava coincidir e eram apenas 2 elevadores para levar todos de volta ao trabalho depois da breve pausa. De qualquer forma, aquilo não era o que importava. O fato é que ela era muito gostosa. Vestia uma camisa social de seda que deixava transparecer um sutiã meia-taça, branco e rendado, segurando os seios fartos e uma saia azul na altura do joelho que remetia a um uniforme de colegial. Já estava se imaginando em uma transa tórrida com ela ali dentro quando foi despertado de seus pensamentos por um tranco mais forte do elevador.
- Que merda é essa agora?
A porta não se abriu. O indicador digital dos andares marcava o 9º. Só faltava aquela merda ter enguiçado agora.
- Aiiiii, meu Deus! Bem que a mamãe sempre falou que era perigoso andar de elevador! Por que eu nunca acreditei nela?
Os olhos dele fitaram a última pessoa que lhe fazia companhia naquela incômoda situação. Como se fosse pouca a desgraça de ficar preso num elevador às duas da tarde no Centro da cidade do Rio de Janeiro, havia um gay ali e ele resolveu ter um ataque histérico. Não, não era possível. Afrouxou a gravata e respirou fundo. Tinha que manter o controle agora.
- Não é possível! Eu joguei pedra na cruz! Dá pra gazela se controlar um pouco? A situação já não tá ruim o suficiente?
O silêncio que se criou em seguida o levou à consciência de que havia se exaltado além do que deveria com aquilo tudo. A jovem gostosa agora o olhava com ar de desprezo. A velha tinha as mãos cobrindo a boca, quase em sinal de prece. O rapaz homossexual mantinha o rosto dirigido ao chão, com uma expressão que variava entre a vergonha e a raiva.
Nada do que se dissesse agora poderia tirar o incômodo que se havia criado nos quatro companheiros de elevador. Aquele prédio com certeza nunca fora tão alto. Seguiram-se mais alguns segundos sem que nenhuma voz soasse no pequeno espaço de pouco mais de 3 metros quadrados.
O som do elevador voltando a se mover foi o que mudou aquele quadro quase inerte. Ele soltou um suspiro aliviado. Faltavam apenas 4 andares agora e tudo estaria resolvido. Provavelmente demoraria um bom tempo para rever qualquer um dos ali presentes, isso se um dia voltasse a ver.
O elevador ainda parou rapidamente no 11º andar, quando saltou a pobre senhora, que permanecia com as mãos em frente à boca e que sequer desejou um “boa tarde” ao sair dali. No 17º, desceu a moça, apressada. Provavelmente estava atrasada da volta do almoço e o chefe a faria pagar um boquete para compensar aquilo. Ah, como ela era gostosa. Aquela saia...
Seus pensamentos se foram quando no indicador luminoso apareceu o número 19. Olhou para o lado e reparou que o outro rapaz preparava-se para sair também. Não se conteve:
- Você vai descer aqui também?
- Vou. Algum problema?
Nem se deu ao trabalho de responder. “Eu vou lá perder meu tempo com um gay!”, falou em tom quase inaudível.
Cumprimentou a secretária e entrou na sala. Logo que se sentou à mesa, o telefone tocou. Na linha, o advogado que coordenava o escritório o convidava para que viesse conhecer o filho do dono e mais novo advogado dali.
Desligou o telefone suando frio. Era óbvio o que viria a seguir. Caminhou a passos lentos pelo corredor que levava até a sala de seu chefe. Sentia-se tal qual um prisioneiro condenado à pena de morte, rumo à cadeira elétrica.
Ainda tremendo, girou a maçaneta. Trancada. Ouviu pequenos sussurros vindos de dentro da sala e imaginou o que se passava lá dentro. Sorriu com o canto da boca e se virou para voltar ao trabalho quando escutou o barulho da porta se abrindo. Uma mão jogou ao chão um envelope pequeno e pardo, sem qualquer inscrição do lado de fora.
Não teve dúvidas de que a carta era para ele, por isso mesmo não hesitou em abrir.
********
“Favor passar no departamento pessoal para assinar sua demissão.”
Era a terceira vez que o elevador parava em menos de 1 minuto. 5º andar. Quase duas horas da tarde e ainda faltavam 14 andares para que chegasse até o seu. Fazia um calor infernal ali dentro e as três pessoas que lhe serviam de companhia não eram nem um pouco interessantes, pelo menos à primeira vista. 6º andar. O elevador parou de novo. Ninguém entrou e ninguém saiu. A senhora que estava ao lado vira-se para ele e solta a típica pergunta daqueles que querem começar uma conversa mas não sabem como.
- Tá calor aqui dentro, não?
Ele se limitou a acenar com a cabeça positivamente, ao mesmo tempo que pensava em várias respostas aplicáveis àquela situação ridícula.
- Não, não tá calor não, sua velha estúpida! Na verdade isso que está escorrendo do meu rosto não é suor... é água! Estou tentando mudar de estado físico para ver se consigo escapar daqui. Ih, acabei de revelar minha identidade secreta... agora você já sabe quem é o Homem-água das histórias em quadrinhos.
- Calor? Não... tá até um vento fresco aqui. Eu acho que a senhora está é ficando excitada com a minha presença ao seu lado. Controle-se, minha tia, eu não curto coroas não...
- Você tá com calor? Ah, essas mulheres depois da menopausa...
O elevador parou de novo. 7º andar. Não era possível. Os 4 se entreolharam. Nenhum deles fez menção de sair. Do lado de fora, também não havia ninguém.
- Só podem estar de sacanagem comigo, soltou ele em voz alta.
A jovem moça que também estava ali dentro deu uma discreta risada. Ele a reconheceu de algum lugar, mas não sabia de onde. Talvez já tivessem se esbarrado alguma outra vez naquele mesmo elevador. Não era difícil. O horário de almoço das empresas do prédio costumava coincidir e eram apenas 2 elevadores para levar todos de volta ao trabalho depois da breve pausa. De qualquer forma, aquilo não era o que importava. O fato é que ela era muito gostosa. Vestia uma camisa social de seda que deixava transparecer um sutiã meia-taça, branco e rendado, segurando os seios fartos e uma saia azul na altura do joelho que remetia a um uniforme de colegial. Já estava se imaginando em uma transa tórrida com ela ali dentro quando foi despertado de seus pensamentos por um tranco mais forte do elevador.
- Que merda é essa agora?
A porta não se abriu. O indicador digital dos andares marcava o 9º. Só faltava aquela merda ter enguiçado agora.
- Aiiiii, meu Deus! Bem que a mamãe sempre falou que era perigoso andar de elevador! Por que eu nunca acreditei nela?
Os olhos dele fitaram a última pessoa que lhe fazia companhia naquela incômoda situação. Como se fosse pouca a desgraça de ficar preso num elevador às duas da tarde no Centro da cidade do Rio de Janeiro, havia um gay ali e ele resolveu ter um ataque histérico. Não, não era possível. Afrouxou a gravata e respirou fundo. Tinha que manter o controle agora.
- Não é possível! Eu joguei pedra na cruz! Dá pra gazela se controlar um pouco? A situação já não tá ruim o suficiente?
O silêncio que se criou em seguida o levou à consciência de que havia se exaltado além do que deveria com aquilo tudo. A jovem gostosa agora o olhava com ar de desprezo. A velha tinha as mãos cobrindo a boca, quase em sinal de prece. O rapaz homossexual mantinha o rosto dirigido ao chão, com uma expressão que variava entre a vergonha e a raiva.
Nada do que se dissesse agora poderia tirar o incômodo que se havia criado nos quatro companheiros de elevador. Aquele prédio com certeza nunca fora tão alto. Seguiram-se mais alguns segundos sem que nenhuma voz soasse no pequeno espaço de pouco mais de 3 metros quadrados.
O som do elevador voltando a se mover foi o que mudou aquele quadro quase inerte. Ele soltou um suspiro aliviado. Faltavam apenas 4 andares agora e tudo estaria resolvido. Provavelmente demoraria um bom tempo para rever qualquer um dos ali presentes, isso se um dia voltasse a ver.
O elevador ainda parou rapidamente no 11º andar, quando saltou a pobre senhora, que permanecia com as mãos em frente à boca e que sequer desejou um “boa tarde” ao sair dali. No 17º, desceu a moça, apressada. Provavelmente estava atrasada da volta do almoço e o chefe a faria pagar um boquete para compensar aquilo. Ah, como ela era gostosa. Aquela saia...
Seus pensamentos se foram quando no indicador luminoso apareceu o número 19. Olhou para o lado e reparou que o outro rapaz preparava-se para sair também. Não se conteve:
- Você vai descer aqui também?
- Vou. Algum problema?
Nem se deu ao trabalho de responder. “Eu vou lá perder meu tempo com um gay!”, falou em tom quase inaudível.
Cumprimentou a secretária e entrou na sala. Logo que se sentou à mesa, o telefone tocou. Na linha, o advogado que coordenava o escritório o convidava para que viesse conhecer o filho do dono e mais novo advogado dali.
Desligou o telefone suando frio. Era óbvio o que viria a seguir. Caminhou a passos lentos pelo corredor que levava até a sala de seu chefe. Sentia-se tal qual um prisioneiro condenado à pena de morte, rumo à cadeira elétrica.
Ainda tremendo, girou a maçaneta. Trancada. Ouviu pequenos sussurros vindos de dentro da sala e imaginou o que se passava lá dentro. Sorriu com o canto da boca e se virou para voltar ao trabalho quando escutou o barulho da porta se abrindo. Uma mão jogou ao chão um envelope pequeno e pardo, sem qualquer inscrição do lado de fora.
Não teve dúvidas de que a carta era para ele, por isso mesmo não hesitou em abrir.
********
“Favor passar no departamento pessoal para assinar sua demissão.”
sábado, março 30, 2002
sábado, março 23, 2002
Across The Universe
Era quase meia-noite e ainda não saíra de casa. A garrafa de vinho estava pela metade, os sapatos pela sala, ela no sofá. Apesar do quadro aparentemente caótico, sentia por dentro uma serenidade incomum. Já perdera as esperanças de fazer algo naquele sábado, mas mesmo assim não se sentia mal por isso. Talvez fosse a primeira vez que não desejava avidamente estar em outro lugar, estar em companhia de outras pessoas. Nunca lhe parecera tão bom estar ali sozinha.
Os últimos acontecimentos não a encorajavam muito, é verdade, porém não era hora de se lamentar. Jurara não se deixar abater na próxima vez que tivesse uma decepção e iria cumprir isso. Por pior que fosse a situação, tudo haveria de melhorar. Um dia chegara ao extremo de tentar cometer suicídio por overdose de remédios. Hoje ria de quão patética fora sua postura. "Nada vai mudar meu mundo", pensou.
Sentia-se especialmente forte aquele noite. Singularmente bela. Nada conseguiria mudar o seu mundo. Levantou-se do sofá e caminhou até a estante. Tirou com carinho um velho compacto dos Beatles e o colocou para tocar. O som que preenchia o ambiente a fazia ainda mais leve. Aquela talvez fosse a melhor herança deixada por seus pais. Se pudesse ficar ali todo dia ouvindo as mesmas músicas, seria até capaz de esquecer que eles a expulsaram de casa aos dezesseis anos quando descobriram que estava fumando maconha. Infelizmente o tempo lhe incutira responsabilidades.
O que lhe importava agora não era nada disso, porém. Mesmo com todas as dificuldades, conseguira se firmar na vida e estar ali agora. Tinha um bom emprego, um bom apartamento, um bom carro. Faltava-lhe um amor, é verdade, mas se acostumara a essa ausência com o passar dos anos. Seu rosto delicado denunciava os vinte e cinco anos que tinha, ainda que a postura tentasse dizer que esse tempo já se passara há muito. Aprendeu desde cedo que é preciso se impor para conquistar aquilo que mais se deseja; talvez por isso a inocência lhe parecesse tão remota.
O relógio já marcava quinze para uma. Encheu mais uma taça de vinho e levou à boca com calma. O prazer que tal degustação lhe dava era algo que poucos conseguiriam entender, disso ela não tinha dúvidas. Foi até a janela e reparou que poucas luzes nos prédios próximos ao que morava estavam acesas. Uns três ou quatro apartamentos apenas. Madrugada de sábado. Por que haveria de ser diferente? Todo mundo ansiava por sair em noites assim. Não ela.
Voltou seus olhos para a rua e reparou que o fluxo de carros era provavelmente mais intenso do que em muitos dias úteis. E era tão tarde! Várias dúvidas surgiram em sua cabeça nesse instante. Para onde iam todos? O que gostavam de fazer? Por que não conseguiam ficar em casa? Será que ela era a única que pensava diferente? Estava na hora de mudar seu comportamento?
Notou que o mundo não parou enquanto esteve imersa em suas próprias complicações por anos a fio.
Decidiu apagar a luz e ir dormir.
Era quase meia-noite e ainda não saíra de casa. A garrafa de vinho estava pela metade, os sapatos pela sala, ela no sofá. Apesar do quadro aparentemente caótico, sentia por dentro uma serenidade incomum. Já perdera as esperanças de fazer algo naquele sábado, mas mesmo assim não se sentia mal por isso. Talvez fosse a primeira vez que não desejava avidamente estar em outro lugar, estar em companhia de outras pessoas. Nunca lhe parecera tão bom estar ali sozinha.
Os últimos acontecimentos não a encorajavam muito, é verdade, porém não era hora de se lamentar. Jurara não se deixar abater na próxima vez que tivesse uma decepção e iria cumprir isso. Por pior que fosse a situação, tudo haveria de melhorar. Um dia chegara ao extremo de tentar cometer suicídio por overdose de remédios. Hoje ria de quão patética fora sua postura. "Nada vai mudar meu mundo", pensou.
Sentia-se especialmente forte aquele noite. Singularmente bela. Nada conseguiria mudar o seu mundo. Levantou-se do sofá e caminhou até a estante. Tirou com carinho um velho compacto dos Beatles e o colocou para tocar. O som que preenchia o ambiente a fazia ainda mais leve. Aquela talvez fosse a melhor herança deixada por seus pais. Se pudesse ficar ali todo dia ouvindo as mesmas músicas, seria até capaz de esquecer que eles a expulsaram de casa aos dezesseis anos quando descobriram que estava fumando maconha. Infelizmente o tempo lhe incutira responsabilidades.
O que lhe importava agora não era nada disso, porém. Mesmo com todas as dificuldades, conseguira se firmar na vida e estar ali agora. Tinha um bom emprego, um bom apartamento, um bom carro. Faltava-lhe um amor, é verdade, mas se acostumara a essa ausência com o passar dos anos. Seu rosto delicado denunciava os vinte e cinco anos que tinha, ainda que a postura tentasse dizer que esse tempo já se passara há muito. Aprendeu desde cedo que é preciso se impor para conquistar aquilo que mais se deseja; talvez por isso a inocência lhe parecesse tão remota.
O relógio já marcava quinze para uma. Encheu mais uma taça de vinho e levou à boca com calma. O prazer que tal degustação lhe dava era algo que poucos conseguiriam entender, disso ela não tinha dúvidas. Foi até a janela e reparou que poucas luzes nos prédios próximos ao que morava estavam acesas. Uns três ou quatro apartamentos apenas. Madrugada de sábado. Por que haveria de ser diferente? Todo mundo ansiava por sair em noites assim. Não ela.
Voltou seus olhos para a rua e reparou que o fluxo de carros era provavelmente mais intenso do que em muitos dias úteis. E era tão tarde! Várias dúvidas surgiram em sua cabeça nesse instante. Para onde iam todos? O que gostavam de fazer? Por que não conseguiam ficar em casa? Será que ela era a única que pensava diferente? Estava na hora de mudar seu comportamento?
Notou que o mundo não parou enquanto esteve imersa em suas próprias complicações por anos a fio.
Decidiu apagar a luz e ir dormir.
terça-feira, março 12, 2002
Pelo Menos Uma Vez
- Acho melhor a gente terminar.
- Como assim? Você tá doido? Logo agora?
- É. As coisas não podem continuar assim. Tá tudo muito estranho.
- Ah, não. Não vou aceitar isso.
- Tenta me entender...
- Que entender o quê! Você não pode fazer isso comigo!
- Não estou fazendo nada com você.
- Claro que está! Você acha justo me deixar logo agora?
- Não é questão de justiça. É questão de necessidade.
- Necessidade! Hahaha! Necessidade de quê?
- Você não iria entender...
- Me diz!
- É melhor não.
- Você tá me magoando assim.
- Desculpa, não era a intenção.
- Mas você disse que me amava...
- Pois é...
- E não me ama mais?
- Não é bem assim. Apenas descobri que o amor é muito relativo.
- Como é? Relativo?
- Isso.
- Olha, desisto de entender você. Faz um favor?
- É claro...
- Veste a sua roupa e dá o fora daqui!
- Tá bom... não precisa ficar irritada...
- Mas antes, será que você faz uma última coisa?
- O quê?
- Me come pelo menos mais uma vez?
- Tá... mas você acha que isso vai ser bom?
- Pelo menos uma vez tem que ser.
- Acho melhor a gente terminar.
- Como assim? Você tá doido? Logo agora?
- É. As coisas não podem continuar assim. Tá tudo muito estranho.
- Ah, não. Não vou aceitar isso.
- Tenta me entender...
- Que entender o quê! Você não pode fazer isso comigo!
- Não estou fazendo nada com você.
- Claro que está! Você acha justo me deixar logo agora?
- Não é questão de justiça. É questão de necessidade.
- Necessidade! Hahaha! Necessidade de quê?
- Você não iria entender...
- Me diz!
- É melhor não.
- Você tá me magoando assim.
- Desculpa, não era a intenção.
- Mas você disse que me amava...
- Pois é...
- E não me ama mais?
- Não é bem assim. Apenas descobri que o amor é muito relativo.
- Como é? Relativo?
- Isso.
- Olha, desisto de entender você. Faz um favor?
- É claro...
- Veste a sua roupa e dá o fora daqui!
- Tá bom... não precisa ficar irritada...
- Mas antes, será que você faz uma última coisa?
- O quê?
- Me come pelo menos mais uma vez?
- Tá... mas você acha que isso vai ser bom?
- Pelo menos uma vez tem que ser.
quarta-feira, março 06, 2002
Cegueira Noturna
Eu já estava caminhando há alguns minutos quando ela passou por mim. A madrugada era clara, de lua cheia, por isso mesmo não fazia idéia de quão tarde podia ser. Na Avenida Atlântica, singularmente bonita, movimento intenso de pessoas e carros em todas as direções. Como sempre.
Amava Copacabana desde que eu era bem moleque ainda, quando meu pai me levava para andar na praia e apreciar, segundo suas próprias palavras, "aquilo que a natureza fez de melhor": as mulheres. Eu devia ter uns nove ou dez anos, nem havia me interessado pelo assunto ainda, mas, para não desapontá-lo, concordava com um sorriso amarelo ou um aceno de cabeça cada vez que ele proferia um elogio às moças que passavam no calçadão. Quando ela passou por mim, senti-me de volta a esse tempo, à infância que já se apagava da minha memória.
