domingo, dezembro 15, 2013
Domingo, 22h20
domingo, outubro 27, 2013
Filme Noir
sábado, agosto 10, 2013
Invernos
(Mas como nunca gostaria de ter)
domingo, maio 12, 2013
Partir, andar, um lar, adeus
Ela precisava ir. Já não tinha mais fôlego, já não sentia mais pulsar sua vontade. Apesar disso, seus passos eram firmes, bem como sua decisão. Comprara um bilhete, tinha um destino. Ficar não lhe cabia agora. Aquele lugar não mais bastava. Aquele amor não mais existia. Não havia nem o que deixar para trás. Mas o dia era claro, e a luz era inimiga da fuga. Como sair sem ser notada? Como partir sem dizer adeus? Não suportaria as lágrimas da despedida. Estava preparada para tudo, menos para o apelo. Por isso, queria a noite. O escuro, o silêncio. O cúmplice dos amantes, o refúgio dos solitários. No entanto, as horas lhe sobravam, em eternidade circular. Arrumara e rearrumara todos os itens. Refizera todos os passos. Faltava apenas cruzar a porta. Lá fora, a liberdade a esperava. Uma nova vida de dúvidas e experiências. Fora do conforto. Fora do banal. Fora do óbvio. Enquanto isso, ele ainda seguia. Certo de que nada acontecia, satisfeito em seu pequeno universo. Incapaz de temer o girar da chave. E ela ali, olhando pela janela a vida lhe passar. Pensou em uma música e uma lágrima escorreu em seu rosto. Fraca. Suas mãos procuraram os bolsos, nervosas. Forte. Não cabia mais esperar. Aproximou-se da saída. Ele a chamou.
segunda-feira, fevereiro 04, 2013
Da ausência e do silêncio
terça-feira, janeiro 08, 2013
Do zero ao zero
sexta-feira, dezembro 21, 2012
Mora
quarta-feira, novembro 28, 2012
Casanova lament
Ela caminhou firme enquanto ele a via partir, já de dentro do carro. Não houve olhar para trás. Mas ele, como ninguém, sabia que tinha deixado o momento escapar. Perdera a cena perfeita. Logo ele, tão afeito à ficção que vivia a sonhar com algo assim. Logo com ela, recém-saída de suas páginas para a vida. Falhara?
Sim, falhara. Ainda que, romanticamente, pudesse pensar que o retardar tornava a conquista mais valiosa, sabia que não conseguiria dormir com a angústia do não ocorrido. Pensou em telefonar, descer do carro, enfrentar a tempestade. Mas a esquina já ia longe, e o beijo também. Resignou-se. O abraço seria tudo que teria para lembrar.
"O senhor quer um pouco de ar?" - o taxista ainda comentou.
"Você não imagina como..."
terça-feira, novembro 13, 2012
Candelabros
sábado, outubro 13, 2012
terça-feira, agosto 21, 2012
quarta-feira, junho 20, 2012
Então ele descobriu a dor do silêncio. Nunca havia ansiado tanto por palavras até se deparar com a frieza da mudez que dela emanava. Não era constante, verdade. Mas a cada vez que os sons desapareciam, sua alma se enchia de uma angústia que parecia não ter fim. Por isso, precisava falar. Dizia tudo o que pensava, o que sentia, o que sequer sabia sentir. E preenchia os vazios com toda sorte de vocábulos, como se pudesse expressar o mundo por meio deles. Nada mais inútil. Palavras não são capazes de abarcar o que vem de dentro, e os gestos que rareiam quando ele prefere (se) explicar são aquilo que ela mais deseja ter. E então vem o abismo, a distância, o desencontro. Porque ingênuo é aquele que acredita que nas diferenças é que se encontra o complemento. Não. É preciso o par, o igual, o um-para-o-outro. Caso contrário, o silêncio vira regra, o vazio vira lógica, a dúvida vira certeza. E isso, eles sabem, é menos do que eles podem construir.
domingo, abril 08, 2012
Ela se sentou de novo naquele café de rua e suspirou. Olhar pelo vidro o velho cinema abandonado, lugar de tantas memórias, era entrar em contato com sua primeira infância, aquela em que as cores e os cheiros eram únicos e, por isso, inesquecíveis. Já ia longe o tempo, e a vida agora era tomada de preto e branco, inodora, típica da mediocridade dos dias adultos. E assim carregava em seu semblante o pesar de quem lamentava a passagem dos anos, bem diferente do brilho que sobressaía de seu olhar em fotos de quando era pequena. Com as memórias se consolava, deixando a realidade distante de si.