Não, não sou tão velho. Na verdade, estar ali me deixava especialmente nostálgico, carente de ingenuidade. Tudo era muito estranho e se confundia em minha cabeça. Eu já era parte de Copacabana, assim como Copacabana já era parte de mim; minha essência, minha alma, minha dor. Sentia Copacabana correr em minhas veias, ouvia Copacabana me chamar na madrugada. Por isso mesmo a Avenida Atlântica era meu lar naquele momento. Só podia ser ali.
Ela olhou em meus olhos com um brilho que nunca havia visto igual; um sorriso discreto atenuou a alvidez de sua pele, antes merecedora de minha atenção devota. Os cabelos ruivos deslizavam sobre seus ombros de tão lisos que eram. Seu andar transmitia segurança e delicadeza, ternura e desafio. O adereço perfeito à beleza de tal lugar.
Quando ela passou ao meu lado, tentei dizer alguma coisa, mas não consegui. Estava atônito, tal qual a primeira vez que avistei a imensidão daquela avenida na companhia de meu pai. Ela se foi e não tive coragem de olhar para trás. Achei por bem não interromper seu caminho, modificar seu destino. Continuei em minha direção, caminhando rumo ao nada. Como sempre.
Ainda hoje, quando Copacabana grita por mim tarde da noite, saio à rua e lembro com clareza fotográfica dela vindo em minha direção, sorrindo e olhando de forma única.
E a odeio por um dia ter me deixado cego para a visão daquilo que me é mais importante.
Copacabana.
Eu já estava caminhando há alguns minutos quando ela passou por mim. A madrugada era clara, de lua cheia, por isso mesmo não fazia idéia de quão tarde podia ser. Na Avenida Atlântica, singularmente bonita, movimento intenso de pessoas e carros em todas as direções. Como sempre.
Amava Copacabana desde que eu era bem moleque ainda, quando meu pai me levava para andar na praia e apreciar, segundo suas próprias palavras, "aquilo que a natureza fez de melhor": as mulheres. Eu devia ter uns nove ou dez anos, nem havia me interessado pelo assunto ainda, mas, para não desapontá-lo, concordava com um sorriso amarelo ou um aceno de cabeça cada vez que ele proferia um elogio às moças que passavam no calçadão. Quando ela passou por mim, senti-me de volta a esse tempo, à infância que já se apagava da minha memória.
Não, não sou tão velho. Na verdade, estar ali me deixava especialmente nostálgico, carente de ingenuidade. Tudo era muito estranho e se confundia em minha cabeça. Eu já era parte de Copacabana, assim como Copacabana já era parte de mim; minha essência, minha alma, minha dor. Sentia Copacabana correr em minhas veias, ouvia Copacabana me chamar na madrugada. Por isso mesmo a Avenida Atlântica era meu lar naquele momento. Só podia ser ali.
Ela olhou em meus olhos com um brilho que nunca havia visto igual; um sorriso discreto atenuou a alvidez de sua pele, antes merecedora de minha atenção devota. Os cabelos ruivos deslizavam sobre seus ombros de tão lisos que eram. Seu andar transmitia segurança e delicadeza, ternura e desafio. O adereço perfeito à beleza de tal lugar.
Quando ela passou ao meu lado, tentei dizer alguma coisa, mas não consegui. Estava atônito, tal qual a primeira vez que avistei a imensidão daquela avenida na companhia de meu pai. Ela se foi e não tive coragem de olhar para trás. Achei por bem não interromper seu caminho, modificar seu destino. Continuei em minha direção, caminhando rumo ao nada. Como sempre.
Ainda hoje, quando Copacabana grita por mim tarde da noite, saio à rua e lembro com clareza fotográfica dela vindo em minha direção, sorrindo e olhando de forma única.
E a odeio por um dia ter me deixado cego para a visão daquilo que me é mais importante.
Copacabana.
sábado, março 02, 2002
Em Tempos Modernos...
A chuva caía forte há algumas horas e o cheiro trazido por ela penetrava no quarto de Clara em forma de lembranças e saudades. O som, em volume quase inaudível, sussurrava alguma canção de Dave Brubeck, provavelmente “Take Five”, a sua favorita. A taça de vinho sobre a penteadeira, por outro lado, parecia gritar para que fosse bebida, abandonada que estava por longo tempo ali.
Deitada em sua cama, Clara permanecia quieta, quase imóvel. Apresentada uma serenidade a princípio surpreendente, porém a angústia que vinha crescendo a cada minuto refletia em seu íntimo o verdadeiro estado em que se encontrava. Fechou os olhos lentamente e assim permaneceu até ser despertada por batidas incessantes à porta de seu quarto.
Contra a sua vontade, levantou-se de forma vagarosa. Foi até a mesa de canto e acendeu um incenso. Logo o ambiente tomou-se de um cheiro agradável, levando embora as lembranças que ali ainda insistiam em permanecer. As batidas continuavam, insistentes. Deu alguns passos e girou com calma a maçaneta. Sua mãe adentrou o quarto apressada.
Os olhos de Clara se fixaram por alguns instantes em algum ponto do horizonte que a janela deixava à mostra. Voltou-se para sua mãe e perguntou se já havia acontecido. Diante da resposta positiva, pediu que ela se retirasse dali. Fechou a porta com a mesma calma com que havia aberto alguns segundos antes.
Algumas lágrimas discretas rolaram por sua face ao avistar-se no espelho. A vaguidão que seu olhar trazia parecia lhe incomodar como nunca antes o fizera. Sentiu raiva de si mesmo por ser tão fechada, por não saber se expressar como e quando deveria.
Pegou a taça de vinho e bebeu todo seu conteúdo de forma afoita. Em seguida, girou o botão de volume do rádio com agressividade, elevando a música a um nível insuportável. O choro agora era forte e compulsivo.
Enfiou a cabeça no travesseiro, tentando abafar sua tristeza, mas não servia de consolo. Devia ter sido mais sensata e ter dito tudo o que deveria quando teve oportunidade. Mas por medo, insegurança ou sabe-se lá o que mais, preferiu se omitir. Agora era tarde.
A sensação de que uma grande injustiça fora cometida a tomava por inteiro naquele momento.
Às vinte horas e doze minutos de um dia de março as ligações foram encerradas e o público escolhera o eliminado do novo "reallity show" da televisão sem que ela conseguisse dar o seu voto.
Prometeu a si mesma nunca mais ligar a televisão.
A chuva caía forte há algumas horas e o cheiro trazido por ela penetrava no quarto de Clara em forma de lembranças e saudades. O som, em volume quase inaudível, sussurrava alguma canção de Dave Brubeck, provavelmente “Take Five”, a sua favorita. A taça de vinho sobre a penteadeira, por outro lado, parecia gritar para que fosse bebida, abandonada que estava por longo tempo ali.
Deitada em sua cama, Clara permanecia quieta, quase imóvel. Apresentada uma serenidade a princípio surpreendente, porém a angústia que vinha crescendo a cada minuto refletia em seu íntimo o verdadeiro estado em que se encontrava. Fechou os olhos lentamente e assim permaneceu até ser despertada por batidas incessantes à porta de seu quarto.
Contra a sua vontade, levantou-se de forma vagarosa. Foi até a mesa de canto e acendeu um incenso. Logo o ambiente tomou-se de um cheiro agradável, levando embora as lembranças que ali ainda insistiam em permanecer. As batidas continuavam, insistentes. Deu alguns passos e girou com calma a maçaneta. Sua mãe adentrou o quarto apressada.
Os olhos de Clara se fixaram por alguns instantes em algum ponto do horizonte que a janela deixava à mostra. Voltou-se para sua mãe e perguntou se já havia acontecido. Diante da resposta positiva, pediu que ela se retirasse dali. Fechou a porta com a mesma calma com que havia aberto alguns segundos antes.
Algumas lágrimas discretas rolaram por sua face ao avistar-se no espelho. A vaguidão que seu olhar trazia parecia lhe incomodar como nunca antes o fizera. Sentiu raiva de si mesmo por ser tão fechada, por não saber se expressar como e quando deveria.
Pegou a taça de vinho e bebeu todo seu conteúdo de forma afoita. Em seguida, girou o botão de volume do rádio com agressividade, elevando a música a um nível insuportável. O choro agora era forte e compulsivo.
Enfiou a cabeça no travesseiro, tentando abafar sua tristeza, mas não servia de consolo. Devia ter sido mais sensata e ter dito tudo o que deveria quando teve oportunidade. Mas por medo, insegurança ou sabe-se lá o que mais, preferiu se omitir. Agora era tarde.
A sensação de que uma grande injustiça fora cometida a tomava por inteiro naquele momento.
Às vinte horas e doze minutos de um dia de março as ligações foram encerradas e o público escolhera o eliminado do novo "reallity show" da televisão sem que ela conseguisse dar o seu voto.
Prometeu a si mesma nunca mais ligar a televisão.
quinta-feira, fevereiro 21, 2002
Acontece Por Aí
- Olha nos meus olhos quando falar comigo!
- Eu não consigo...
- Olha! Quero ver se você está sendo sincero!
- Pára com isso. Você sabe que eu tô falando a verdade...
- Sei... se tivesse, olhava pra mim! Não ficava aí mirando o nada...
- Você tá entendendo errado... não é isso...
- Como assim? Por que você não me olha então?
- Porque senão não vou agüentar e vou te beijar...
- E quem disse que não é isso o que eu quero?
- Olha nos meus olhos quando falar comigo!
- Eu não consigo...
- Olha! Quero ver se você está sendo sincero!
- Pára com isso. Você sabe que eu tô falando a verdade...
- Sei... se tivesse, olhava pra mim! Não ficava aí mirando o nada...
- Você tá entendendo errado... não é isso...
- Como assim? Por que você não me olha então?
- Porque senão não vou agüentar e vou te beijar...
- E quem disse que não é isso o que eu quero?
domingo, fevereiro 10, 2002
Lúgubre Relicário
Queria ter o mundo em suas mãos. Gostava de ser o centro das atenções, de estar rodeada de pessoas que a admirassem. Sempre fôra muito popular em todos os lugares que freqüentava, e alimentara seu ego por anos a fio. Não era de se admirar que logo começasse a pensar que todos estavam aos seus pés e a fazer o que bem entendesse daqueles com quem convivia.
Entretanto, parecia não conseguir entender o que havia feito de errado para estar agora naquele estado. Já bebia há algumas horas, e as várias garrafas de vinho vazias jogadas pela casa denunciavam o seu alto grau de embriaguez. Chorava compulsivamente, enquanto via da janela de seu apartamento as luzes acesas de uma cidade que um dia acreditou ser sua.
Agora estava ali, largada na sala semi-escura, com a tv passando algum filme em preto e branco e as roupas espalhadas pelo sofá. Tinha telefonado para várias pessoas, e todos respondiam a mesma coisa quando indagadas se estavam dispostas a fazer algo: "sinto muito, já tenho compromisso para hoje". Não haveria nada de anormal nisso se não fosse pelo fato de tal frase vir sendo repetida incessantemente ao longo de várias semanas em seus ouvidos.
Caminhou até o armário e pegou mais uma garrafa de vinho. Com raiva, arrancou a rolha e atirou-a pela janela, observando com singular prazer a queda. Não despejou uma gota em sua taça; preferiu entornar a bebida diretamente na boca, deixando que o excesso escorresse por seu rosto e seu corpo. O conteúdo inteiro desapareceu do recipiente em poucos minutos.
Toda a casa parecia tremer agora. Cambaleante, andou até o sofá e sentou-se, levando as mãos à cabeça. Mais lágrimas rolaram de seus olhos. Tentou deitar-se para adormecer um pouco, porém não conseguia deixar de pensar em como seu mundo estava ruindo agora. Quebrou a garrafa que estava ao seu lado com um gesto bruto e certeiro, acertando o espelho que insistia em refletir aquela cena.
Aos poucos, foi se recompondo. Ponderou que não podia permanecer daquela maneira e passou a se acalmar. Talvez estivesse exagerando. Talvez fosse apenas uma fase ruim. Talvez. Abriu um pequeno sorriso, imaginando o qüão engraçado seria quando descobrisse que tudo era fruto de sua imaginação, que as pessoas continuavam a admirá-la tanto quanto antes, quem sabe até mais, e que realmente só não vinham tendo tempo para encontrá-la.
O toque da campanhia a despertou de tão profícuos pensamentos. Olhou para o relógio e percebeu que passava da meia-noite. Não esperava nenhuma visita, por isso ficou bastante intrigada. Foi até a porta e tentou, pelo olho mágico, ver quem era. O corredor escuro, entretanto, não tornou isso possível. Relutou em abrir, mas o toque incessante e compassado acabou a convencendo. Girou a maçaneta e, lentamente, puxou a porta em sua direção.
Tal gesto não durou pouco mais do que alguns segundos, porém foi suficiente para elevar assustadoramente seus batimentos cardíacos. Os braços, trêmulos, pareciam querer recuar, talvez pressentindo que algo de ruim estava para acontecer. O cérebro, no entanto, permitiu que seguisse adiante, ignorando os apelos do seu lado emocional. Sentia uma forte tensão ali, mas preferiu continuar.
O ambiente à meia-luz deu o tom certo para o que aconteceu a seguir. Já com a porta aberta, um vulto jogou-a para dentro do apartamento.O alto grau de embriaguez favoreceu a queda, fazendo com que ela derrubasse tudo que havia no caminho até o chão. Tentou berrar algo, mas uma mão ágil tampou sua boca antes que assim o fizesse. Com os braços, procurava acertar aquele corpo que estava agora sobre o seu, só que esbarrava em sua própria debilidade.
Desesperou-se. Mexia-se de todas as formas, buscando livrar-se daquela situação. Foi então surpreendida por um forte cheiro, algo que lhe parecia bem familiar. Quando o pano úmido aproximou-se de seu nariz, pôde ter a certeza do que era. Éter. Nesse momento, tomou consciência do que estava por acontecer e viu que não haveria muito mais a ser feito.
Eram cerca de 11 horas da manhã quando despertou. Estava no chão da sala, no mesmo local da madrugada anterior. Olhou para os lados e reparou que estava sozinha. Sua roupa estava intocada, assim como todo o apartamento. Avistou as garrafas de vinho vazias e a mancha na parede, e viu que a porta estava fechada, trancada por dentro.
O vidro de uma das janelas da sala quebrado foi o que comprovou que não havia sido apenas um sonho aquilo tudo.
O que fôra, porém, parecia ter se perdido na memória, em um mistério que lhe perseguiu até sua morte. Desse dia em diante, sempre que se olhava no espelho perguntava a si mesma o porquê de não ter perdido sua vida naquela madrugada, evitando o sofrimento de conviver diariamente com a solidão que se tornara uma constante desde que fôra jogada ao abandono por todos aqueles que um dia ela pensou estarem aos seus pés.
Queria ter o mundo em suas mãos. Gostava de ser o centro das atenções, de estar rodeada de pessoas que a admirassem. Sempre fôra muito popular em todos os lugares que freqüentava, e alimentara seu ego por anos a fio. Não era de se admirar que logo começasse a pensar que todos estavam aos seus pés e a fazer o que bem entendesse daqueles com quem convivia.
Entretanto, parecia não conseguir entender o que havia feito de errado para estar agora naquele estado. Já bebia há algumas horas, e as várias garrafas de vinho vazias jogadas pela casa denunciavam o seu alto grau de embriaguez. Chorava compulsivamente, enquanto via da janela de seu apartamento as luzes acesas de uma cidade que um dia acreditou ser sua.
Agora estava ali, largada na sala semi-escura, com a tv passando algum filme em preto e branco e as roupas espalhadas pelo sofá. Tinha telefonado para várias pessoas, e todos respondiam a mesma coisa quando indagadas se estavam dispostas a fazer algo: "sinto muito, já tenho compromisso para hoje". Não haveria nada de anormal nisso se não fosse pelo fato de tal frase vir sendo repetida incessantemente ao longo de várias semanas em seus ouvidos.
Caminhou até o armário e pegou mais uma garrafa de vinho. Com raiva, arrancou a rolha e atirou-a pela janela, observando com singular prazer a queda. Não despejou uma gota em sua taça; preferiu entornar a bebida diretamente na boca, deixando que o excesso escorresse por seu rosto e seu corpo. O conteúdo inteiro desapareceu do recipiente em poucos minutos.
Toda a casa parecia tremer agora. Cambaleante, andou até o sofá e sentou-se, levando as mãos à cabeça. Mais lágrimas rolaram de seus olhos. Tentou deitar-se para adormecer um pouco, porém não conseguia deixar de pensar em como seu mundo estava ruindo agora. Quebrou a garrafa que estava ao seu lado com um gesto bruto e certeiro, acertando o espelho que insistia em refletir aquela cena.
Aos poucos, foi se recompondo. Ponderou que não podia permanecer daquela maneira e passou a se acalmar. Talvez estivesse exagerando. Talvez fosse apenas uma fase ruim. Talvez. Abriu um pequeno sorriso, imaginando o qüão engraçado seria quando descobrisse que tudo era fruto de sua imaginação, que as pessoas continuavam a admirá-la tanto quanto antes, quem sabe até mais, e que realmente só não vinham tendo tempo para encontrá-la.
O toque da campanhia a despertou de tão profícuos pensamentos. Olhou para o relógio e percebeu que passava da meia-noite. Não esperava nenhuma visita, por isso ficou bastante intrigada. Foi até a porta e tentou, pelo olho mágico, ver quem era. O corredor escuro, entretanto, não tornou isso possível. Relutou em abrir, mas o toque incessante e compassado acabou a convencendo. Girou a maçaneta e, lentamente, puxou a porta em sua direção.
Tal gesto não durou pouco mais do que alguns segundos, porém foi suficiente para elevar assustadoramente seus batimentos cardíacos. Os braços, trêmulos, pareciam querer recuar, talvez pressentindo que algo de ruim estava para acontecer. O cérebro, no entanto, permitiu que seguisse adiante, ignorando os apelos do seu lado emocional. Sentia uma forte tensão ali, mas preferiu continuar.
O ambiente à meia-luz deu o tom certo para o que aconteceu a seguir. Já com a porta aberta, um vulto jogou-a para dentro do apartamento.O alto grau de embriaguez favoreceu a queda, fazendo com que ela derrubasse tudo que havia no caminho até o chão. Tentou berrar algo, mas uma mão ágil tampou sua boca antes que assim o fizesse. Com os braços, procurava acertar aquele corpo que estava agora sobre o seu, só que esbarrava em sua própria debilidade.
Desesperou-se. Mexia-se de todas as formas, buscando livrar-se daquela situação. Foi então surpreendida por um forte cheiro, algo que lhe parecia bem familiar. Quando o pano úmido aproximou-se de seu nariz, pôde ter a certeza do que era. Éter. Nesse momento, tomou consciência do que estava por acontecer e viu que não haveria muito mais a ser feito.
Eram cerca de 11 horas da manhã quando despertou. Estava no chão da sala, no mesmo local da madrugada anterior. Olhou para os lados e reparou que estava sozinha. Sua roupa estava intocada, assim como todo o apartamento. Avistou as garrafas de vinho vazias e a mancha na parede, e viu que a porta estava fechada, trancada por dentro.
O vidro de uma das janelas da sala quebrado foi o que comprovou que não havia sido apenas um sonho aquilo tudo.
O que fôra, porém, parecia ter se perdido na memória, em um mistério que lhe perseguiu até sua morte. Desse dia em diante, sempre que se olhava no espelho perguntava a si mesma o porquê de não ter perdido sua vida naquela madrugada, evitando o sofrimento de conviver diariamente com a solidão que se tornara uma constante desde que fôra jogada ao abandono por todos aqueles que um dia ela pensou estarem aos seus pés.
quarta-feira, fevereiro 06, 2002
Não, caros leitores, eu não morri e nem acabei com o "Rumo Ao Nada".
Peço desculpas pela ausência prolongada, mas é que estive viajando por alguns dias e não tinha como acessar com freqüência onde estava.
De qualquer forma, já estou de volta e pretendo retomar a rotina de textos ainda hoje.
Volte em breve aqui e confira!
Um grande abraço,
Marcelo Caldas
Peço desculpas pela ausência prolongada, mas é que estive viajando por alguns dias e não tinha como acessar com freqüência onde estava.
De qualquer forma, já estou de volta e pretendo retomar a rotina de textos ainda hoje.
Volte em breve aqui e confira!
Um grande abraço,
Marcelo Caldas
domingo, janeiro 06, 2002
Conversas Noturnas
- Sabe, eu queria entender os seres humanos...
- Como assim?
- Ah, você sabe... saber o que se passa na cabeça deles e tal.
- Mas você também não é um ser humano?
- Sou, mas não estou falando de mim. Queria entender os outros.
- E tem diferença?
- Muita, muita diferença... você nunca reparou?
- Juro que não...
- Mas tem, pode acreditar. Quer ver?
- Diz aí...
- Essa ridículo obsessão pelo sexo oposto, por exemplo. Eu não tenho isso.
- Ah, fala sério... todo mundo tem!
- Não, eu não tenho. Não passo a minha vida toda procurando a mulher ideal.
- E os outros passam?
- Claro! Já viu alguém te falar que não quer uma namorada ou um namorado?
- É verdade...
O garçom traz mais uma cerveja. Os dois se calam por alguns segundos, enchem os copos e voltam a conversar.
- Mas você não acha estranho ser assim?
- Assim como?
- Sei lá... não querer ter alguém do seu lado. Você fica numa boa mesmo?
- Fico, tô te dizendo.
- Tá bom. Esse é um ponto. Mas em que mais você se acha diferente dos outros?
- Hummm... também nâo gosto de ser o centro das atenções. Sabe esse pessoal que quer de qualquer jeito aparecer? Subir na vida, ser melhor que todo mundo... isso não é para mim não. Tô bem aqui no meu canto, com meu emprego normal, com meu conhecimento normal e minha vida normal.
O casal da mesa ao lado olha espantado. O bar agora está vazio, umas cinco ou seis mesas estão ocupadas apenas.
- Isso é comodismo...
- Não, não é. Você não tá me entendendo. Não é que eu vá ficar sem progredir, sem mudar. Só não quero ser o mais foda, o melhor. Isso é um pensamento medíocre...
- Você acha mesmo?
- Acho! Ambição serve pra quê? Só pra criar inimizades...
- Olha, sua filosofia de vida é muito esquisita.
- A minha? Hahahahaha! Claro que não. A dos outros é que é.
- "A" dos outros? E por acaso é uma só para todo mundo?
- Sim, é! O pensamento humano é muito limitado...
- Não viaja... qual é essa filosofia, então?
- Ah, esquece. Deixa disso e vamos sair daqui.
- Sair? E ir pra onde?
- Pegar umas putas e fazer uma farra. Comer alguém.
- Por que isso agora?
- Porque quero me sentir mais humano.
- Sabe, eu queria entender os seres humanos...
- Como assim?
- Ah, você sabe... saber o que se passa na cabeça deles e tal.
- Mas você também não é um ser humano?
- Sou, mas não estou falando de mim. Queria entender os outros.
- E tem diferença?
- Muita, muita diferença... você nunca reparou?
- Juro que não...
- Mas tem, pode acreditar. Quer ver?
- Diz aí...
- Essa ridículo obsessão pelo sexo oposto, por exemplo. Eu não tenho isso.
- Ah, fala sério... todo mundo tem!
- Não, eu não tenho. Não passo a minha vida toda procurando a mulher ideal.
- E os outros passam?
- Claro! Já viu alguém te falar que não quer uma namorada ou um namorado?
- É verdade...
O garçom traz mais uma cerveja. Os dois se calam por alguns segundos, enchem os copos e voltam a conversar.
- Mas você não acha estranho ser assim?
- Assim como?
- Sei lá... não querer ter alguém do seu lado. Você fica numa boa mesmo?
- Fico, tô te dizendo.
- Tá bom. Esse é um ponto. Mas em que mais você se acha diferente dos outros?
- Hummm... também nâo gosto de ser o centro das atenções. Sabe esse pessoal que quer de qualquer jeito aparecer? Subir na vida, ser melhor que todo mundo... isso não é para mim não. Tô bem aqui no meu canto, com meu emprego normal, com meu conhecimento normal e minha vida normal.
O casal da mesa ao lado olha espantado. O bar agora está vazio, umas cinco ou seis mesas estão ocupadas apenas.
- Isso é comodismo...
- Não, não é. Você não tá me entendendo. Não é que eu vá ficar sem progredir, sem mudar. Só não quero ser o mais foda, o melhor. Isso é um pensamento medíocre...
- Você acha mesmo?
- Acho! Ambição serve pra quê? Só pra criar inimizades...
- Olha, sua filosofia de vida é muito esquisita.
- A minha? Hahahahaha! Claro que não. A dos outros é que é.
- "A" dos outros? E por acaso é uma só para todo mundo?
- Sim, é! O pensamento humano é muito limitado...
- Não viaja... qual é essa filosofia, então?
- Ah, esquece. Deixa disso e vamos sair daqui.
- Sair? E ir pra onde?
- Pegar umas putas e fazer uma farra. Comer alguém.
- Por que isso agora?
- Porque quero me sentir mais humano.
quarta-feira, dezembro 26, 2001
Réquiem Para Uma Bela
Nos dias de chuva parece que sinto você aqui do meu lado. Sei que não devia ser assim, mas não consigo evitar. Parece besteira, já que, na verdade, nunca tive você de fato. Mas essa sensação me invade quando o tempo está assim. Talvez por você ter ido embora num dia como esse. Talvez por eu me sentir mais sozinho em dias como esse. Não sei ao certo.
O fato é que é tudo muito estranho. O céu cinzento me lembra você. As gotas batendo na janela me lembram você. Minha cama parece ter você. Só que aqui não tem ninguém, nem mesmo eu. Fico vagando pelo quarto escuro, fazendo dele meu mundo de poucos metros quadrados, como se não houvesse nada além disso para se viver. Às vezes me pergunto se realmente há, aliás. Tenho a impressão de que as coisas perderam um pouco do seu sentido real naquele dia que você partiu. E dói saber que eu não pude fazer nada para evitar.
Digo agora que ganhei uma sobrevida, que apenas me arrasto sem a perspectiva de melhoras. Se você pudesse ler isso, iria dizer que é besteira minha pensar assim. Provavelmente me daria um tapa no braço e diria que sou um bobo. Mas você não pode mais fazer isso, não é? E até disso eu sinto falta. E de você andando rápido pelas ruas como se fugisse de mim. E de você gritando pela janela do seu apartamento que o mundo era pequeno demais para nós dois. Só que o mundo foi pequeno demais para você, que resolveu partir e me deixar assim. Com essas incertezas e essa dor que parece não cessar.
Você destruiu seu mundo e levou o meu. Eu não merecia isso. Por causa do seu egoísmo, tenho agora uma sombra que me impede de seguir em frente, mesmo depois de tanto tempo. Você não imaginou que seria assim, eu sei. Achava que a decisão era sua e que não atingiria ninguém à sua volta. Ilusão. Se você visse como sigo desde então, talvez se arrependesse de ter feito o que fez. Agora é tarde.
Eu adoro dias de chuva. Mas hoje, mais do que nunca, eu odeio você.
Nos dias de chuva parece que sinto você aqui do meu lado. Sei que não devia ser assim, mas não consigo evitar. Parece besteira, já que, na verdade, nunca tive você de fato. Mas essa sensação me invade quando o tempo está assim. Talvez por você ter ido embora num dia como esse. Talvez por eu me sentir mais sozinho em dias como esse. Não sei ao certo.
O fato é que é tudo muito estranho. O céu cinzento me lembra você. As gotas batendo na janela me lembram você. Minha cama parece ter você. Só que aqui não tem ninguém, nem mesmo eu. Fico vagando pelo quarto escuro, fazendo dele meu mundo de poucos metros quadrados, como se não houvesse nada além disso para se viver. Às vezes me pergunto se realmente há, aliás. Tenho a impressão de que as coisas perderam um pouco do seu sentido real naquele dia que você partiu. E dói saber que eu não pude fazer nada para evitar.
Digo agora que ganhei uma sobrevida, que apenas me arrasto sem a perspectiva de melhoras. Se você pudesse ler isso, iria dizer que é besteira minha pensar assim. Provavelmente me daria um tapa no braço e diria que sou um bobo. Mas você não pode mais fazer isso, não é? E até disso eu sinto falta. E de você andando rápido pelas ruas como se fugisse de mim. E de você gritando pela janela do seu apartamento que o mundo era pequeno demais para nós dois. Só que o mundo foi pequeno demais para você, que resolveu partir e me deixar assim. Com essas incertezas e essa dor que parece não cessar.
Você destruiu seu mundo e levou o meu. Eu não merecia isso. Por causa do seu egoísmo, tenho agora uma sombra que me impede de seguir em frente, mesmo depois de tanto tempo. Você não imaginou que seria assim, eu sei. Achava que a decisão era sua e que não atingiria ninguém à sua volta. Ilusão. Se você visse como sigo desde então, talvez se arrependesse de ter feito o que fez. Agora é tarde.
Eu adoro dias de chuva. Mas hoje, mais do que nunca, eu odeio você.
domingo, dezembro 23, 2001
Amicitia Omnia Vincit
Eles se conheceram quando tinham por volta de 13 anos, ainda na sétima série. Foi durante uma aula de educação física. Jogo de futebol. Por não fazerem parte de nenhuma "panelinha", ficaram de fora das 3 primeiras partidas. Enquanto viam os demais garotos discutindo para ver que equipe jogaria sem camisa, começaram a conversar sobre amenidades da vida estudantil. O ano letivo iniciara-se há poucos meses e começava ali uma amizade que duraria por alguns anos.
Vinicius adorava desenhar e vivia fazendo caricaturas das pessoas com quem convivia. Daniel fazia teatro desde os 10 anos de idade e sonhava trabalhar na televisão. Em comum, o gosto pelo basquete e a aversão a matérias que envolviam números. Além disso, ambos eram muito tímidos, mal falavam com os colegas de classe. Nunca eram chamados para as festinhas de final de semana e nem participavam das brincadeiras que rolavam no recreio.
Durante as aulas, sentavam-se juntos, sempre no início da sala, já que a parte de trás era tomada pelos "populares" - aqueles que adoram fazer bagunça e acham que são o maior sucesso com as garotinhas por tirarem onda com a cara de todos e serem expulsos das aulas constantemente. Por conta disso, os dois começaram a ser considerados esquisitos pelos demais alunos. As garotas riam quando passavam; os garotos esbarravam caso ficassem no caminho, fingindo que nem sequer os viam.
Não demorou muito para que os comentários maldosos e típicos de crianças que começam a descobrir sua sexualidade surgissem. Logo os dois estavam sendo chamados de "viadinhos", "boiolas" e outros apelidos do gênero. Em princípio, tentaram ignorar o que era dito. Com os boatos se espalhando, porém, um incômodo foi crescendo e Vinicius sugeriu que se afastassem um pouco, o que Daniel aceitou prontamente.
Isso não durou mais do que um mês, pois como não falavam com mais ninguém, o isolamento foi inevitável. Retomaram a amizade e decidiram ignorar o que as pessoas diziam. Aos poucos os boatos foram sumindo, terminando de vez quando Vinicius começou a namorar, no ano seguinte, uma aluna nova no colégio. Essa relação, aliás, iria durar até o seu primeiro ano de faculdade, quando seriam separados por forças maiores do que a vontade de ambos.
Agora Daniel estava ali, em pé diante da cama do hospital, olhando seu amigo de infância deixando a vida sem que pudesse fazer qualquer coisa para evitar. Leucemia. Apesar de todo um ano de tratamento intensivo desde que se descobrira a doença, seu organismo parecia não ter uma reação mais efetiva. Na sala de espera, Juliana, a namorada de tantos anos, chorava copiosamente, abraçada à mãe de Vinicius. O pai, desesperado, fumava um cigarro atrás do outro, esperando algum milagre que revertesse a gravidade do quadro.
Lá dentro, Vinicius permanecia imóvel. Os tubos enfiados em suas vias respiratórias e o soro nas veias aumentavam a tristeza do ambiente. Seus cabelos ralos e seu rosto magro denunciavam que a batalha estava sendo perdida. Os olhos permaneciam fechados, como se estivessem em sono profundo. Daniel controlava-se para não chorar, ao mesmo tempo que sua mão pairava sobre a do companheiro. Apesar de muito abalado, não saía de seu lado. Estava no hospital há 4 dias, desde que uma parada respiratória levara Vinícius para lá.
Um médico chegou ao quarto. Em voz baixa, pediu que ele se retirasse dali, pois precisava fazer mais alguns exames. Daniel atendeu ao pedido, apesar de sentir que aqueles eram seus últimos momentos ao lado do amigo. Juliana abraçou-o com carinho. "Tudo vai ficar bem, você vai ver", falou ela sem a menor convicção. Ele olhou para os pais de Vinicius e reparou que já estavam desacreditados. Seus olhos encheram d'água. Não havia mais nada a fazer. Resolveu ir para casa e esperar pela notícia inevitável.
Ainda de madrugada, um telefonema rompeu o silêncio da casa. O choro de Juliana do outro lado da linha já dizia tudo. Levou as mãos à cabeça e se pôs a chorar também. Desligou o telefone e chamou um táxi. Não tinha condições de dirigir. O caminho pareceu durar muito mais do que deveria, o que só aumentava seu desespero. Assustado, o motorista até pensou em perguntar o que acontecera, mas desistiu logo. Levou seu passageiro até o hospital sem sequer trocar uma palavra.
Daniel juntou-se à família de Vinicius no quarto onde o amigo chegara ao seu fim. Juliana estava sentada em um canto, segurando um copo com água. Era visível que estava sob o efeito de calmantes. Ele foi até ela e segurou sua mão. "Por que logo ele?", perguntou a jovem. Daniel abraçou-a e choraram juntos por alguns minutos.
A comoção generalizada deu lugar ao desespero quando a mãe de Vinicius gritou seu nome e se debruçou sobre o corpo do filho. Daniel sentiu um aperto no coração, uma angústia inimaginável. Juliana abaixou a cabeça, cobrindo os olhos com as mãos. O médico pediu a todos que se retirassem do quarto, pois precisava tomar as últimas providências para a remoção do corpo.
A perda de um amigo, de um namorado, de um filho daquela maneira não seria jamais esquecida por quem com ele convivera. Daniel pediu transferência da faculdade de História e foi morar sozinho em uma cidade do interior. Juliana, após dois anos de terapia, conseguiu retomar seus estudos e estava prestes a se formar no curso de Relações Exteriores. Os pais, como não poderia deixar de ser, sentiram a ausência do filho dia após dia até o final de suas vidas.
Um pacto silencioso e honesto se consolidara após o último suspiro de Vinicius naquela madrugada de outono, e permaneceria acompanhando a todos ao longo dos anos que se seguiram, bem como a lembrança daquele rapaz que tanto ensinara com sua dor e com a perda da luta pela vida. Daquele dia em diante, acima de qualquer coisa, estar vivo tornar-se-ia motivo de felicidade e de esperança para eles.
Como deveria ser para todos que têm o prazer de acordar toda manhã e saber que ainda estão ali.
Eles se conheceram quando tinham por volta de 13 anos, ainda na sétima série. Foi durante uma aula de educação física. Jogo de futebol. Por não fazerem parte de nenhuma "panelinha", ficaram de fora das 3 primeiras partidas. Enquanto viam os demais garotos discutindo para ver que equipe jogaria sem camisa, começaram a conversar sobre amenidades da vida estudantil. O ano letivo iniciara-se há poucos meses e começava ali uma amizade que duraria por alguns anos.
Vinicius adorava desenhar e vivia fazendo caricaturas das pessoas com quem convivia. Daniel fazia teatro desde os 10 anos de idade e sonhava trabalhar na televisão. Em comum, o gosto pelo basquete e a aversão a matérias que envolviam números. Além disso, ambos eram muito tímidos, mal falavam com os colegas de classe. Nunca eram chamados para as festinhas de final de semana e nem participavam das brincadeiras que rolavam no recreio.
Durante as aulas, sentavam-se juntos, sempre no início da sala, já que a parte de trás era tomada pelos "populares" - aqueles que adoram fazer bagunça e acham que são o maior sucesso com as garotinhas por tirarem onda com a cara de todos e serem expulsos das aulas constantemente. Por conta disso, os dois começaram a ser considerados esquisitos pelos demais alunos. As garotas riam quando passavam; os garotos esbarravam caso ficassem no caminho, fingindo que nem sequer os viam.
Não demorou muito para que os comentários maldosos e típicos de crianças que começam a descobrir sua sexualidade surgissem. Logo os dois estavam sendo chamados de "viadinhos", "boiolas" e outros apelidos do gênero. Em princípio, tentaram ignorar o que era dito. Com os boatos se espalhando, porém, um incômodo foi crescendo e Vinicius sugeriu que se afastassem um pouco, o que Daniel aceitou prontamente.
Isso não durou mais do que um mês, pois como não falavam com mais ninguém, o isolamento foi inevitável. Retomaram a amizade e decidiram ignorar o que as pessoas diziam. Aos poucos os boatos foram sumindo, terminando de vez quando Vinicius começou a namorar, no ano seguinte, uma aluna nova no colégio. Essa relação, aliás, iria durar até o seu primeiro ano de faculdade, quando seriam separados por forças maiores do que a vontade de ambos.
Agora Daniel estava ali, em pé diante da cama do hospital, olhando seu amigo de infância deixando a vida sem que pudesse fazer qualquer coisa para evitar. Leucemia. Apesar de todo um ano de tratamento intensivo desde que se descobrira a doença, seu organismo parecia não ter uma reação mais efetiva. Na sala de espera, Juliana, a namorada de tantos anos, chorava copiosamente, abraçada à mãe de Vinicius. O pai, desesperado, fumava um cigarro atrás do outro, esperando algum milagre que revertesse a gravidade do quadro.