Sonhava.
Talvez por isso não tenha contido o sorriso ao avistar aquele senhor vendendo balões de gás em frente à bilheteria, como se a qualquer momento uma fila de pequeninos fosse se formar transbordando genuína alegria. Talvez por isso as lágrimas tenham rolado de seu rosto quando o pipoqueiro de cabelos grisalhos mais uma vez chegou com seu carrinho. Talvez por isso as luzes que se acenderam do outro lado da rua tenham iluminado sua face como da primeira vez que as vira.
Vivia.
O café já não a esquentava mais. As vozes já não mais ecoavam no salão. Suas mãos, antes trêmulas, eram firmes novamente. Levantou-se. A cada passo, sentia o mundo crescer à sua volta. Os carros em velocidade baixa, as árvores verdes, o ar puro. Corria livre, sem o peso que a idade lhe trouxera. As crianças, de repente, tomavam a rua, felizes como sempre devem ser. Havia música, e por isso bailou mais uma vez. Os olhos fechados, os braços abertos, o coração preenchido. A pipoca, o balão, as luzes.
O filme.
O fim.
quinta-feira, janeiro 19, 2012
Quando ela apareceu e ele se viu completamente perdido, o universo parecia comum. Havia sol, havia árvores, havia vida. Só não havia ar. E então ela foi entrando, tomando conta, arrastando tudo como uma vaga do mar em tardes de inverno. A ele, apenas restava tentar colocar a cabeça para fora d'água e respirar, já que ir contra a correnteza de nada servia. Por isso, acabou se deixando levar e, quando viu, não podia manter mais os pés em terra firme. Enquanto isso, ela parecia sumir e voltar, seguindo a intensidade do oceano. Ali, o mundo era mudo. Ali, o coração era surdo. Às vezes ele tentava nadar em sua direção, crendo que era possível chegar até ela. Porém, o esforço era inútil, e o mar cismava em a deixar longe demais. Então ele saía da água, querendo fugir, mas descobria que o frio que fazia lá fora era mais do que podia suportar. E assim seguiam a luta; ele, nadador desesperado; ela, porto inatingível. Alguns diriam que havia poesia nesse bailar. Outros, que havia somente esforço inútil para não se afogar. Mas a verdade é que, enquanto ela se afastava, ele continuava a insistir. E cada braçada que dava no mesmo lugar não era um esforço para avançar – era apenas a vontade de a trazer até ali, sonhando com o dia em que a maré pudesse virar.
quarta-feira, novembro 16, 2011
Quando ela o olhou e disse “aquela noite nunca existiu”, ele temeu por suas lembranças. Que ela levasse seus planos, vá lá. Mas que o destituísse de suas memórias, isso não podia consentir. Era como se acostumara a viver, e não era justo pedir que não o fizesse agora. Ainda tinha os cheiros, a música, o toque. Já não tinha esperanças brancas. Fechou-se.
“Acredite, nós sequer tivemos juntos”. Os olhos dela eram sérios, não havia titubear naquelas palavras. Era o seu abandono, a sua liberdade, enquanto pedia a ele que afogasse o que restara de si. Ela não sorria, já não sabia mais como o ser. Era outra, ainda que a mesma. Não tinha as dores, as alegrias, as vontades. Tinha o cinza dos dias nublados. Fechara-se.
Aquela manhã não passaria. Aquela tarde não deveria chegar. Só a noite, passado-presente, cismando em voltar. E ela pedia que esquecesse. E ele tentava desaprender a sonhar. Como dois, eram nada. Cada um estava só. Deixaram-se.
Com a certeza de quem vive de dúvidas, ele se pôs a caminhar para as cores de um outro lugar, enquanto a noite se encerrou nela com a escuridão de quem não olha para trás. Calaram-se.
Nada tinha existido. Nada valia insistir.
“Desculpa, eu nunca estive aqui.”