Lá dentro, Vinicius permanecia imóvel. Os tubos enfiados em suas vias respiratórias e o soro nas veias aumentavam a tristeza do ambiente. Seus cabelos ralos e seu rosto magro denunciavam que a batalha estava sendo perdida. Os olhos permaneciam fechados, como se estivessem em sono profundo. Daniel controlava-se para não chorar, ao mesmo tempo que sua mão pairava sobre a do companheiro. Apesar de muito abalado, não saía de seu lado. Estava no hospital há 4 dias, desde que uma parada respiratória levara Vinícius para lá.
Um médico chegou ao quarto. Em voz baixa, pediu que ele se retirasse dali, pois precisava fazer mais alguns exames. Daniel atendeu ao pedido, apesar de sentir que aqueles eram seus últimos momentos ao lado do amigo. Juliana abraçou-o com carinho. "Tudo vai ficar bem, você vai ver", falou ela sem a menor convicção. Ele olhou para os pais de Vinicius e reparou que já estavam desacreditados. Seus olhos encheram d'água. Não havia mais nada a fazer. Resolveu ir para casa e esperar pela notícia inevitável.
Ainda de madrugada, um telefonema rompeu o silêncio da casa. O choro de Juliana do outro lado da linha já dizia tudo. Levou as mãos à cabeça e se pôs a chorar também. Desligou o telefone e chamou um táxi. Não tinha condições de dirigir. O caminho pareceu durar muito mais do que deveria, o que só aumentava seu desespero. Assustado, o motorista até pensou em perguntar o que acontecera, mas desistiu logo. Levou seu passageiro até o hospital sem sequer trocar uma palavra.
Daniel juntou-se à família de Vinicius no quarto onde o amigo chegara ao seu fim. Juliana estava sentada em um canto, segurando um copo com água. Era visível que estava sob o efeito de calmantes. Ele foi até ela e segurou sua mão. "Por que logo ele?", perguntou a jovem. Daniel abraçou-a e choraram juntos por alguns minutos.
A comoção generalizada deu lugar ao desespero quando a mãe de Vinicius gritou seu nome e se debruçou sobre o corpo do filho. Daniel sentiu um aperto no coração, uma angústia inimaginável. Juliana abaixou a cabeça, cobrindo os olhos com as mãos. O médico pediu a todos que se retirassem do quarto, pois precisava tomar as últimas providências para a remoção do corpo.
A perda de um amigo, de um namorado, de um filho daquela maneira não seria jamais esquecida por quem com ele convivera. Daniel pediu transferência da faculdade de História e foi morar sozinho em uma cidade do interior. Juliana, após dois anos de terapia, conseguiu retomar seus estudos e estava prestes a se formar no curso de Relações Exteriores. Os pais, como não poderia deixar de ser, sentiram a ausência do filho dia após dia até o final de suas vidas.
Um pacto silencioso e honesto se consolidara após o último suspiro de Vinicius naquela madrugada de outono, e permaneceria acompanhando a todos ao longo dos anos que se seguiram, bem como a lembrança daquele rapaz que tanto ensinara com sua dor e com a perda da luta pela vida. Daquele dia em diante, acima de qualquer coisa, estar vivo tornar-se-ia motivo de felicidade e de esperança para eles.
Como deveria ser para todos que têm o prazer de acordar toda manhã e saber que ainda estão ali.
segunda-feira, dezembro 17, 2001
Para Entender Os Humanos
A noite começava a cair quando ela chegou à portaria de seu prédio. Esbaforida, adentrou a portaria e apertou o botão do elevador. 12º andar. Iria demorar alguns minutos para descer, e ela não podia esperar tanto. Tomou as escadas e subiu correndo até o seu apartamento no 8º andar.
Abriu a porta de casa e acendeu a luz. O apartamento ainda estava revirado. Papéis espalhados e roupas por todos os lados davam o tom caótico do local, assim como os objetos jogados ao chão e os vidros rachados que não a deixavam esquecer o que havia acontecido a poucas horas naquele mesmo local.
Deviam ser pouco mais de três da tarde quando a campainha tocou. Pelo pequeno orifício da porta pode ver quem se encontrava ali. Deu dois passos para trás e pensou se valia a pena abrir. Caminhou até a cozinha e pegou um copo d'água, enquanto a campanhia voltava a tocar. Aproximou-se da porta e, com uma calma surpreendente, abriu.
Olhou o relógio e viu que já se passavam das oito horas da noite. Pegou uma roupa qualquer no armário e entrou no chuveiro. Aprontou-se em pouco mais de 20 minutos. Reparou mais uma vez no apartamento todo desarrumado e teve ainda mais raiva do que havia acontecido. Porém, como estava com pressa, não podia perder tempo arrumando as coisas agora. Apagou a luz e fechou a porta.
Ele entrou rapidamente. Olhou-a nos olhos e disse que precisavam conversar. Ela continuou bebendo sua água, com certa indiferença ao que ouvia. Não conseguia abstrair, contudo, da tristeza que tomava conta da face daquele que um dia amara tanto. Num gesto desesperado, tentou pegar sua mão, e ela, arredia, esquivou-se. Mandou que se sentasse e colocou o copo na pia.
Enquanto descia no elevador, ia cantarolando baixinho a melodia de "My Funny Valentine". Sempre que estava triste colocava essa música para tocar, mas nem para isso ela tinha tempo agora. Já estava ficando tarde e iria acabar se atrasando ainda mais. Como era impossível esquecer aquele hábito, seguiu cantarolando até chegar à garagem e pegar seu carro.
Já fazia meia hora que ele estava ali, falando sem parar. Ela continuava apenas observando, pensando até quando aquilo iria durar. As lágrimas caíam compulsivamente dos olhos do rapaz, com ela permanecendo impassível diante de toda aquela cena.
As ruas livres eram um convite à direção perigosa. Ela acelerou seu carro, ultrapassando os cento e vinte quilômetros por hora. O rádio às alturas tocava algum antigo sucesso dos Rolling Stones. Quem a visse tomada por tal euforia, jamais poderia imaginar que não mais do que oito horas atrás estava num estado de absoluta insatisfação.
Levantou-se do sofá e caminhou até o quarto. De lá, trouxe uma caixa de tamanho razoável. Abriu-a sem dar uma palavra e foi retirando um a um todos os presentes que ele havia lhe dado em quatro anos de relacionamento. Quando acabou, secamente se pronunciou: tire-os daqui. Ele ficou atônito.
Dirigia agora calmamente. Estava chegando e não precisava mais ter tanta pressa. Apesar do atraso, conseguira estar lá em um horário bastante razoável, e não haveria de ouvir reclamações por causa disso.Estacionou o carro e desceu, caminhando logo até a entrada.
O rapaz não consegui acreditar no que estava acontecendo. Não iria ficar ali suportando tamanha humilhação por nada. Resolveu então mudar aquela situação. Foi até a estante e, enquanto ela permanecia sentada, observando-o, atirou ao chão tudo o que ali estava. Em seguida, abriu as gavetas da escrivaninha e revirou os papéis, espalhando-os por todo canto.
Tocou a campainha por três vezes, mas ninguém atendeu. Estranhando tal situação, puxou o telefone celular da bolsa e discou. Conseguiu ouvir o telefone tocando dentro da casa, porém não obteve retorno do outro lado da linha. As luzes do lado de fora estavam acesas, o que parecia ser um indício de que havia alguém lá.
Partiu para cima dele com raiva e tristeza. Sabia que tinha dado motivos para que ele tomasse uma atitude como aquela, mas mesmo assim sentiu-se injustiçada. Ergueu a mão e tentou dar-lhe um tapa na cara, no que foi prontamente impedida por outra mão, a dele. Gritava para que a soltasse e ele não parecia ouvir. De pé, permanecia ali a olhá-la, agora com uma estranha indiferença.
Tentou tocar mais duas vezes a campainha. Sem sucesso, optou por pular o muro e ver o que estava acontecendo. Os cachorros não latiram. Conseguia agora ouvir bem ao fundo uma música, algo como uma velha canção típica. Caminhou pelo pequeno terreno que separava o muro da porta da casa com certo receio do que pudesse estar acontecendo. Chegou até a janela e olhou para dentro da sala.
Ele virou as costas e foi embora do apartamento. Ela ficou jogada ao chão, chorando copiosamente. Em sua cabeça, a idéia de que algo precisava ser feito como resposta era pulsante e repetitiva. Não queria mais aquele cara na sua vida, e faria de tudo para que ele sumisse de vez.
Lá dentro, o ambiente não estava muito claro. Apenas a luz de uma pequena luminária preenchia a sala. Seus olhos, porém, avistaram uma cena que ficaria marcada para o resto da sua vida: o rapaz agarrava uma outra jovem por trás, ambos sem roupa. Deitaram-se no chão e iniciaram uma transa tórrida, a qual lhe arrancou lágrimas de indignação. Saiu de lá com pressa, visivelmente transtornada.
Ele nunca mais a procurou, ela também não. Por mais que um ou outro tivesse alguma recaída, mantiveram o distanciamento necessário para se tornarem apenas um ponto no passado, a sombra de uma relação conturbada e sem importância, no final das contas. Assim como devem ser todas as relações.
A noite começava a cair quando ela chegou à portaria de seu prédio. Esbaforida, adentrou a portaria e apertou o botão do elevador. 12º andar. Iria demorar alguns minutos para descer, e ela não podia esperar tanto. Tomou as escadas e subiu correndo até o seu apartamento no 8º andar.
Abriu a porta de casa e acendeu a luz. O apartamento ainda estava revirado. Papéis espalhados e roupas por todos os lados davam o tom caótico do local, assim como os objetos jogados ao chão e os vidros rachados que não a deixavam esquecer o que havia acontecido a poucas horas naquele mesmo local.
Deviam ser pouco mais de três da tarde quando a campainha tocou. Pelo pequeno orifício da porta pode ver quem se encontrava ali. Deu dois passos para trás e pensou se valia a pena abrir. Caminhou até a cozinha e pegou um copo d'água, enquanto a campanhia voltava a tocar. Aproximou-se da porta e, com uma calma surpreendente, abriu.
Olhou o relógio e viu que já se passavam das oito horas da noite. Pegou uma roupa qualquer no armário e entrou no chuveiro. Aprontou-se em pouco mais de 20 minutos. Reparou mais uma vez no apartamento todo desarrumado e teve ainda mais raiva do que havia acontecido. Porém, como estava com pressa, não podia perder tempo arrumando as coisas agora. Apagou a luz e fechou a porta.
Ele entrou rapidamente. Olhou-a nos olhos e disse que precisavam conversar. Ela continuou bebendo sua água, com certa indiferença ao que ouvia. Não conseguia abstrair, contudo, da tristeza que tomava conta da face daquele que um dia amara tanto. Num gesto desesperado, tentou pegar sua mão, e ela, arredia, esquivou-se. Mandou que se sentasse e colocou o copo na pia.
Enquanto descia no elevador, ia cantarolando baixinho a melodia de "My Funny Valentine". Sempre que estava triste colocava essa música para tocar, mas nem para isso ela tinha tempo agora. Já estava ficando tarde e iria acabar se atrasando ainda mais. Como era impossível esquecer aquele hábito, seguiu cantarolando até chegar à garagem e pegar seu carro.
Já fazia meia hora que ele estava ali, falando sem parar. Ela continuava apenas observando, pensando até quando aquilo iria durar. As lágrimas caíam compulsivamente dos olhos do rapaz, com ela permanecendo impassível diante de toda aquela cena.
As ruas livres eram um convite à direção perigosa. Ela acelerou seu carro, ultrapassando os cento e vinte quilômetros por hora. O rádio às alturas tocava algum antigo sucesso dos Rolling Stones. Quem a visse tomada por tal euforia, jamais poderia imaginar que não mais do que oito horas atrás estava num estado de absoluta insatisfação.
Levantou-se do sofá e caminhou até o quarto. De lá, trouxe uma caixa de tamanho razoável. Abriu-a sem dar uma palavra e foi retirando um a um todos os presentes que ele havia lhe dado em quatro anos de relacionamento. Quando acabou, secamente se pronunciou: tire-os daqui. Ele ficou atônito.
Dirigia agora calmamente. Estava chegando e não precisava mais ter tanta pressa. Apesar do atraso, conseguira estar lá em um horário bastante razoável, e não haveria de ouvir reclamações por causa disso.Estacionou o carro e desceu, caminhando logo até a entrada.
O rapaz não consegui acreditar no que estava acontecendo. Não iria ficar ali suportando tamanha humilhação por nada. Resolveu então mudar aquela situação. Foi até a estante e, enquanto ela permanecia sentada, observando-o, atirou ao chão tudo o que ali estava. Em seguida, abriu as gavetas da escrivaninha e revirou os papéis, espalhando-os por todo canto.
Tocou a campainha por três vezes, mas ninguém atendeu. Estranhando tal situação, puxou o telefone celular da bolsa e discou. Conseguiu ouvir o telefone tocando dentro da casa, porém não obteve retorno do outro lado da linha. As luzes do lado de fora estavam acesas, o que parecia ser um indício de que havia alguém lá.
Partiu para cima dele com raiva e tristeza. Sabia que tinha dado motivos para que ele tomasse uma atitude como aquela, mas mesmo assim sentiu-se injustiçada. Ergueu a mão e tentou dar-lhe um tapa na cara, no que foi prontamente impedida por outra mão, a dele. Gritava para que a soltasse e ele não parecia ouvir. De pé, permanecia ali a olhá-la, agora com uma estranha indiferença.
Tentou tocar mais duas vezes a campainha. Sem sucesso, optou por pular o muro e ver o que estava acontecendo. Os cachorros não latiram. Conseguia agora ouvir bem ao fundo uma música, algo como uma velha canção típica. Caminhou pelo pequeno terreno que separava o muro da porta da casa com certo receio do que pudesse estar acontecendo. Chegou até a janela e olhou para dentro da sala.
Ele virou as costas e foi embora do apartamento. Ela ficou jogada ao chão, chorando copiosamente. Em sua cabeça, a idéia de que algo precisava ser feito como resposta era pulsante e repetitiva. Não queria mais aquele cara na sua vida, e faria de tudo para que ele sumisse de vez.
Lá dentro, o ambiente não estava muito claro. Apenas a luz de uma pequena luminária preenchia a sala. Seus olhos, porém, avistaram uma cena que ficaria marcada para o resto da sua vida: o rapaz agarrava uma outra jovem por trás, ambos sem roupa. Deitaram-se no chão e iniciaram uma transa tórrida, a qual lhe arrancou lágrimas de indignação. Saiu de lá com pressa, visivelmente transtornada.
Ele nunca mais a procurou, ela também não. Por mais que um ou outro tivesse alguma recaída, mantiveram o distanciamento necessário para se tornarem apenas um ponto no passado, a sombra de uma relação conturbada e sem importância, no final das contas. Assim como devem ser todas as relações.
sexta-feira, dezembro 14, 2001
Saldo Final
Durante muito tempo eu procurei entender suas atitudes, seus sentimentos
Tentei ser paciente, ser mais compreensivo e aceitar que você podia estar confusa
Depois, sofri calado com as suas certezas, as quais descobri só existirem em relação a mim
Agüentei suas idas e voltas, sua inconstância e sua insegurança
Fiz papel de bobo, como todo apaixonado
Só que a partir de hoje isso não vai ser mais assim
Cansei do seu jogo, cansei de ser o palhaço nessa história toda
Não quero mais isso para mim
Você foi e ainda é muito importante para mim, é claro
Mas eu não mereço sofrer dessa maneira
E você não merece que eu sofra por você
Aliás, você nem merecia mais essas palavras
Só que eu ainda sou idiota a ponto de escreve-las
O que me consola é saber que uma hora isso vai acabar
Afinal, não há dor que demore tanto
Sabe, eu devia era deixá-la ir embora de vez
Esquecer que um dia você existiu para mim
Que é para ver se eu consigo ser mais feliz
Já que assim não está dando para viver
Durante muito tempo eu procurei entender suas atitudes, seus sentimentos
Tentei ser paciente, ser mais compreensivo e aceitar que você podia estar confusa
Depois, sofri calado com as suas certezas, as quais descobri só existirem em relação a mim
Agüentei suas idas e voltas, sua inconstância e sua insegurança
Fiz papel de bobo, como todo apaixonado
Só que a partir de hoje isso não vai ser mais assim
Cansei do seu jogo, cansei de ser o palhaço nessa história toda
Não quero mais isso para mim
Você foi e ainda é muito importante para mim, é claro
Mas eu não mereço sofrer dessa maneira
E você não merece que eu sofra por você
Aliás, você nem merecia mais essas palavras
Só que eu ainda sou idiota a ponto de escreve-las
O que me consola é saber que uma hora isso vai acabar
Afinal, não há dor que demore tanto
Sabe, eu devia era deixá-la ir embora de vez
Esquecer que um dia você existiu para mim
Que é para ver se eu consigo ser mais feliz
Já que assim não está dando para viver
quinta-feira, dezembro 13, 2001
Estranhos
O sol começava a se pôr logo que ela chegou à praia. Uma brisa fresca amenizava o clima, e a quietudade que se instaurava naquele trecho isolado da orla lhe dava a calma necessária para organizar seus pensamentos.
Sentou-se na areia e passou a observar o mar. As ondas eram pequenas e raras, dando um aspecto de serenidade ao oceano, como se esse compartilhasse do seu atual estado de espírito.
Abriu sua bolsa e de lá tirou um pequeno baseado, o qual acendeu rapidamente. Deixou seu corpo tombar na areia. Deitada, sentia-se mais leve; tinha a sensação de que nada poderia lhe perturbar.
Permaneceu assim por alguns minutos, até que resolveu levantar e caminhar um pouco. Avistou a alguns metros um grupo de 3 surfistas sentados na areia e lhe pareceu ser interessante ir até lá. Assim o fez, despretensiosamente.
Dois dos rapazes foram para o mar logo que ela se aproximou. Um, porém, permaneceu sentado, olhando-a fixamente. Ela o cumprimentou de forma tímida, ao que foi respondida com um gesto para se sentar.
Durante poucos segundos um silêncio perturbador se fez presente. Enquanto ele observava os dois amigos tentando em vão arranjar uma boa onda, ela mantinha os olhos baixos, perdida em sua viagem particular. O sol já não se fazia mais presente e a noite anunciava-se com um céu limpo e estrelado.
- Me dá um beijo?
- O quê?
- Me dá um beijo?
- Cê tá maluco? Eu nem te conheço, garoto!
- Eu sei... por isso mesmo!
- Ha! O que cê tá achando que eu sou?
- Não tô achando nada. Só quero um beijo, só isso...
- Cê acha que é assim? Fala sério!
Ela se levantou bruscamente. O rapaz não tentou impedi-la, sequer disse uma palavra. Permaneceu sentado, observando o movimento do mar. Enquanto isso, ela se afastava dali, visivelmente incomodada com o que havia acabado de acontecer.
Os seus passos foram se tornando mais lentos aos poucos. Na sua cabeça, uma grande confusão se fazia agora. Apesar da forma com que foi feito, ela não podia negar que o pedido lhe havia deixado feliz. Estava sem alguém há um bom tempo, e tinha sempre a impressão de que não era desejada por ninguém. Mal ou bem, o que acontecera há pouco fôra bom para o seu ego.
Parou de repente. Olhou para trás e viu que o rapaz estava no mesmo lugar, na mesma posição. Os amigos pareciam ter desistido das ondas e conversavam animadamente sentados em suas pranchas na água. Caminhou decidida até ele, que mesmo com sua aproximação permaneceu com o olhar perdido no horizonte.
Sem que dissesse uma palavra, ela lhe deu um beijo afoito. O rapaz nada fez. Ela, confusa, surpreendeu-se com a atitude dele.
- Cê não vai fazer nada?
- Como assim?
- Cê não queria um beijo?
- Sim.
- E agora que eu resolvo te beijar cê faz isso?
- Isso o quê?
- Não reage, não faz nada!
- O que cê queria? Eu nem te conheço...
O sol começava a se pôr logo que ela chegou à praia. Uma brisa fresca amenizava o clima, e a quietudade que se instaurava naquele trecho isolado da orla lhe dava a calma necessária para organizar seus pensamentos.
Sentou-se na areia e passou a observar o mar. As ondas eram pequenas e raras, dando um aspecto de serenidade ao oceano, como se esse compartilhasse do seu atual estado de espírito.
Abriu sua bolsa e de lá tirou um pequeno baseado, o qual acendeu rapidamente. Deixou seu corpo tombar na areia. Deitada, sentia-se mais leve; tinha a sensação de que nada poderia lhe perturbar.
Permaneceu assim por alguns minutos, até que resolveu levantar e caminhar um pouco. Avistou a alguns metros um grupo de 3 surfistas sentados na areia e lhe pareceu ser interessante ir até lá. Assim o fez, despretensiosamente.
Dois dos rapazes foram para o mar logo que ela se aproximou. Um, porém, permaneceu sentado, olhando-a fixamente. Ela o cumprimentou de forma tímida, ao que foi respondida com um gesto para se sentar.
Durante poucos segundos um silêncio perturbador se fez presente. Enquanto ele observava os dois amigos tentando em vão arranjar uma boa onda, ela mantinha os olhos baixos, perdida em sua viagem particular. O sol já não se fazia mais presente e a noite anunciava-se com um céu limpo e estrelado.
- Me dá um beijo?
- O quê?
- Me dá um beijo?
- Cê tá maluco? Eu nem te conheço, garoto!
- Eu sei... por isso mesmo!
- Ha! O que cê tá achando que eu sou?
- Não tô achando nada. Só quero um beijo, só isso...
- Cê acha que é assim? Fala sério!
Ela se levantou bruscamente. O rapaz não tentou impedi-la, sequer disse uma palavra. Permaneceu sentado, observando o movimento do mar. Enquanto isso, ela se afastava dali, visivelmente incomodada com o que havia acabado de acontecer.
Os seus passos foram se tornando mais lentos aos poucos. Na sua cabeça, uma grande confusão se fazia agora. Apesar da forma com que foi feito, ela não podia negar que o pedido lhe havia deixado feliz. Estava sem alguém há um bom tempo, e tinha sempre a impressão de que não era desejada por ninguém. Mal ou bem, o que acontecera há pouco fôra bom para o seu ego.
Parou de repente. Olhou para trás e viu que o rapaz estava no mesmo lugar, na mesma posição. Os amigos pareciam ter desistido das ondas e conversavam animadamente sentados em suas pranchas na água. Caminhou decidida até ele, que mesmo com sua aproximação permaneceu com o olhar perdido no horizonte.
Sem que dissesse uma palavra, ela lhe deu um beijo afoito. O rapaz nada fez. Ela, confusa, surpreendeu-se com a atitude dele.
- Cê não vai fazer nada?
- Como assim?
- Cê não queria um beijo?
- Sim.
- E agora que eu resolvo te beijar cê faz isso?
- Isso o quê?
- Não reage, não faz nada!
- O que cê queria? Eu nem te conheço...
terça-feira, dezembro 11, 2001
É Isso Aí
- Já viu como a lua tá bonita hoje, Dani?
- Ah, nada demais...
- Como não? Olha lá, repara como ela tá brilhando...
- Você bebeu, Fernando? Foi isso?
- Que bebi o quê! Olha como ela tá linda...
- Sei, sei...
- Você não acha?
- Na boa, deixa de ser bobo...
- Bobo não... romântico!
- Ah, tá! E não é a mesma coisa?
- Já viu como a lua tá bonita hoje, Dani?
- Ah, nada demais...
- Como não? Olha lá, repara como ela tá brilhando...
- Você bebeu, Fernando? Foi isso?
- Que bebi o quê! Olha como ela tá linda...
- Sei, sei...
- Você não acha?
- Na boa, deixa de ser bobo...
- Bobo não... romântico!
- Ah, tá! E não é a mesma coisa?
segunda-feira, dezembro 10, 2001
Sem Título
Hoje eu queria te ver
Queria ouvir sua voz, falar besteira, deixar você me fazer um pouco mais alegre
Queria dizer que ainda te adoro demais, que você continua sendo muito importante para mim
Queria sentir sua presença, admirar seu sorriso e entender o que seus olhos tanto me dizem
Queria esquecer o quanto já sofri por você, perdoar tudo de errado e só tentar ser feliz contigo
Queria acreditar que ainda há uma chance pra gente, que tudo ainda pode melhorar
Queria dormir e acordar sabendo que você é minha, só minha
Queria não estar tão distante assim
Porque hoje eu tive vontade de você
Hoje eu queria te ver
Queria ouvir sua voz, falar besteira, deixar você me fazer um pouco mais alegre
Queria dizer que ainda te adoro demais, que você continua sendo muito importante para mim
Queria sentir sua presença, admirar seu sorriso e entender o que seus olhos tanto me dizem
Queria esquecer o quanto já sofri por você, perdoar tudo de errado e só tentar ser feliz contigo
Queria acreditar que ainda há uma chance pra gente, que tudo ainda pode melhorar
Queria dormir e acordar sabendo que você é minha, só minha
Queria não estar tão distante assim
Porque hoje eu tive vontade de você
quarta-feira, novembro 28, 2001
Êxtase Para Um Final Feliz
“Preparei uma surpresa para você...”, falou ela com voz doce, ao mesmo tempo que cobria os olhos dele com uma venda. A porta do apartamento mal havia sido aberta, mas ele pode perceber que havia algo de diferente lá dentro.
“Não olha agora, já disse!”, continuou. Segurou-o pela mão e foi conduzindo-o a passos lentos pela sala. Um cheiro gostoso preenchia o ar, em perfeita harmonia com a música que tocava bem ao fundo, a qual ele reconheceu como “All Blues”, de Miles Davis.
“Calma, já vou deixar você tirar a venda!”, disse ela com entusiasmo pueril. Fez com que ele se sentasse no sofá bruscamente e se afastou dali rapidamente. Ele permaneceu ali, curioso com o que estava por vir e sem conseguir esconder um sorriso de satisfação.
“Não tenta tirar!”, gritou. A voz não veio de muito longe, e logo ele afastou a mão do rosto. Aos poucos, começou a sentir que o ambiente esquentava. Estranhou aquilo, mas permaneceu imóvel ao ouvi-la assobiando não muito longe dali.
“Está quase na hora, relaxa...”, ela sussurrou. Ele já não agüentava mais de ansiedade, e tentou se levantar do sofá. Foi surpreendido com um empurrão forte, obrigando-o a sentar novamente. A música que vinha do som agora era mais alta, e o cheiro agradável tinha desaparecido.
“Estica as mãos, vai...”, pediu com muito carinho. Desconfiado, ele ainda tentou saber do que se tratava, mas a repetição do pedido o fez ceder. Sentiu algo fechar em seus pulsos, e reagiu com um pulo e um berro assustado. Havia cheiro de queimado.
“O que houve? Confia em mim, amor...”, falou calmamente. Ele, irriquieto, relutou mais uma vez. As mãos dela tocaram suavemente seu rosto, acariciando-o em seguida. Aquele gesto o excitou de tal forma que decidiu deixar ela fazer o que quisesse.
“Agora estica as pernas!”, insistiu ela. Foi atendida prontamente. Dessa vez, seus tornozelos é que foram presos. Já sabia que eram algemas, e as fantasias que passavam por sua cabeça agora eram as mais diversas possíveis. O calor era insuportável agora.
“Pode olhar agora...”, ela disse, já retirando a venda. O sorriso que estava em seu rosto logo foi substituído por uma expressão de pânico. Ela estava parada em sua frente, com expressão séria.
“E então, gostou da surpresa?”, perguntou. Atrás dela, as chamas já tomavam boa parte do apartamento. Na sua mão, uma taça de vinho pela metade. Os olhos exprimiam um ar de maldade que contrastavam com a feição angelical que lhe era característica.
"O que é isso? O que é isso? Você é louca!!!!"
“Não, não... isso é apenas o que eu chamo de um final feliz, que tal?”
“Preparei uma surpresa para você...”, falou ela com voz doce, ao mesmo tempo que cobria os olhos dele com uma venda. A porta do apartamento mal havia sido aberta, mas ele pode perceber que havia algo de diferente lá dentro.
“Não olha agora, já disse!”, continuou. Segurou-o pela mão e foi conduzindo-o a passos lentos pela sala. Um cheiro gostoso preenchia o ar, em perfeita harmonia com a música que tocava bem ao fundo, a qual ele reconheceu como “All Blues”, de Miles Davis.
“Calma, já vou deixar você tirar a venda!”, disse ela com entusiasmo pueril. Fez com que ele se sentasse no sofá bruscamente e se afastou dali rapidamente. Ele permaneceu ali, curioso com o que estava por vir e sem conseguir esconder um sorriso de satisfação.
“Não tenta tirar!”, gritou. A voz não veio de muito longe, e logo ele afastou a mão do rosto. Aos poucos, começou a sentir que o ambiente esquentava. Estranhou aquilo, mas permaneceu imóvel ao ouvi-la assobiando não muito longe dali.
“Está quase na hora, relaxa...”, ela sussurrou. Ele já não agüentava mais de ansiedade, e tentou se levantar do sofá. Foi surpreendido com um empurrão forte, obrigando-o a sentar novamente. A música que vinha do som agora era mais alta, e o cheiro agradável tinha desaparecido.
“Estica as mãos, vai...”, pediu com muito carinho. Desconfiado, ele ainda tentou saber do que se tratava, mas a repetição do pedido o fez ceder. Sentiu algo fechar em seus pulsos, e reagiu com um pulo e um berro assustado. Havia cheiro de queimado.
“O que houve? Confia em mim, amor...”, falou calmamente. Ele, irriquieto, relutou mais uma vez. As mãos dela tocaram suavemente seu rosto, acariciando-o em seguida. Aquele gesto o excitou de tal forma que decidiu deixar ela fazer o que quisesse.
“Agora estica as pernas!”, insistiu ela. Foi atendida prontamente. Dessa vez, seus tornozelos é que foram presos. Já sabia que eram algemas, e as fantasias que passavam por sua cabeça agora eram as mais diversas possíveis. O calor era insuportável agora.
“Pode olhar agora...”, ela disse, já retirando a venda. O sorriso que estava em seu rosto logo foi substituído por uma expressão de pânico. Ela estava parada em sua frente, com expressão séria.
“E então, gostou da surpresa?”, perguntou. Atrás dela, as chamas já tomavam boa parte do apartamento. Na sua mão, uma taça de vinho pela metade. Os olhos exprimiam um ar de maldade que contrastavam com a feição angelical que lhe era característica.
"O que é isso? O que é isso? Você é louca!!!!"
“Não, não... isso é apenas o que eu chamo de um final feliz, que tal?”
terça-feira, novembro 27, 2001
Por Não Ter Você
Hoje comprei esta flor
Para dizer que pensei em ti
Para pedir desculpas por minhas imperfeições
E para te agradecer por toda a paciência
Hoje comprei esta flor
Para ver se consigo me redimir
Por às vezes em atos não ter proporções
E para ver se perdoas minha intransigência
Hoje comprei esta flor
Para falar que não sou tão ruim
Para que tentes entender minhas reações
Enquanto me porto como criança de grande inocência
Hoje comprei esta flor
Para que não venhas julgar a mim
Um alguém de problemas sem dimensões
E vejas que sinto muito mais que carência
Hoje comprei esta flor
Para desfazer as impressões sem fim
De que não sou digno de suas atenções
E dos afetos de sua consciência
Hoje comprei esta flor
Para tentar que não penses em ir
E procurar por carinho em outros quarteirões
Quando me tens com total veemência
Hoje comprei esta flor
Para mostrar que não sei contigo agir
Enxergando todas as minhas pretensões
Como atos falhos sem qualquer consistência
Hoje comprei esta flor
Para tentar lhe fazer sorrir
E ter uma vez a decência
De assumir o quanto eu te adoro
Hoje comprei esta flor
Para dizer que pensei em ti
Para pedir desculpas por minhas imperfeições
E para te agradecer por toda a paciência
Hoje comprei esta flor
Para ver se consigo me redimir
Por às vezes em atos não ter proporções
E para ver se perdoas minha intransigência
Hoje comprei esta flor
Para falar que não sou tão ruim
Para que tentes entender minhas reações
Enquanto me porto como criança de grande inocência
Hoje comprei esta flor
Para que não venhas julgar a mim
Um alguém de problemas sem dimensões
E vejas que sinto muito mais que carência
Hoje comprei esta flor
Para desfazer as impressões sem fim
De que não sou digno de suas atenções
E dos afetos de sua consciência
Hoje comprei esta flor
Para tentar que não penses em ir
E procurar por carinho em outros quarteirões
Quando me tens com total veemência
Hoje comprei esta flor
Para mostrar que não sei contigo agir
Enxergando todas as minhas pretensões
Como atos falhos sem qualquer consistência
Hoje comprei esta flor
Para tentar lhe fazer sorrir
E ter uma vez a decência
De assumir o quanto eu te adoro
domingo, novembro 25, 2001
terça-feira, novembro 20, 2001
sexta-feira, novembro 16, 2001
Confusões
Ele quer tudo como era antes. Sabe o quanto ela é importante, o quanto ela é especial. Gosta muito dela, é verdade, mas sabe que essa relação acaba fazendo mal para ambos. Não consegue se controlar, e acaba vivendo tudo com tanta intensidade que a ama e a odeia com a mesma freqüência. Tem horas que sente vontade de mandá-la ao espaço, pedir para que suma de vez da sua vida. Mas também tem os momentos em que não consegue pensar em sua vida sem ela, e tem vontade de telefonar, de dar nela um abraço bem apertado, de chamá-la para sair. Só que não o faz, é claro. Seu orgulho é muito grande para isso.
Ele sabe que o tempo infelizmente não volta, e que tudo que aconteceu não pode ser apagado assim, de uma hora para outra. Os sentimentos envolvidos em todo o processo não têm como simplesmente serem ignorados, como se não fossem fortes o suficiente para fazer com que o mundo dele seja maravilhoso ou desabe por causa de um ato ou de uma fala dela. Ao mesmo tempo, queria que nada disso precisasse sumir daquela relação. Queria poder continuar apaixonado por ela, queria poder continuar com a certeza de que ela é a pessoa certa, queria poder ainda ter esperanças de que um dia ficarão juntos e serão felizes. Mas ela já desfez todos os seus sonhos, já lhe mostrou que as coisas não podem ser assim. A cabeça dele até entendeu, mas o seu coração... não tem jeito, não consegue mesmo. É muito burro.
Ele ouve de todo mundo que está na hora de partir para outra, de erguer a cabeça e seguir em frente. "Só uma nova paixão para apagar uma antiga", não é? Quanta hipocrisia. Ele sente que é impossível se envolver com alguém se não a tira da cabeça. De certa forma, sabe que seria o melhor a fazer, pois ela realmente não o quer. Mas ele gosta de ser idiota, de quebrar a cara, e continua achando que pode mudar a opinião dela. Por conta disso, sofre a cada dia que a encontra e não a tem. Uma hora vai acabar aprendendo, é verdade, mas por enquanto ainda é muito difícil. Melhor seria se ela sumisse do mundo, se o deixasse em paz de vez. Será mesmo?
Ele conta os dias que está em casa e não a vê. Aluga filmes do Woody Allen para tentar melhorar seu humor e ver se o tempo demora menos a passar. Ouve três vezes seguidas aquela música que ela adora e tem vontade de morrer. Ou de matá-la, é verdade. Sente raiva por ela estar lhe trazendo tanto sofrimento, tanta solidão. Só que também a adora, mesmo sem saber o porquê. Ela realmente mexe com seus sentimentos. "Maldita hora que a conheci", fica repetindo para si mesmo. Mal sabe ele que isso é apenas o começo...
Ele quer se declarar mais uma vez. Mandar flores, chamá-la para sair. Porém, cada vez que eles se falam um pouco disso vai morrendo. É verdade que sua teimosia não o faz acreditar por completo no fato dela não o querer mais, mas mesmo assim está cansando um pouco dessa situação. Uma hora ele vai estourar, uma hora ele não vai mais aguentar. Ela não pode ficar manipulando a situação desse jeito. Será que não consegue respeitar o que ele sente? Não é tão difícil assim.
- Por que você continua me ligando?
- Porque eu gosto de você. Você não gosta de mim?
- Gosto, claro.
- Então pronto. Vamos ser amigos?
- Você está louca?
- Assim não dá, assim não dá.
- Mas não quero que você vá embora.
- Não?
- Não.
- Por quê?
- Sei lá.
- Eu não entendo...
- Nem eu, nem eu...
Ele quer tudo como era antes. Sabe o quanto ela é importante, o quanto ela é especial. Gosta muito dela, é verdade, mas sabe que essa relação acaba fazendo mal para ambos. Não consegue se controlar, e acaba vivendo tudo com tanta intensidade que a ama e a odeia com a mesma freqüência. Tem horas que sente vontade de mandá-la ao espaço, pedir para que suma de vez da sua vida. Mas também tem os momentos em que não consegue pensar em sua vida sem ela, e tem vontade de telefonar, de dar nela um abraço bem apertado, de chamá-la para sair. Só que não o faz, é claro. Seu orgulho é muito grande para isso.
Ele sabe que o tempo infelizmente não volta, e que tudo que aconteceu não pode ser apagado assim, de uma hora para outra. Os sentimentos envolvidos em todo o processo não têm como simplesmente serem ignorados, como se não fossem fortes o suficiente para fazer com que o mundo dele seja maravilhoso ou desabe por causa de um ato ou de uma fala dela. Ao mesmo tempo, queria que nada disso precisasse sumir daquela relação. Queria poder continuar apaixonado por ela, queria poder continuar com a certeza de que ela é a pessoa certa, queria poder ainda ter esperanças de que um dia ficarão juntos e serão felizes. Mas ela já desfez todos os seus sonhos, já lhe mostrou que as coisas não podem ser assim. A cabeça dele até entendeu, mas o seu coração... não tem jeito, não consegue mesmo. É muito burro.