Foram-se assim.
quarta-feira, novembro 02, 2011
(Para ella)
Escucha tu voz. Es la misma que, un día, dijo “te quiero”. Ahora tienes miedo. Quizás porque fui un tonto y no lo dije también. O porque creí que no decías la verdad y, por eso, elegí salir de tu vida. No lo sé. Estoy lejos y todo ha cambiado aquí. Los que me conocen desde hace pocos meses piensan que soy un hombre feliz (aunque, a veces, te eche de menos y necesite llorar solo en mi habitación). Pero no es verdad. Soy un cobarde. Nada de lo que era cuando estábamos juntos. Un tonto, un salvaje. Aquel que no puede acceder a sus sentimientos. Joder! Estas aquí, una vez más. Y puedo tomar tus manos, mirar tus ojos, olvidar nuestros errores. Empezar una nueva vida. Por que no puedes creer que esta es nuestra última oportunidad? Por qué no intentarlo? Escucha mi voz. Es la misma que, un día, dijo “te quiero”. Y la misma que va a decir eso por muchos años más, hasta que las luces se apaguen y se calle la música. Porque esa es la historia que me gustaría escribir. Estoy listo. Vienes conmigo?
sexta-feira, setembro 30, 2011
O silêncio era longo, tão longo quanto a distância que ela havia colocado entre nós. Nem a mesma música tocava mais, cansada que ficou de ecoar suas notas em um coração vazio. Era um deixar de existir quieto, furtivo. Um apagar. Como se estivesse fugindo dela e, assim, de mim mesmo. Para encontrar um lugar longe do preto-e-branco da vida comum. Para descobrir um canto onde eu mesmo quisesse estar. Mas sempre existe a lembrança do beijo, e assim ela acaba por voltar. E dá cores para um mundo sem vida, põe música onde a quietude deveria reinar. Insuportável. Porque a alegria da lembrança esconde a realidade solitária, aquela que tenta ser aplacada com filmes, discos e livros – que passam por mim sem dizer nada também. Assim eu continuo acreditando, mesmo sem saber no que devo acreditar. São referências, vontades, momentos a compartilhar. Enquanto isso, o silêncio é longo. Enquanto isso, a vida insiste em passar.
Ela só está feliz quando chove. Eu só fico triste por não saber como fazer para que o fim não seja sempre igual. E logo me conformo com pontos finais quando as reticências precisariam existir. Quando é ela, acontece; na dúvida, não falo, e tudo fica quieto lá fora, enquanto o barulho que surge aqui dentro parece querer me matar. E ela está longe demais para ouvir.
Eu nunca gostei de pausas longas. Por isso, ela precisa voltar.
(mas não vai)
sexta-feira, setembro 09, 2011
“Então você prefere que eu minta para você?”
Ele não sabia o que responder. Um pouco por não saber mais o que havia sido verdade em toda aquela história, outro pouco por não saber se queria continuar a se enganar. A verdade é que sempre viveram farsas, desde o dia em que se conheceram até a tarde em que se despediram, e não parecia fazer sentido buscar algo fora do comum agora. Talvez por isso tivesse vontade de perguntar a ela que diferença faria se ela mentisse mais uma vez.
“Eu quero que você seja sincera.”
Ela já havia sido. O problema é que ele não aceitava, dizendo que era impossível tudo o que ela disse um dia ser tão forte e tão exato ter se acabado assim. Mas acabou. Ela não mentia. Não agora. Foram uma farsa por muitas vezes, talvez todas, revestidos de casal-perfeito-que-está-sempre-feliz, só que não dava mais para seguir. Por isso, a recusa. Por isso, a despedida. Abandonar parecia uma saída; ficar junto, um martírio. Tinha certezas. Não tinha coragem.
“Já não sei mais o que fazer.”
Então não faz. Fica aqui. Deixa como está. Vamos tentar de novo. Pode funcionar. A gente aprende com os erros. Temos tantos planos. Nosso sexo é bom. Nossas famílias se adoram. Nossos amigos não querem se separar. Queremos um cachorro. Não queremos filhos. Você foi feita para mim. Eu não me vejo sem você. Não vai embora. Não desiste agora. Não faz assim.
“Nem eu.”