Ele ouve de todo mundo que está na hora de partir para outra, de erguer a cabeça e seguir em frente. "Só uma nova paixão para apagar uma antiga", não é? Quanta hipocrisia. Ele sente que é impossível se envolver com alguém se não a tira da cabeça. De certa forma, sabe que seria o melhor a fazer, pois ela realmente não o quer. Mas ele gosta de ser idiota, de quebrar a cara, e continua achando que pode mudar a opinião dela. Por conta disso, sofre a cada dia que a encontra e não a tem. Uma hora vai acabar aprendendo, é verdade, mas por enquanto ainda é muito difícil. Melhor seria se ela sumisse do mundo, se o deixasse em paz de vez. Será mesmo?
Ele conta os dias que está em casa e não a vê. Aluga filmes do Woody Allen para tentar melhorar seu humor e ver se o tempo demora menos a passar. Ouve três vezes seguidas aquela música que ela adora e tem vontade de morrer. Ou de matá-la, é verdade. Sente raiva por ela estar lhe trazendo tanto sofrimento, tanta solidão. Só que também a adora, mesmo sem saber o porquê. Ela realmente mexe com seus sentimentos. "Maldita hora que a conheci", fica repetindo para si mesmo. Mal sabe ele que isso é apenas o começo...
Ele quer se declarar mais uma vez. Mandar flores, chamá-la para sair. Porém, cada vez que eles se falam um pouco disso vai morrendo. É verdade que sua teimosia não o faz acreditar por completo no fato dela não o querer mais, mas mesmo assim está cansando um pouco dessa situação. Uma hora ele vai estourar, uma hora ele não vai mais aguentar. Ela não pode ficar manipulando a situação desse jeito. Será que não consegue respeitar o que ele sente? Não é tão difícil assim.
- Por que você continua me ligando?
- Porque eu gosto de você. Você não gosta de mim?
- Gosto, claro.
- Então pronto. Vamos ser amigos?
- Você está louca?
- Assim não dá, assim não dá.
- Mas não quero que você vá embora.
- Não?
- Não.
- Por quê?
- Sei lá.
- Eu não entendo...
- Nem eu, nem eu...
segunda-feira, novembro 12, 2001
Pronto Esquecimento
Era uma manhã de terça-feira quando tomou uma decisão que mudaria radicalmente sua vida: “a partir de hoje, serei uma pessoa mais egoísta”. Contou a todos, espalhou a notícia radiante, vendo naquele ato a chance de resolver todos os seus problemas.
A princípio, não houve uma pessoa que não se chocasse. Logo ele, que sempre fôra o ombro amigo, o cara com quem se podia contar a qualquer momento, iria abandonar esse comportamento e passar a pensar apenas em si mesmo? Que absurdo!
Mas ele estava de fato decidido. Para começar, decidiu acabar com todas as relações que considerava mantidas apenas por conveniência. Deixou claro que não era um amigo, que determinadas pessoas não poderiam mais contar com ele. Indicou que queria tê-los apenas como colegas, meros conhecidos a quem se cumprimenta de forma ocasional.
Com outros, foi ainda mais além. Pediu solenemente que sumissem de sua vida, pois não faziam a menor diferença. “Chega de me relacionar com pessoas inexpressivas, que não têm nada a me acrescentar”. Acreditava mesmo nisso, e fez por onde esquecer rápido aqueles que se enquadravam nessa categoria.
A melhor mudança, porém, foi com aqueles que um dia tinham sido egoístas com ele. Passou a usar de um meio bem eficiente para se atingir alguém: tornou-se um cara falso, capaz de fingir grande empatia por quem mais odiava. Divertia-se muito dando conselhos inúteis e aparentando preocupação com os problemas alheios.
Seguiu agindo assim por um bom tempo, sem se sentir incomodado. Na verdade, vivia feliz dessa maneira, desprezando o mundo. Por mais que tivesse perdido uma ou outra pessoa importante nessa transformação, tinha se livrado de vários estorvos, o que já era motivo para uma sensação de conquista.
Teria seguido com isso muitos anos se um fato não o fizesse questionar o sentido daquilo tudo. Certo dia, teve o impulso de ligar para ela, a pessoa que mais amor lhe havia dado e que, sem motivo aparente, ele resolvera afastar. Ao ouvir a voz dela, estremeceu. Quando começou a falar, no entanto, deparou-se com um seco comentário: “as coisas não voltam atrás”.
Nesse momento, começou a chorar. Por conta de seus medos e de suas incertezas, havia desprezado aquela que lhe oferecera a verdadeira felicidade, e agora só lhe restava alimentar-se das relações vazias e falsas que faziam parte da sua vida desde então.
Ao desligar o telefone, teve vontade de morrer, de sumir do mundo. Foi então que percebeu que se deu conta de que tinha como faze-lo, pois isso já havia sido realizado há muito tempo, na manhã daquela longínqua terça-feira, quando decidiu viver só para si.
Aprendeu tarde demais o quanto precisava daqueles que considerava inferiores.
Era uma manhã de terça-feira quando tomou uma decisão que mudaria radicalmente sua vida: “a partir de hoje, serei uma pessoa mais egoísta”. Contou a todos, espalhou a notícia radiante, vendo naquele ato a chance de resolver todos os seus problemas.
A princípio, não houve uma pessoa que não se chocasse. Logo ele, que sempre fôra o ombro amigo, o cara com quem se podia contar a qualquer momento, iria abandonar esse comportamento e passar a pensar apenas em si mesmo? Que absurdo!
Mas ele estava de fato decidido. Para começar, decidiu acabar com todas as relações que considerava mantidas apenas por conveniência. Deixou claro que não era um amigo, que determinadas pessoas não poderiam mais contar com ele. Indicou que queria tê-los apenas como colegas, meros conhecidos a quem se cumprimenta de forma ocasional.
Com outros, foi ainda mais além. Pediu solenemente que sumissem de sua vida, pois não faziam a menor diferença. “Chega de me relacionar com pessoas inexpressivas, que não têm nada a me acrescentar”. Acreditava mesmo nisso, e fez por onde esquecer rápido aqueles que se enquadravam nessa categoria.
A melhor mudança, porém, foi com aqueles que um dia tinham sido egoístas com ele. Passou a usar de um meio bem eficiente para se atingir alguém: tornou-se um cara falso, capaz de fingir grande empatia por quem mais odiava. Divertia-se muito dando conselhos inúteis e aparentando preocupação com os problemas alheios.
Seguiu agindo assim por um bom tempo, sem se sentir incomodado. Na verdade, vivia feliz dessa maneira, desprezando o mundo. Por mais que tivesse perdido uma ou outra pessoa importante nessa transformação, tinha se livrado de vários estorvos, o que já era motivo para uma sensação de conquista.
Teria seguido com isso muitos anos se um fato não o fizesse questionar o sentido daquilo tudo. Certo dia, teve o impulso de ligar para ela, a pessoa que mais amor lhe havia dado e que, sem motivo aparente, ele resolvera afastar. Ao ouvir a voz dela, estremeceu. Quando começou a falar, no entanto, deparou-se com um seco comentário: “as coisas não voltam atrás”.
Nesse momento, começou a chorar. Por conta de seus medos e de suas incertezas, havia desprezado aquela que lhe oferecera a verdadeira felicidade, e agora só lhe restava alimentar-se das relações vazias e falsas que faziam parte da sua vida desde então.
Ao desligar o telefone, teve vontade de morrer, de sumir do mundo. Foi então que percebeu que se deu conta de que tinha como faze-lo, pois isso já havia sido realizado há muito tempo, na manhã daquela longínqua terça-feira, quando decidiu viver só para si.
Aprendeu tarde demais o quanto precisava daqueles que considerava inferiores.
quarta-feira, novembro 07, 2001
Depois do Amanhecer
Não devia ser mais do que nove da noite quando o som de um disparo rompeu a madrugada naquele bairro tão quieto. Algumas pessoas, assustadas, corriam às ruas para ver o que havia acontecido. Outras, mais precavidas, preferiam manter-se na segurança de suas casas, apenas abrindo as janelas para se certificarem do ocorrido.
A praça, iluminada pela lua cheia que dava àquela noite um teor macabro, era agora o cenário de um crime aterrorizante. Lá, jogado ao chão, o corpo de uma adolescente de uns quinze anos, nu e ensanguentado, demonstrava com vigor os impulsos de crueldade que um ser humano pode ter. Ao seu lado, atônito, um rapaz de cerca de dezessete anos empunhava uma bela pistola prateada, da qual se podia sentir à distância o calor de um disparo recente.
Um grito desesperado quebrou o tom monocromático daquela cena. A mãe da jovem, aos prantos, correu em direção ao cadáver, talvez pensando ser possível fazer algo ainda. Foi inútil. Ao chegar ao centro daquela praça, constatou que a vida de sua filha havia sido de fato tirada por um imbecil qualquer, um desequilibrado, um rapaz que não aparentava ter a menor noção do valor de uma vida.
Os moradores começaram a se aproximar lentamente, temendo um novo disparo. Enquanto isso, o jovem permanecia quieto, como se não estivesse presente àquela cena. Seu rosto, pálido, não deixava transparecer qualquer tipo de sentimento, fosse de raiva, angústia ou arrependimento. Apenas permanecia ali, imóvel, enquanto a mãe da moça desesperava-se ao abraçar o corpo embanhado em sangue. A face da menina dava uma falsa impressão de alívio, enquanto o buraco da bala que atravessou o pescoço jorrava ainda o restante de sangue que cismava em permanecer correndo por suas veias.
Ao perceber a quietude do rapaz, alguns homens do bairro aproximaram-se dele. Com raiva, jogaram-lhe ao chão e passaram a deferir chutes fortes por todo o seu corpo. Nem assim obtiveram qualquer espécie de reação. Era assustadora sua frieza: a quem acompanhava cena, era possível acreditar que ele fosse o morto, não a pobre moça. Abriu levemente a boca, como se fosse dizer algo. Antes que o fizesse, um soco lhe foi dado com firmeza. Desacordado, foi carregado até uma árvore próxima.
Ali teve suas roupas arrancadas e seu corpo amarrado. Dois homens aproximaram-se e, de forma cuidadosa, despejaram álcool da cabeça aos pés do rapaz. Em seguida, atearam fogo. O espetáculo arrancou aplausos de todos na praça, à exceção da pobre mãe que ainda chorava copiosamente ao lado do corpo da pobre moça. Ninguém mais se preocupava em consolá-la; a cena do rapaz sendo queimado vivo parecia muito mais interessante do que o outro crime brutal que havia sido cometido naquela noite.
A madrugada passou em festa, com a morbidez de tudo aquilo sendo celebrada como parte natural da vida humana. A jovem permanecia caída ao chão da praça, com o rosto exprimindo uma expressão de alívio, como se alguém tivesse feito um favor ao tirá-la a vida. Do rapaz, sobrara apenas uma estrutura disforme, irreconhecível, muito longe de lembrar qualquer forma humana.
Na manhã seguinte, os corpos foram levados dali. Enquanto isso, a população fechava suas portas e janelas e voltava a seu cotidiano puro e medíocre, seu mundo de paz que cismava em se modificar em acontecimentos esporádicos como o da noite anterior. O sol voltava a iluminar a praça, e toda a violência presenciada a poucas horas em breve seria apenas uma lembrança distante, uma marca feita a carvão que seria levada pela chuva com a mesma facilidade com que foi trazida.
Era apenas mais um dia naquele bairro tão quieto.
Não devia ser mais do que nove da noite quando o som de um disparo rompeu a madrugada naquele bairro tão quieto. Algumas pessoas, assustadas, corriam às ruas para ver o que havia acontecido. Outras, mais precavidas, preferiam manter-se na segurança de suas casas, apenas abrindo as janelas para se certificarem do ocorrido.
A praça, iluminada pela lua cheia que dava àquela noite um teor macabro, era agora o cenário de um crime aterrorizante. Lá, jogado ao chão, o corpo de uma adolescente de uns quinze anos, nu e ensanguentado, demonstrava com vigor os impulsos de crueldade que um ser humano pode ter. Ao seu lado, atônito, um rapaz de cerca de dezessete anos empunhava uma bela pistola prateada, da qual se podia sentir à distância o calor de um disparo recente.
Um grito desesperado quebrou o tom monocromático daquela cena. A mãe da jovem, aos prantos, correu em direção ao cadáver, talvez pensando ser possível fazer algo ainda. Foi inútil. Ao chegar ao centro daquela praça, constatou que a vida de sua filha havia sido de fato tirada por um imbecil qualquer, um desequilibrado, um rapaz que não aparentava ter a menor noção do valor de uma vida.
Os moradores começaram a se aproximar lentamente, temendo um novo disparo. Enquanto isso, o jovem permanecia quieto, como se não estivesse presente àquela cena. Seu rosto, pálido, não deixava transparecer qualquer tipo de sentimento, fosse de raiva, angústia ou arrependimento. Apenas permanecia ali, imóvel, enquanto a mãe da moça desesperava-se ao abraçar o corpo embanhado em sangue. A face da menina dava uma falsa impressão de alívio, enquanto o buraco da bala que atravessou o pescoço jorrava ainda o restante de sangue que cismava em permanecer correndo por suas veias.
Ao perceber a quietude do rapaz, alguns homens do bairro aproximaram-se dele. Com raiva, jogaram-lhe ao chão e passaram a deferir chutes fortes por todo o seu corpo. Nem assim obtiveram qualquer espécie de reação. Era assustadora sua frieza: a quem acompanhava cena, era possível acreditar que ele fosse o morto, não a pobre moça. Abriu levemente a boca, como se fosse dizer algo. Antes que o fizesse, um soco lhe foi dado com firmeza. Desacordado, foi carregado até uma árvore próxima.
Ali teve suas roupas arrancadas e seu corpo amarrado. Dois homens aproximaram-se e, de forma cuidadosa, despejaram álcool da cabeça aos pés do rapaz. Em seguida, atearam fogo. O espetáculo arrancou aplausos de todos na praça, à exceção da pobre mãe que ainda chorava copiosamente ao lado do corpo da pobre moça. Ninguém mais se preocupava em consolá-la; a cena do rapaz sendo queimado vivo parecia muito mais interessante do que o outro crime brutal que havia sido cometido naquela noite.
A madrugada passou em festa, com a morbidez de tudo aquilo sendo celebrada como parte natural da vida humana. A jovem permanecia caída ao chão da praça, com o rosto exprimindo uma expressão de alívio, como se alguém tivesse feito um favor ao tirá-la a vida. Do rapaz, sobrara apenas uma estrutura disforme, irreconhecível, muito longe de lembrar qualquer forma humana.
Na manhã seguinte, os corpos foram levados dali. Enquanto isso, a população fechava suas portas e janelas e voltava a seu cotidiano puro e medíocre, seu mundo de paz que cismava em se modificar em acontecimentos esporádicos como o da noite anterior. O sol voltava a iluminar a praça, e toda a violência presenciada a poucas horas em breve seria apenas uma lembrança distante, uma marca feita a carvão que seria levada pela chuva com a mesma facilidade com que foi trazida.
Era apenas mais um dia naquele bairro tão quieto.
terça-feira, novembro 06, 2001
Drama de Morte
O grande número de pessoas concentradas em volta do corpo atestava o gosto pelo mórbido que o ser humano tem. Em uma tarde de terça-feira, não menos do que 30 pessoas estavam ali, paradas naquela rua do Leblon, observando o cadáver de um jovem de aproximadamente vinte e três anos. O porteiro, desesperado, tentava afastar a todos, enquanto esperava a chegada da perícia. O rapaz era morador do prédio em frente. Décimo primeiro andar. Estava sozinho em seu apartamento. Tudo indicava que havia sido suicídio.
A chegada dos especialistas do IML e uma revista ao corpo confirmaram as suspeitas, logo que foi achada uma carta no bolso do terno que usava. Esse fato, por sinal, era bastante curioso. Por que usar um terno para se matar? Para se morrer com elegância? Ninguém conseguia entender.
De qualquer forma, todos que estavam em volta, ao verem o papel, começaram a pedir afoitamente a leitura do mesmo em voz alta por um dos encarregados de remover o corpo. Quem sabe ali não teria os motivos que o levaram ao suicídio? O rapaz agora parecia fazer parte da vida dos que ali se encontravam desde o ocorrido, e não houve quem saísse dali até que a carta fosse lida.
Alguns olhos marejaram, alguns ouvidos mostraram-se atentos, alguns corpos tremeram assim que suas últimas palavras começaram a ser lidas para aquela platéia.
"Hoje pensei em me matar. Na verdade, venho pensando nisso constantemente, desde que tudo aconteceu. Uma, duas, três vezes por dia. Até já me preparei para fazê-lo, mas sempre desisto na última hora, tomado por uma esperança súbita e idiota de que tudo vai melhorar.
Penso que não devo desistir, mas penso isso sem firmeza. Sei que mais cedo ou mais tarde vou me dar por vencido. Será que ainda vai demorar muito? Não aguento mais essa espera. Esse sofrimento podia acabar logo, na boa. Simples, rápido. O que me falta para fazer? Coragem? Nada pode me fazer mais mal do que já venho me fazendo até aqui.
Viver com dor não é viver. Quero ser alegre, mas como? Tudo parece tão difícil. A cada dia me sinto mais sozinho, mais perdido. Com quem achava que poderia contar descobri que era uma ilusão.
Cansei de falsas promessas, de falsos carinhos. Dessa hipocrisia de fingir que gostam de mim eu não preciso, muito menos desse sentimento de pena que vocês que estão lendo essa carta estão tendo agora. É ridícula essa falsa preocupação. Que se foda o mundo! Eu não preciso de ninguém querendo tentar gostar de mim.
Por que as pessoas fingem? Por que tentam evitar que eu faça algo comigo se elas nem se importam de fato? Ninguém sabe o que eu tô sofrendo, e nem quero que saibam. Minha vida é só minha, eu faço o que quiser dela. Cansei de intromissões, de tentativas ridículas de compaixão. Esqueçam que eu existo. Esqueçam que eu existi, porra! A vida é assim, não é? Todo mundo chega ao fim um dia. Por que não posso escolher o meu?
Isso é como no cinema, vocês não entendem? Lá a gente escolhe o destino do personagem logo que se começa a escrever a história. É mais simples assim. Por que não posso ter o direito de fazer isso com a minha vida? É mais simples assim.
Pensar demais faz mal. É, cansei de ouvir isso dos outros. Então agora não quero nem pensar, só acabar logo com isso. Sem medo, sem culpa. Eu criei meu mundo assim, agora acabo com ele também. É minha decisão, é minha vida, e não quero mais me fazer esse mal.
Desejo que o mundo siga em frente, com toda sua mediocridade, mas sem mim. Só espero que as pessaos sejam muito felizes. Felizes como nunca fui."
Quando as últimas palavras acabaram de ser lidas, o corpo já havia sido retirado do chão. Aqueles que presenciaram o ato final de um personagem anônimo foram-se com a certeza de que o suicídio não era uma boa saída para se resolver os problemas. Mas, com toda certeza, era perfeito para tornar a morte um drama muito maior do que deveria realmente ser.
O grande número de pessoas concentradas em volta do corpo atestava o gosto pelo mórbido que o ser humano tem. Em uma tarde de terça-feira, não menos do que 30 pessoas estavam ali, paradas naquela rua do Leblon, observando o cadáver de um jovem de aproximadamente vinte e três anos. O porteiro, desesperado, tentava afastar a todos, enquanto esperava a chegada da perícia. O rapaz era morador do prédio em frente. Décimo primeiro andar. Estava sozinho em seu apartamento. Tudo indicava que havia sido suicídio.
A chegada dos especialistas do IML e uma revista ao corpo confirmaram as suspeitas, logo que foi achada uma carta no bolso do terno que usava. Esse fato, por sinal, era bastante curioso. Por que usar um terno para se matar? Para se morrer com elegância? Ninguém conseguia entender.
De qualquer forma, todos que estavam em volta, ao verem o papel, começaram a pedir afoitamente a leitura do mesmo em voz alta por um dos encarregados de remover o corpo. Quem sabe ali não teria os motivos que o levaram ao suicídio? O rapaz agora parecia fazer parte da vida dos que ali se encontravam desde o ocorrido, e não houve quem saísse dali até que a carta fosse lida.
Alguns olhos marejaram, alguns ouvidos mostraram-se atentos, alguns corpos tremeram assim que suas últimas palavras começaram a ser lidas para aquela platéia.
"Hoje pensei em me matar. Na verdade, venho pensando nisso constantemente, desde que tudo aconteceu. Uma, duas, três vezes por dia. Até já me preparei para fazê-lo, mas sempre desisto na última hora, tomado por uma esperança súbita e idiota de que tudo vai melhorar.
Penso que não devo desistir, mas penso isso sem firmeza. Sei que mais cedo ou mais tarde vou me dar por vencido. Será que ainda vai demorar muito? Não aguento mais essa espera. Esse sofrimento podia acabar logo, na boa. Simples, rápido. O que me falta para fazer? Coragem? Nada pode me fazer mais mal do que já venho me fazendo até aqui.
Viver com dor não é viver. Quero ser alegre, mas como? Tudo parece tão difícil. A cada dia me sinto mais sozinho, mais perdido. Com quem achava que poderia contar descobri que era uma ilusão.
Cansei de falsas promessas, de falsos carinhos. Dessa hipocrisia de fingir que gostam de mim eu não preciso, muito menos desse sentimento de pena que vocês que estão lendo essa carta estão tendo agora. É ridícula essa falsa preocupação. Que se foda o mundo! Eu não preciso de ninguém querendo tentar gostar de mim.
Por que as pessoas fingem? Por que tentam evitar que eu faça algo comigo se elas nem se importam de fato? Ninguém sabe o que eu tô sofrendo, e nem quero que saibam. Minha vida é só minha, eu faço o que quiser dela. Cansei de intromissões, de tentativas ridículas de compaixão. Esqueçam que eu existo. Esqueçam que eu existi, porra! A vida é assim, não é? Todo mundo chega ao fim um dia. Por que não posso escolher o meu?
Isso é como no cinema, vocês não entendem? Lá a gente escolhe o destino do personagem logo que se começa a escrever a história. É mais simples assim. Por que não posso ter o direito de fazer isso com a minha vida? É mais simples assim.
Pensar demais faz mal. É, cansei de ouvir isso dos outros. Então agora não quero nem pensar, só acabar logo com isso. Sem medo, sem culpa. Eu criei meu mundo assim, agora acabo com ele também. É minha decisão, é minha vida, e não quero mais me fazer esse mal.
Desejo que o mundo siga em frente, com toda sua mediocridade, mas sem mim. Só espero que as pessaos sejam muito felizes. Felizes como nunca fui."
Quando as últimas palavras acabaram de ser lidas, o corpo já havia sido retirado do chão. Aqueles que presenciaram o ato final de um personagem anônimo foram-se com a certeza de que o suicídio não era uma boa saída para se resolver os problemas. Mas, com toda certeza, era perfeito para tornar a morte um drama muito maior do que deveria realmente ser.
segunda-feira, novembro 05, 2001
domingo, novembro 04, 2001
Outubro
Pediu mais uma taça de vinho ao garçom e se calou novamente. Devia ser a sétima ou a oitava, não sabia mais. À sua volta, por todo o restaurante, pessoas comiam e bebiam freneticamente. Falavam alto. Estavam felizes e em grupos. Enquanto isso, ele estava ali. Numa mesa de canto, sozinho, calado. A pouca luz do ambiente fazia com que ninguém o notasse. Talvez por isso tenha chorado.
A cadeira vazia à sua frente parecia representar muito mais do que ele próprio imaginava. Era o retrato fiel do que havia feito com sua vida em pouco menos de um ano; mais precisamente, era a representação de seu maior medo, daquilo que o perseguia desde a infância: a inevitabilidade de, com o tempo, ficar sozinho de vez.
Assim que o garçom chegou com a nova taça, voltou a manter o controle. Enxugou os olhos com as costas da mão e agradeceu a eficiência do serviço. Em segundos, levou o recipiente até a boca e sorveu todo o líquido. Queria embriagar-se para ver se diminuia toda a angústia que sentia naquele momento. Entretanto, à medida que bebia, sentia sua dor crescer mais.
O quarteto de jazz já tocava há uma ou duas horas, mas só agora o havia notado. A música que preenchia o ambiente agora lhe trazia recordações em péssima hora. "My Funny Valentine". Escutara pela primeira vez ainda jovem, interpretada por Ella Fitzgerald ou Chet Baker, não sabia ao certo. Mas sempre fora a sua preferida, e marcara, mesmo que ela não soubesse, toda a sua história com a única pessoa que havia amado de fato. Sem ela ali, toda aquela cena não fazia sentido.
Não suportando aquela situação, pediu a conta. Antes, porém, foi ao banheiro. Lavou o rosto, ajeitou a gravata e tomou uma decisão. Não poderia se dar por vencido sem ao menos tentar uma última vez. Deu o dinheiro ao garçom e saiu do restaurante. Caminhando pela rua, avistou o prédio onde ela mora. Apesar de já serem mais de duas da manhã, viu que a luz da sala ainda estava acesa. Sem que desse tempo para questionar seus próprios atos, encaminhou-se até a portaria e pediu ao vigia que a chamasse.
A previsível recusa dela em recebê-lo foi imediata. Ele não se alterou. Calmamente, agradeceu ao empregado e se retirou dali. Enquanto caminhava para casa, trôpego, confuso, repensava toda a história, buscando o que havia feito de errado para que tudo terminasse assim. Uma vez mais, não conseguiu chegar a conclusão alguma.
Olhou para o céu e avistou a bela lua que iluminava tão triste noite. Lembrou-se da promessa que ela um dia lhe fizera, de que ele não haveria de ser triste enquanto ela estivesse viva, e esboçou um sorriso irônico. Como as coisas poderiam ter mudado tanto? Mais do que nunca, sabia que tinha posto tudo a perder.
Foi assim que, na melancolia de uma madrugada qualquer de Outubro, teve a certeza de que não nascera para ser feliz. Desde então, viveu sua vida esperando a morte chegar, desejando ao mundo que não padecesse do mesmo mal que ele: ter amor por alguém e não saber o que fazer com isso.
"Tornar o amor real é expulsá-lo de você
Pra que ele possa ser de alguém"
Nando Reis, "Quem Vai Dizer Tchau?"
Pediu mais uma taça de vinho ao garçom e se calou novamente. Devia ser a sétima ou a oitava, não sabia mais. À sua volta, por todo o restaurante, pessoas comiam e bebiam freneticamente. Falavam alto. Estavam felizes e em grupos. Enquanto isso, ele estava ali. Numa mesa de canto, sozinho, calado. A pouca luz do ambiente fazia com que ninguém o notasse. Talvez por isso tenha chorado.
A cadeira vazia à sua frente parecia representar muito mais do que ele próprio imaginava. Era o retrato fiel do que havia feito com sua vida em pouco menos de um ano; mais precisamente, era a representação de seu maior medo, daquilo que o perseguia desde a infância: a inevitabilidade de, com o tempo, ficar sozinho de vez.
Assim que o garçom chegou com a nova taça, voltou a manter o controle. Enxugou os olhos com as costas da mão e agradeceu a eficiência do serviço. Em segundos, levou o recipiente até a boca e sorveu todo o líquido. Queria embriagar-se para ver se diminuia toda a angústia que sentia naquele momento. Entretanto, à medida que bebia, sentia sua dor crescer mais.
O quarteto de jazz já tocava há uma ou duas horas, mas só agora o havia notado. A música que preenchia o ambiente agora lhe trazia recordações em péssima hora. "My Funny Valentine". Escutara pela primeira vez ainda jovem, interpretada por Ella Fitzgerald ou Chet Baker, não sabia ao certo. Mas sempre fora a sua preferida, e marcara, mesmo que ela não soubesse, toda a sua história com a única pessoa que havia amado de fato. Sem ela ali, toda aquela cena não fazia sentido.
Não suportando aquela situação, pediu a conta. Antes, porém, foi ao banheiro. Lavou o rosto, ajeitou a gravata e tomou uma decisão. Não poderia se dar por vencido sem ao menos tentar uma última vez. Deu o dinheiro ao garçom e saiu do restaurante. Caminhando pela rua, avistou o prédio onde ela mora. Apesar de já serem mais de duas da manhã, viu que a luz da sala ainda estava acesa. Sem que desse tempo para questionar seus próprios atos, encaminhou-se até a portaria e pediu ao vigia que a chamasse.
A previsível recusa dela em recebê-lo foi imediata. Ele não se alterou. Calmamente, agradeceu ao empregado e se retirou dali. Enquanto caminhava para casa, trôpego, confuso, repensava toda a história, buscando o que havia feito de errado para que tudo terminasse assim. Uma vez mais, não conseguiu chegar a conclusão alguma.
Olhou para o céu e avistou a bela lua que iluminava tão triste noite. Lembrou-se da promessa que ela um dia lhe fizera, de que ele não haveria de ser triste enquanto ela estivesse viva, e esboçou um sorriso irônico. Como as coisas poderiam ter mudado tanto? Mais do que nunca, sabia que tinha posto tudo a perder.
Foi assim que, na melancolia de uma madrugada qualquer de Outubro, teve a certeza de que não nascera para ser feliz. Desde então, viveu sua vida esperando a morte chegar, desejando ao mundo que não padecesse do mesmo mal que ele: ter amor por alguém e não saber o que fazer com isso.
"Tornar o amor real é expulsá-lo de você
Pra que ele possa ser de alguém"
Nando Reis, "Quem Vai Dizer Tchau?"
quinta-feira, outubro 04, 2001
Caros leitores,
Sei que ando em falta com vocês, pois raramente tenho publicado algo inédito aqui. Não é por falta de vontade, acreditem. Já iniciei pelo menos 6 contos desde que migrei para esse novo endereço, mas não consigo finalizar nenhum. Estou passando por uma fase estranha, uma espécie de "ócio criativo" que nem eu mesmo sei o porquê da ocorrência. Na verdade, alguns motivos até vieram à mente, tais como a ausência de um contador de visitas no blog e o período de provas da faculdade, entretanto, nenhum deles me pareceu uma justificativa real. Por conta disso, venho comunicar que o "Rumo Ao Nada" estará funcionando precariamente a partir de hoje, sem garantia de publicações diárias. Acho que é a atitude mais justa que posso tomar para não frustrar os 5 ou 6 leitores que vêm me acompanhando nessa difícil empreitada desde o início. E, infelizmente, sou obrigado a admitir que, se as coisas não se modificarem, é provável até que eu desative esse blog em definitivo. Vamos ver se com o tempo tudo melhora. Até lá, agradeço a compreensão de todos vocês e torço para que dias melhores venham e me ajudem a manter esse espaço aqui.
Um grande abraço a todos,
Marcelo Caldas
Sei que ando em falta com vocês, pois raramente tenho publicado algo inédito aqui. Não é por falta de vontade, acreditem. Já iniciei pelo menos 6 contos desde que migrei para esse novo endereço, mas não consigo finalizar nenhum. Estou passando por uma fase estranha, uma espécie de "ócio criativo" que nem eu mesmo sei o porquê da ocorrência. Na verdade, alguns motivos até vieram à mente, tais como a ausência de um contador de visitas no blog e o período de provas da faculdade, entretanto, nenhum deles me pareceu uma justificativa real. Por conta disso, venho comunicar que o "Rumo Ao Nada" estará funcionando precariamente a partir de hoje, sem garantia de publicações diárias. Acho que é a atitude mais justa que posso tomar para não frustrar os 5 ou 6 leitores que vêm me acompanhando nessa difícil empreitada desde o início. E, infelizmente, sou obrigado a admitir que, se as coisas não se modificarem, é provável até que eu desative esse blog em definitivo. Vamos ver se com o tempo tudo melhora. Até lá, agradeço a compreensão de todos vocês e torço para que dias melhores venham e me ajudem a manter esse espaço aqui.
Um grande abraço a todos,
Marcelo Caldas
segunda-feira, outubro 01, 2001
Resoluções Para o Novo Ano
Faltavam ainda 3 dias para a chegada do reveillon. No entanto, para Márcia a contagem regressiva havia começado há quase uma semana, mais precisamente na véspera de Natal.
Foi nessa data que, não sendo mais do que 10 horas da manhã, ela resolveu dar uma volta "para arejar os pensamentos". A rotina de sua casa havia se tornado desgastante desde que seus pais decidiram se separar, e isso não tinha um mês de ocorrido. De qualquer forma, já não aguentava mais conviver com aquilo, por isso a caminhada tão cedo parecia uma ótima alternativa.
O clima frio e o céu nublado davam o tom de melancolia ideal para um passeio como aquele. Andava a passos lentos, porém firmes, numa dualidade interessante. A cabeça parecia ter o peso de todo o universo, dando-lhe um grau de fadiga maior do que o normal. O restante do corpo, contudo, parecia se sublimar.
Poucos metros ela havia caminhado quando avistou uma aglomeração próxima ao sinal. Pensando ser um acidente com alguém conhecido, apressou-se em ir verificar o que lá acontecia. Ao chegar mais perto, causou-lhe uma enorme surpresa avistar um jovem de mais ou menos 22 anos fazendo alguns truques com malabares. Aquilo prendeu sua atenção de tal forma que passou a reparar na delicadeza com que o rapaz executava os movimentos.
Daniel, por sua vez, fitava os olhos azuis de Márcia maravilhado. Jamais tivera visão de tão singular beleza, e sentia-se hipnotizado pela moça. A atenção foi desviada de tal forma que ele deixou os bastões caírem ao chão. Os aplausos transformaram-se em um silêncio perturbador. Os parcos segundos imóvel diante daquela meia centena de gente lhe pareceram horas.
Em um gesto impensado, Márcia rompeu rompeu a barreira humana que se precipitava à sua frente e pegou os bastões. A Daniel entregou-os delicadamente, e aquele momento lhe pareceu tão íntimo que ignorou todos que os observavam e beijou com suavidade sua face. Ele apenas balbuciou um "muito obrigado" e seguiu com suas acrobacias, enquanto avistava a jovem sair do meio da roda e seguir seu caminho.
O que tinha acabado de acontecer comovera aqueles que, pasmados, viram a cena. Daniel nada ouvia, mas os lábios à sua volta pareciam lhe dizer para ir atrás daquela moça de quem sequer sabia o nome. Abruptamente, recolheu seus artefatos e colocou-se a correr, procurando-a. Márcia, porém, já havia sumido na paisagem.
Enquanto andava apressadamente para casa, lágrimas rolavam dos olhos de Márcia. Não entendia bem o porquê, mas aquilo lhe tocara de tal forma que preferiu fugir. Sentia-se despreparada para lidar com algo tão forte, tinha medo de encarar emoções até então desconhecidas.
Trancou-se no quarto logo que chegou em casa. Fechou as cortinas e deixou o corpo cair sobre a cama. Apesar da tarde mal ter se iniciado, adormeceu rapidamente.
Na manhã do dia seguinte, enquanto tomava o seu café, ela ouviu a campanhia tocar. Com todos na casa ainda dormindo, resolveu atender. Ao abrir a porta, não avistou ninguém, só um envelope sobre o tapete de "boas vindas" no qual se lia, em letras cuidadosamente desenhadas, "aos mais belos olhos que já encontrei".
Márcia leu toda a carta em poucos minutos. Em seguida, correu para o quarto, trocou de roupa e saiu à procura daquele que tinha revirado seus sentimentos. Chovia forte, mas isso não iria impedir que consertasse o erro da omissão no dia anterior.
Ao chegar à esquina, seus olhos marejaram. No mesmo lugar de antes, avistou Daniel fazendo seus malabarismos. Dessa vez, todavia, não havia ninguém à sua volta. Caminhou a passos lentos, porém firmes, na direção dele. Os olhares cruzaram-se novamente.
Daniel deixou os bastões caírem. Márcia fez menção de pegá-los, porém os atirou para o lado. Ambos respiravam forte, arfantes. Sem deixar que balbuciasse qualquer coisa, ela o beijou com enorme ternura, em uma cena digna dos grandes romances literários.
Com a chuva ainda caindo sobre os dois novos amantes, uma meia centena de pessoas cercou-os lentamente. Em meio a aplausos e gritos, saudaram a realização de tão forte amor.
O novo ano que em breve iria se iniciar prometia ser dos melhores.
Faltavam ainda 3 dias para a chegada do reveillon. No entanto, para Márcia a contagem regressiva havia começado há quase uma semana, mais precisamente na véspera de Natal.
Foi nessa data que, não sendo mais do que 10 horas da manhã, ela resolveu dar uma volta "para arejar os pensamentos". A rotina de sua casa havia se tornado desgastante desde que seus pais decidiram se separar, e isso não tinha um mês de ocorrido. De qualquer forma, já não aguentava mais conviver com aquilo, por isso a caminhada tão cedo parecia uma ótima alternativa.
O clima frio e o céu nublado davam o tom de melancolia ideal para um passeio como aquele. Andava a passos lentos, porém firmes, numa dualidade interessante. A cabeça parecia ter o peso de todo o universo, dando-lhe um grau de fadiga maior do que o normal. O restante do corpo, contudo, parecia se sublimar.
Poucos metros ela havia caminhado quando avistou uma aglomeração próxima ao sinal. Pensando ser um acidente com alguém conhecido, apressou-se em ir verificar o que lá acontecia. Ao chegar mais perto, causou-lhe uma enorme surpresa avistar um jovem de mais ou menos 22 anos fazendo alguns truques com malabares. Aquilo prendeu sua atenção de tal forma que passou a reparar na delicadeza com que o rapaz executava os movimentos.
Daniel, por sua vez, fitava os olhos azuis de Márcia maravilhado. Jamais tivera visão de tão singular beleza, e sentia-se hipnotizado pela moça. A atenção foi desviada de tal forma que ele deixou os bastões caírem ao chão. Os aplausos transformaram-se em um silêncio perturbador. Os parcos segundos imóvel diante daquela meia centena de gente lhe pareceram horas.