Por favor, desiste. Eu não sirvo para você. Sou ruim. Sou insensível. Prefiro viver só. Nunca vai funcionar. Por isso eu menti. Por isso eu preciso partir. Não temos mais nada a construir. A sua vida vai se ajeitar. Seus amigos vão estar com você. Compra uma passagem. Faz uma viagem. Descobre o seu mundo. Não fica por aqui. Não baseie sua existência em mim.
“É melhor eu ir.”
Vocês não podem sair assim. O que vai restar daqueles que ainda acreditavam no amor? Dos que viram a relação crescer? Dos que apoiaram, insistiram, ouviram, falaram? Não é justo, não acham? Vocês podiam tentar mais. Vocês tem tudo para dar certo. Não se abandonem. Não desistam. O amor salva tudo. E vocês têm o principal. Fiquem. Por favor.
“É melhor eu desistir.”
Um dia vocês vão se arrepender.
sexta-feira, agosto 12, 2011
Ela finge que sorri, ele finge que acredita. E assim vão levando mais uma relação que, fadada ao fracasso, insiste em permanecer apenas para evitar os dias de solidão. Por isso, seguem o teatro do cotidiano: investem nas aparências, ignoram o não-sentir.
Em parte das vezes, ela pensa que é por toda a história juntos. Em outras, é ele quem se convence de que não encontrará nada melhor. A verdade é que sempre é pouco, irrelevante, inadequado. Ou apenas fraco, o que, por si só, já basta. São reféns daquelas situações em que só se pode rir porque ambos não percebem o óbvio. Vítimas de momentos em que não se reverte o que está sacramentado. Culpados de uma vida a dois sem graça.
Eles não tentam, apenas estão ali. Não querem estar. Só não sabem como não o fazer. Porque ficou tarde. Porque ficou complicado recomeçar. Porque preferem o igual. Porque gostariam de voltar a gostar. Porque é da natureza deles se acostumar. Simples assim. Um estar na vida sem a vivenciar.
(Perdendo tempo e vontade para quê?)
Ela finge que vai embora, ele finge que não se importa. Mas amanhã estarão no mesmo lugar.
quinta-feira, julho 21, 2011
E então você retornou às palavras daqui. Não precisa temer – desta vez elas não saem como lágrimas, são parte do sorriso que, um dia, foi capaz de brotar em meu rosto por sua causa e agora se encontra expresso outra vez. Não é uma novidade que o tempo faz isso com as pessoas, porém é bom constatar que tenha sido logo com você. Porque era a peça que faltava, a parte que não podia deixar de existir. Só assim os traumas viram piadas, as lembranças não viram saudades e a gente pode seguir em frente. Transformar. É o perdão ser óbvio, é a presença ser constante. É o amor ser nosso, é a vida ser aqui. Nada distante, nada ausente. Passos dados juntos como um dia prometemos fazer.
“Um dia desses eu me caso com você...”
Não, não foi. E quem precisava?
De novo, somos nós. No lugar que reencontramos. Do jeito certo que antes não entendemos. De uma forma que não pode deixar de ser.
Seja bem-vinda de volta.
sábado, julho 09, 2011
Obrigado por ter vindo. Eu sabia que você logo encontraria o seu lugar e me daria o meu. Sabia que ia ficar completo, que seria compartilhado, que dois poderiam virar um. E foram assim os poucos momentos em que tive você por aqui. Houve sorrisos, palavras, pensamentos. Houve acordar, dormir, experimentar. Ignorei o que podia, relevei o que devia, sonhei o que queria. Foram bons, ainda que poucos. Seriam melhores, se tivéssemos mais. Mas existia muito em jogo, e nada do que parece certo importa se você parece apenas do errado lembrar. E o silêncio incomoda. E a saudade aumenta. E a ausência vai ficar. Como o texto que não publiquei. Como as ideias que não vão se concretizar. Obrigado por ter vindo. Sinto muito por me deixar.