Em um gesto impensado, Márcia rompeu rompeu a barreira humana que se precipitava à sua frente e pegou os bastões. A Daniel entregou-os delicadamente, e aquele momento lhe pareceu tão íntimo que ignorou todos que os observavam e beijou com suavidade sua face. Ele apenas balbuciou um "muito obrigado" e seguiu com suas acrobacias, enquanto avistava a jovem sair do meio da roda e seguir seu caminho.
O que tinha acabado de acontecer comovera aqueles que, pasmados, viram a cena. Daniel nada ouvia, mas os lábios à sua volta pareciam lhe dizer para ir atrás daquela moça de quem sequer sabia o nome. Abruptamente, recolheu seus artefatos e colocou-se a correr, procurando-a. Márcia, porém, já havia sumido na paisagem.
Enquanto andava apressadamente para casa, lágrimas rolavam dos olhos de Márcia. Não entendia bem o porquê, mas aquilo lhe tocara de tal forma que preferiu fugir. Sentia-se despreparada para lidar com algo tão forte, tinha medo de encarar emoções até então desconhecidas.
Trancou-se no quarto logo que chegou em casa. Fechou as cortinas e deixou o corpo cair sobre a cama. Apesar da tarde mal ter se iniciado, adormeceu rapidamente.
Na manhã do dia seguinte, enquanto tomava o seu café, ela ouviu a campanhia tocar. Com todos na casa ainda dormindo, resolveu atender. Ao abrir a porta, não avistou ninguém, só um envelope sobre o tapete de "boas vindas" no qual se lia, em letras cuidadosamente desenhadas, "aos mais belos olhos que já encontrei".
Márcia leu toda a carta em poucos minutos. Em seguida, correu para o quarto, trocou de roupa e saiu à procura daquele que tinha revirado seus sentimentos. Chovia forte, mas isso não iria impedir que consertasse o erro da omissão no dia anterior.
Ao chegar à esquina, seus olhos marejaram. No mesmo lugar de antes, avistou Daniel fazendo seus malabarismos. Dessa vez, todavia, não havia ninguém à sua volta. Caminhou a passos lentos, porém firmes, na direção dele. Os olhares cruzaram-se novamente.
Daniel deixou os bastões caírem. Márcia fez menção de pegá-los, porém os atirou para o lado. Ambos respiravam forte, arfantes. Sem deixar que balbuciasse qualquer coisa, ela o beijou com enorme ternura, em uma cena digna dos grandes romances literários.
Com a chuva ainda caindo sobre os dois novos amantes, uma meia centena de pessoas cercou-os lentamente. Em meio a aplausos e gritos, saudaram a realização de tão forte amor.
O novo ano que em breve iria se iniciar prometia ser dos melhores.
domingo, setembro 30, 2001
O Maior Espetáculo da Terra
Dez. Vinte. Trinta minutos, talvez. Na verdade, nenhum dos que estavam ali presentes poderiam precisar há quanto tempo aquele corpo estava jogado no asfalto quente. A face, desfigurada, deixava claro que o impacto havia sido muito forte. "Ela morreu na hora", diziam alguns. "Será que ela chegou a sentir dor?", perguntavam outros. Enquanto isso, o cadáver permanecia ali, largado ao chão, desfazendo-se do pouco sangue que ainda insistia em correr nas veias da pobre moça.
Não devia ser mais do que meio-dia quando ela saiu de casa. Sabia que ia ter um dia atarefado, e estava atrasada. "Tenho que parar com essa vida vagabunda", repetia para si mesma enquanto descia no elevador. Os cabelos ainda estavam molhadas e tentava, desajeitadamente, passar batom nos lábios ao mesmo tempo que, já na rua, apressava o passo para chegar ao ponto de ônibus.
A pressa de nada adiantou, porém. Amargou uma longa espera até que passasse um ônibus que servisse. Quando chegou, a multidão que se aglomerava lá dentro quase a fez desistir, mas o fator tempo foi determinante para que continuasse. O trajeto comum demoraria pelo menos uma hora, não poderia mais esperar.
Poucos quilômetros tinham sido percorridos quando uma freada brusca surpreendeu a todos os passageiros. Em meio a cabeças que se precipitavam à sua frente, conseguiu enxergar, com certa dificuldade, o que ocorria. Diante do ônibus, duas viaturas fechavam a rua, impossibilitando qualquer passagem. Tentou, em vão, passar por entre as pessoas para sair da condução. Como única saída, resolveu saltar pela janela.
Ao fazer isso, contudo, não esperava que fosse ser interpretada de forma tão errada. Logo que alcançou o solo, avistou dois homens armados, apontando em sua direção. Em pânico e confusa, passou a correr sem rumo, ao mesmo tempo que ouvia três disparos e via o vidro do carro ao seu lado estilhaçando, o que não deixava dúvidas de quem era o verdadeiro alvo.
Entrou em uma rua transversal, esbarrando em todos que se encontravam no caminho, enquanto as vozes atrás dela iam se tornando mais intensas. Os passantes manifestavam-se, talvez surpresos com tão insólita cena, mas ela era incapaz de perceber quaisquer reações à sua volta.
Foi capaz de notar, no entanto, que estava agora diante de uma escolha difícil e que não poderia durar mais do que alguns segundos. Na frente, a poucos metros, uma avenida bastante movimentada. Logo atrás, dois homens que a perseguiam com armas em punho sem que ela mesma entendesse bem o porquê. Sua decisão foi puramente intuitiva e parecia a mais acertada no momento.
O som dos ossos se quebrando na frente do caminhão foi ouvido por todos que estavam na calçada naquele momento. Os dois policias sorriram com ar de escárnio e triunfo, virando as costas logo em seguida e caminhando lentamente na direção oposta.
Às treze horas e trinta e sete minutos daquele dia ensolarado de abril, uma pequena turma presenciou, atônita, a mais uma vida se perdendo de maneira insensata, digna dos filmes de grande bilheteria.
Quando o plástico preto cobriu o corpo em estado deplorável, as luzes se acenderam e a platéia foi para casa feliz por ter presenciado tão singular espetáculo da estupidez humana. O maior espetáculo da Terra.
Dez. Vinte. Trinta minutos, talvez. Na verdade, nenhum dos que estavam ali presentes poderiam precisar há quanto tempo aquele corpo estava jogado no asfalto quente. A face, desfigurada, deixava claro que o impacto havia sido muito forte. "Ela morreu na hora", diziam alguns. "Será que ela chegou a sentir dor?", perguntavam outros. Enquanto isso, o cadáver permanecia ali, largado ao chão, desfazendo-se do pouco sangue que ainda insistia em correr nas veias da pobre moça.
Não devia ser mais do que meio-dia quando ela saiu de casa. Sabia que ia ter um dia atarefado, e estava atrasada. "Tenho que parar com essa vida vagabunda", repetia para si mesma enquanto descia no elevador. Os cabelos ainda estavam molhadas e tentava, desajeitadamente, passar batom nos lábios ao mesmo tempo que, já na rua, apressava o passo para chegar ao ponto de ônibus.
A pressa de nada adiantou, porém. Amargou uma longa espera até que passasse um ônibus que servisse. Quando chegou, a multidão que se aglomerava lá dentro quase a fez desistir, mas o fator tempo foi determinante para que continuasse. O trajeto comum demoraria pelo menos uma hora, não poderia mais esperar.
Poucos quilômetros tinham sido percorridos quando uma freada brusca surpreendeu a todos os passageiros. Em meio a cabeças que se precipitavam à sua frente, conseguiu enxergar, com certa dificuldade, o que ocorria. Diante do ônibus, duas viaturas fechavam a rua, impossibilitando qualquer passagem. Tentou, em vão, passar por entre as pessoas para sair da condução. Como única saída, resolveu saltar pela janela.
Ao fazer isso, contudo, não esperava que fosse ser interpretada de forma tão errada. Logo que alcançou o solo, avistou dois homens armados, apontando em sua direção. Em pânico e confusa, passou a correr sem rumo, ao mesmo tempo que ouvia três disparos e via o vidro do carro ao seu lado estilhaçando, o que não deixava dúvidas de quem era o verdadeiro alvo.
Entrou em uma rua transversal, esbarrando em todos que se encontravam no caminho, enquanto as vozes atrás dela iam se tornando mais intensas. Os passantes manifestavam-se, talvez surpresos com tão insólita cena, mas ela era incapaz de perceber quaisquer reações à sua volta.
Foi capaz de notar, no entanto, que estava agora diante de uma escolha difícil e que não poderia durar mais do que alguns segundos. Na frente, a poucos metros, uma avenida bastante movimentada. Logo atrás, dois homens que a perseguiam com armas em punho sem que ela mesma entendesse bem o porquê. Sua decisão foi puramente intuitiva e parecia a mais acertada no momento.
O som dos ossos se quebrando na frente do caminhão foi ouvido por todos que estavam na calçada naquele momento. Os dois policias sorriram com ar de escárnio e triunfo, virando as costas logo em seguida e caminhando lentamente na direção oposta.
Às treze horas e trinta e sete minutos daquele dia ensolarado de abril, uma pequena turma presenciou, atônita, a mais uma vida se perdendo de maneira insensata, digna dos filmes de grande bilheteria.
Quando o plástico preto cobriu o corpo em estado deplorável, as luzes se acenderam e a platéia foi para casa feliz por ter presenciado tão singular espetáculo da estupidez humana. O maior espetáculo da Terra.
O texto de hoje é bem diferente de todos que os 5 ou 6 leitores desse blog já viram por aqui. Tive que escrevê-lo "sob encomenda" para um trabalho da faculdade, o que já não me agrada muito. O resultado, porém, pareceu-me tão legal que pensei valer a pena publicá-lo. Quer dizer... não foi bem assim. Só tomei coragem de fazer isso porque a pessoa que mais critica tudo o que escrevo disse que estava realmente muito bom. Pois é. Como um elogio da parte dela é raríssimo, aqui está o texto. Vamos ver se estava certa...
Musicando
Corre um boato de que uma nova droga vem sendo misturada a bebidas alcóolicas em festas do alto escalão brasileiro. O sintoma é um só, e bem característico: aquele que ingere o alucinógeno diluído em seu “drink” passa a falar compulsivamente e sem qualquer relação de verossimilhança. Em casos extremos, dizem que a pessoa fala apenas por frases musicais. Não deixa de ser engraçado. Já estou até imaginando a cena: todos os convidados reunidos no salão e, de repente, sobe na mesa o anfitrião e começa a discursar:
“Meus bons amigos onde estão? Provavelmente caminhando contra o vento, sem lenço e sem documento. O meu partido é um coração partido, e nessas horas percebo que nada do que foi será do jeito que já foi um dia, pois assim caminha a humanidade, com passos de formiga e sem vontade.
Vejam bem, isso não pode ser assim, tão ruim. Amigo é coisa pra se guardar debaixo de sete chaves e ah, quanto querer cabe em meu coração! Cada vez que eu fujo, eu me aproximo mais, e ainda vai levar um tempo pra fechar o que feriu por dentro. Apesar disso, é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã, porque o tempo não pára. É, eu sei que a espera é difícil, mas continuo sambando.
Claro que isso aqui tá muito bom, isso aqui tá bom demais. Aliás, quando eu estou aqui, eu vivo esse momento lindo. Mas agora o que vamos fazer? Eu também não sei. É, é bom aprender... a vida é cruel. Tá certo, viver é melhor que sonhar, e eu sei que o amor é uma coisa boa. Por isso que eu não quero dinheiro, eu só quero amar. Às vezes penso que isso tudo foi um rio que passou em minha vida e que já não há caminho pra voltar. Porém, ainda assim, não vou dizer que já lhes esqueci.
De fato, do Leme ao Pontal, não há nada igual. É por isso que eu fico com a pureza da resposta das crianças: é a vida, é bonita e é bonita.
Muito obrigado pela atenção de todos!”
Musicando
Corre um boato de que uma nova droga vem sendo misturada a bebidas alcóolicas em festas do alto escalão brasileiro. O sintoma é um só, e bem característico: aquele que ingere o alucinógeno diluído em seu “drink” passa a falar compulsivamente e sem qualquer relação de verossimilhança. Em casos extremos, dizem que a pessoa fala apenas por frases musicais. Não deixa de ser engraçado. Já estou até imaginando a cena: todos os convidados reunidos no salão e, de repente, sobe na mesa o anfitrião e começa a discursar:
“Meus bons amigos onde estão? Provavelmente caminhando contra o vento, sem lenço e sem documento. O meu partido é um coração partido, e nessas horas percebo que nada do que foi será do jeito que já foi um dia, pois assim caminha a humanidade, com passos de formiga e sem vontade.
Vejam bem, isso não pode ser assim, tão ruim. Amigo é coisa pra se guardar debaixo de sete chaves e ah, quanto querer cabe em meu coração! Cada vez que eu fujo, eu me aproximo mais, e ainda vai levar um tempo pra fechar o que feriu por dentro. Apesar disso, é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã, porque o tempo não pára. É, eu sei que a espera é difícil, mas continuo sambando.
Claro que isso aqui tá muito bom, isso aqui tá bom demais. Aliás, quando eu estou aqui, eu vivo esse momento lindo. Mas agora o que vamos fazer? Eu também não sei. É, é bom aprender... a vida é cruel. Tá certo, viver é melhor que sonhar, e eu sei que o amor é uma coisa boa. Por isso que eu não quero dinheiro, eu só quero amar. Às vezes penso que isso tudo foi um rio que passou em minha vida e que já não há caminho pra voltar. Porém, ainda assim, não vou dizer que já lhes esqueci.
De fato, do Leme ao Pontal, não há nada igual. É por isso que eu fico com a pureza da resposta das crianças: é a vida, é bonita e é bonita.
Muito obrigado pela atenção de todos!”
sábado, setembro 29, 2001
Em Você
Em certas noites, deito na minha cama e fico olhando o teto até tarde.
Nesse momento, penso em tudo que me acontece e vejo que o que eu mais desejo
É poder escolher melhor as palavras que digo
É poder esconder tudo aquilo que sinto
É poder mostrar que por você eu insisto
Mas aí percebo que minha bondade me impede de ser assim
E quando menos espero, desaprendo a gostar de mim.
Em certas noites, deito na minha cama e fico olhando o teto até tarde.
Nesse momento, penso em tudo que me acontece e vejo que o que eu mais desejo
É poder escolher melhor as palavras que digo
É poder esconder tudo aquilo que sinto
É poder mostrar que por você eu insisto
Mas aí percebo que minha bondade me impede de ser assim
E quando menos espero, desaprendo a gostar de mim.
sexta-feira, setembro 28, 2001
Verbos
De que adianta voar
Se Ícaro condenou a quem nos céus se aventurasse?
De que adianta andar
Se as pessoas caminham sem nenhuma dignidade?
De que adianta pensar
Se os cérebros pensam sem grande diversidade?
De que adianta falar
Se as bocas falam sem muita autoridade?
De que adianta ler
Se é proibido ler com pueril ingenuidade?
De que adianta escrever
Se não se pode escrever com certa liberdade?
De que adianta cantar
Se o mundo se cala ao ouvir o canto da novidade?
De que adianta amar
Se o coração não suporta as adversidades?
De que adianta viver
Se os verbos hoje já não mais expressam a realidade?
De que adianta voar
Se Ícaro condenou a quem nos céus se aventurasse?
De que adianta andar
Se as pessoas caminham sem nenhuma dignidade?
De que adianta pensar
Se os cérebros pensam sem grande diversidade?
De que adianta falar
Se as bocas falam sem muita autoridade?
De que adianta ler
Se é proibido ler com pueril ingenuidade?
De que adianta escrever
Se não se pode escrever com certa liberdade?
De que adianta cantar
Se o mundo se cala ao ouvir o canto da novidade?
De que adianta amar
Se o coração não suporta as adversidades?
De que adianta viver
Se os verbos hoje já não mais expressam a realidade?
quinta-feira, setembro 27, 2001
E Se...
E se um dia você acordasse e visse que o mundo não era como você imaginava?
Se descobrisse que o céu é vermelho, como se feito de fogo,
Que as nuvens são amarelas, como se pintadas a dedo,
E que os mares são negros, como se escurecidos pelo medo,
Será que mesmo assim você teria medo de viver?
Se percebesse que as pessoas ao seu redor são foscas,
Que os carros que passam nas ruas são lentos,
E que a palavra é a maior arma de todos os tempos,
Será que mesmo assim você teria medo de correr?
Se acreditasse que a vida não é mais do que um estágio,
Que os seus sentimentos não são feitos para serem desprezados
E que a dor da perda não é algo que ocupa pouco espaço,
Será que mesmo assim você teria medo de sofrer?
Se entendesse que a grama não é mais verde do outro lado,
Que os pássaros não cantam apenas quando enjaulados,
E que a liberdade é algo que precisa sempre ser conquistado,
Será que mesmo assim você teria medo de esquecer?
Se não ignorasse que é importante dizer o que se pensa sempre,
Que as oportunidades não surgem sem um motivo aparente,
E que se deve a todo custo procurar seguir em frente,
Será que mesmo assim você teria medo de enlouquecer?
Se não esquecesse que ter alguém ao lado é essencial,
Que, quando se gosta, ignorar pode ser fatal,
E que o amor à primeira vista é algo real,
Será que mesmo assim você teria medo de querer?
Se pensasse que vencer em tudo não é necessário,
Que ter amigos ao seu lado é ser por eles estimado,
E que sozinho não se passa por nenhum obstáculo,
Será que mesmo assim você teria medo de perder?
E se um dia você dormisse e o mundo acabasse como um nada?
E se um dia você acordasse e visse que o mundo não era como você imaginava?
Se descobrisse que o céu é vermelho, como se feito de fogo,
Que as nuvens são amarelas, como se pintadas a dedo,
E que os mares são negros, como se escurecidos pelo medo,
Será que mesmo assim você teria medo de viver?
Se percebesse que as pessoas ao seu redor são foscas,
Que os carros que passam nas ruas são lentos,
E que a palavra é a maior arma de todos os tempos,
Será que mesmo assim você teria medo de correr?
Se acreditasse que a vida não é mais do que um estágio,
Que os seus sentimentos não são feitos para serem desprezados
E que a dor da perda não é algo que ocupa pouco espaço,
Será que mesmo assim você teria medo de sofrer?
Se entendesse que a grama não é mais verde do outro lado,
Que os pássaros não cantam apenas quando enjaulados,
E que a liberdade é algo que precisa sempre ser conquistado,
Será que mesmo assim você teria medo de esquecer?
Se não ignorasse que é importante dizer o que se pensa sempre,
Que as oportunidades não surgem sem um motivo aparente,
E que se deve a todo custo procurar seguir em frente,
Será que mesmo assim você teria medo de enlouquecer?
Se não esquecesse que ter alguém ao lado é essencial,
Que, quando se gosta, ignorar pode ser fatal,
E que o amor à primeira vista é algo real,
Será que mesmo assim você teria medo de querer?
Se pensasse que vencer em tudo não é necessário,
Que ter amigos ao seu lado é ser por eles estimado,
E que sozinho não se passa por nenhum obstáculo,
Será que mesmo assim você teria medo de perder?
E se um dia você dormisse e o mundo acabasse como um nada?
Assinar:
Postagens (Atom)