terça-feira, junho 21, 2011
Assimilo o golpe e me afasto para respirar. Foi-se o tempo em que eu me esquivava de cada cruzado que você desferia; agora prefiro deixar a cara exposta para ver se a porrada é tão certeira a ponto de me fazer apagar de vez – quem sabe a memória, quem sabe você. Mas a dor física é igual à psicológica, e só repito que preciso suportar. Quando percebo, estou no centro do ringue de novo, desafiando você sem sequer ter forças para me defender. Enquanto isso, você arma sua guarda para um eventual ataque meu, como se não soubesse que sou incapaz de partir em sua direção. Extasiado, percebo sua troca de guarda, e ao invés de amedrontar, a violência dos movimentos me faz pensar na leveza de seu corpo quando o tinha junto a mim. E assim tento puxar você de volta, freando a luta com um abraço, do qual você se desvencilha e responde com uma nova investida. O golpe agora é mais duro, e fico tonto, quase sem pensar. Mas quando meus olhos focam outra vez, consigo perceber o seu sorriso, que já traduz uma superioridade que não consegue me incomodar. Sou aquele que já não pode lutar, por fim. O último me joga à lona tão fortemente que o som é seco. Enquanto a contagem soa longe, vejo seus braços levantados e me pergunto qual vitória faz você vibrar. Afinal, não existe platéia a aplaudir nem troféu a erguer. Fecho os olhos, cansado, querendo ficar ali para sempre, esperando que o despertar leve junto qualquer lembrança de nós dois. Porque, no final, quem vai perder é você.
quinta-feira, junho 02, 2011
Às vezes eu busco botar um pouco de felicidade em mim. Ouço uma música, vejo um filme, leio um livro. Mas parece que sempre existe algo aqui dentro que atrapalha todo o plano, que me faz lembrar que a tristeza é regra, e não exceção. E assim um texto novo brota, fruto de uma inspiração que eu adoraria não ter. E com ele vem a saudade, a ausência, a angústia – só não vem você, seja lá quem você for. Nunca sabemos, não é?
Reluto, insisto, paro de escrever. É quando vejo que há uma parte do que eu sou que precisa sair, e as palavras são a maneira que encontrei para isso acontecer.
É sempre assim.
Não sei se porque as lágrimas já rarearam, não sei se porque os suspiros já silenciaram.
Talvez porque a sua voz eu nunca (mais) ouvi.
Eu só sei que escrevo. Não aprendi a dizer.
E no papel encontro o remédio para a solidão que eu cansei de sentir.
terça-feira, abril 26, 2011
“Tudo fica”, você costumava dizer. As palavras ditas, os momentos vividos, os sentimentos compartilhados. Coisas assim. E o esforço de apagarmos os rastros de nada costuma adiantar. Mas admiro você por tentar viver como se nada tivesse acontecido. Deve ser alguma espécie de talento esse que você tem de ignorar por completo toda uma existência a dois. Eu, infelizmente, ainda não o desenvolvi. Deve ser por esse motivo que a foto continua ali na mesa, e o cd que ouvíamos antes de dormir nunca saiu do aparelho de som. Enquanto isso, imagino que na sua casa o quadro branco não tem mais a minha declaração, e que o filme que perdíamos tardes revendo já virou mero adorno em uma prateleira esquecida. Talvez nem mesmo o espaço vazio que tantas vezes você alegou não suportar ainda exista aí. É tudo uma farsa tão grande assim?
Não sei se quero saber.
Ok, tudo fica - mas o quê? O vazio, a mágoa, a angústia? A solidão, a tristeza, o medo? Eu? Porque você pode ir, já foi, não vai voltar. E o que restou aqui é parte de um passado que o presente não quer esquecer. É lembrança, vontade, esperança, teimosia. É vão (se vão). Agora você é isso.
E eu não sei se quero você.
sexta-feira, abril 01, 2011
Nunca mais eu disse seu nome. Não porque tenha desaprendido, ou porque tenha sido capaz de esquecer, e sim porque cada letra que ia se somando até chegar à palavra final saía de mim arrancando um pouco de tristeza que eu não queria mais sentir. Mas hoje, quando olhei sua foto, ele saltou de minha boca num suspiro, forte e quase automático, e não pude impedir o coração de sangrar. Meus olhos, enciumados, verteram lágrimas também, e logo meu corpo todo era uma solidão só. Tentei colocar outras palavras para fora, ocupar os buracos com qualquer nome, porém às vezes o vazio que dá na gente é logo daquilo que um dia escolhemos não ter. Por isso, eu odiava seu nome, e tremia toda vez que ouvia alguém o dizer. Agora, me pego escrevendo-o incontáveis vezes numa folha de papel qualquer que encontrei por aqui. Como se a repetição fosse enfim o apagar. Como se cada letra que sai da caneta me fizesse te abandonar. Como se a escrita ajudasse a me calar, ainda que só para mim. Como se a ausência significasse que nunca existiu.
Mas não foi assim. Talvez não seja assim.
Hoje, quando olhei sua foto, seu nome voltou a soar por aqui. E tudo que eu queria era que você tivesse sido capaz de ouvir.
terça-feira, março 15, 2011
Perdi a conta de quantas vezes eu me disse para não esperar. Apesar disso, segui tentando, na expectativa de que um dia algo fosse ser diferente. Mas palavras são sempre palavras, e quando há distância envolvida, elas podem se perder no ar da mesma forma que são lançadas, sem controle ou direção. Na verdade, a gente sabe que o sentido está ali, ainda que ele só se faça quando desejamos que seja assim, o que tem sido cada vez mais raro entre nós. Em outros tempos, já não importava a língua, a grafia, a tinta – bastava a nossa vontade de nos fazer entender. Agora, o seu silêncio é mais forte que o seu olhar, e sentir você longe vai além de qualquer separação geográfica. Talvez seja o resultado do que não plantamos, do que não tivemos coragem de arriscar. Talvez seja o caminho inevitável, uma vez que o impossível foi a tônica desde o primeiro momento em que nos vimos. Difícil saber, tanto quanto é difícil aceitar.
Eu chamo você de longe. Eu não escuto você me chamar. O tempo age. O sentir se (es)vai.
Apenas a lembrança a resistir, marcada em uma foto para a qual não consigo parar de olhar.
- E que insiste em querer fazer tudo voltar.
domingo, fevereiro 06, 2011
O metrô esvaziou. Quando percebeu, seus olhos já pairavam sobre ela. De repente, os olhares se cruzaram, mas ele não acreditou na correspondência e mirou algum outro ponto do vagão. No entanto, a todo instante a procurava de novo, e a cena se repetiu mais algumas vezes. Uma. Duas. Três estações. Entra um grupo de meninas. Falam alto, incomodam. E estão ao lado dela, que tenta fugir com os fones de ouvido. A ele, tudo o que resta é ficar ensurdecendo. Mas ela repara na cara de desaprovação dele e sorri. Ele corresponde, vendo que ela também se aborrecia com as adolescentes. Já é certeza que seus olhares estavam se esbarrando por vontade mútua. Ele pensa em ir até ela. Não vai. Ela também permanece no seu lugar. Faltam três. Duas. Uma estação. Ele precisa descer. Ela não está olhando. Na plataforma, ele vira para trás. Ela observa, esperando uma mudança de plano. A porta se fecha. Eles nunca mais vão se encontrar. Durante a noite, ele vai se arrepender por não ter dado aqueles poucos passos. E vai torcer para que a partida de futebol sirva para consolar.
(Mas este texto já diz que não)
segunda-feira, janeiro 03, 2011
Sempre gostei desse sorriso que se abre fechando os seus olhos já pequenos, parecendo iluminar seu rosto de tal forma que poderia fazer com que você enxergasse mesmo assim. É engraçado, porque, quando isso acontece, você perde um pouco da beleza séria que me conquistou desde o primeiro instante em que vi, sentada naquele banco, mirando o horizonte como se houvesse respostas para quaisquer dúvidas ali. E me lembro de que você, muito tempo depois, falou que não havia uma preocupação naquele instante, ainda que tenha sentido um conforto maior quando sentei ao seu lado e perguntei se podia ajudar você a procurar o que quer que fosse que estava conquistando o seu olhar. Era uma quinta-feira, acho que chovia, mas nunca consigo precisar. A verdade é que você não se levantou depois de alguns minutos em que, juntos, contemplamos o céu que nada dizia, e eu achei que aquilo podia dizer algo. Quando nos despedimos, o seu sorriso quis aparecer, porém não era a hora. Como não o conhecia, não sabia ainda como seria difícil ficar sem tê-lo em minha vida. Agora, depois de tantas vezes em que brotou espontaneamente, estranho a ausência, e me deparar com ele nessa velha fotografia que cisma em me encarar não traz qualquer tipo de alívio. Porque não vejo os olhos se fecharem, não ouço o som baixinho da sua risada nem sinto o seu respirar leve. Porque ele não se desfaz em seguida para dar lugar a um olhar carinhoso e uma expressão apaixonada. Porque ele eterniza o que nunca deveria ficar estático. Porque ele é só uma imagem, como aquela que você procurava no dia em que nos conhecemos. E que, nós sabemos, nunca estará ali, porque não existia. Sempre gostei desse sorriso. Sempre acreditei que ele só era para mim. Agora é hora de eu aprender a sorrir assim.
sexta-feira, novembro 26, 2010
Ando devagar. Não tenho pressa de chegar. Aprendi com você a olhar para os detalhes do caminho e sentir cada passo que é dado sem compromisso. Por isso, nem a chuva fina e gelada que cai agora chega a me incomodar. “É tudo parte de algo maior”, posso ouvir você dizer, com aquele ar ingênuo que tanto me agradava. Esqueço. Prefiro atentar para a música que soa distante, como se convidando para repousar em algum canto.
Há uma casa. Ainda é longe, mas posso ver as árvores no quintal e os poucos movimentos das roupas no varal. A chuva aperta. A vontade de correr não chega. Alguém abre a porta e corre para retirar as roupas. Ouço os cachorros latindo, fora do tempo da música. A cena é bonita. Nem percebo quando a terra vai virando lama - meus pés pesam, como se me fincassem ao chão. Na verdade, eu não ligo. Sou parte deste lugar. Você, não.
Penso devagar. Respiro rápido. É tudo mais simples agora.
A música se perde no ar, ainda que persista em mim.
quinta-feira, outubro 21, 2010
Às vezes ainda sou capaz de ouvir sua voz falando baixinho bom-dia no meu ouvido e volto a sentir meu coração batendo acelerado, igual a quando eu imaginava que era assim que queria acordar pelo restante da minha vida. Nem parece que foi há tanto tempo que você deu boa-noite e subiu, me deixando sozinho no carro com um longo caminho até minha casa e uma solidão que parecia nunca mais ter fim. Sua voz ainda é nítida, meu coração ainda faz o peito doer. Mas não há saudade. Talvez lembrança, mas a ausência não é mais sentida. Porque o tempo ensina a se acostumar com o vazio, e a gente aceita, finalmente, que a presença nem era tão importante assim. É mentir para si mesmo. Tanto antes, quanto durante. Até depois. Segredo para fazer dar certo, dizem. Eu nunca soube, então o que falo deve ser verdade. Também o que eu sinto. Por isso a sua voz é nítida, mas o seu rosto já se foi. E se meu coração ainda acelera, pelo menos o seu cheiro já se dissipou no tempo. Agora é só a memória, em uma das caixas que você me ensinou a reservar para cada um que passa por nós e vai, assim, sem ter um porquê. Como você, que até hoje eu não entendi porque veio ou como se foi. Só que não está aqui – e que é melhor assim. Assim os dias podem ser bons, não é?
segunda-feira, agosto 16, 2010
Paralelos
Quando a frente fria que caía sobre a cidade se dissipou, deixando apenas em mim o gélido sentimento de ausência, parecia que começar o dia seria a tarefa mais difícil. Havia silêncio ao meu lado, e nem cada passo dado, ecoando no quarto semi-escuro, era capaz de preencher tamanho vazio. O café da manhã não precisava ser preparado – comer na cozinha era uma saída para não lidar com a segunda cadeira inerte junto à mesa da sala. Também não fazia sentido ter duas toalhas, duas escovas de dentes, dois pares de pantufas. Era tudo velho de novo.
Foi assim que aprendi que não éramos mais dois que se tornavam um. Ao contrário, agora era eu quem me dividia em partes: uma, insistente, queria que você voltasse. Já a outra, coerente, desejava nunca ter tido você aqui. Enquanto isso, em você já havia quase dois novamente, vida que segue como deve ser. Por isso, eu precisava acordar e levantar, começando, devagar e sem vontade, a voltar para mim.
Mas ainda não sabia por onde ir.
quarta-feira, julho 28, 2010
Sobre recomeçar
Se fosse possível mudar a sequência dos fatos ou quebrar a linearidade do tempo, talvez hoje nós não estivéssemos assim. Mas, refém que somos dos nosso próprios passos anteriores, apenas desejamos que a vida tivesse nos dado um caminho diferente, para que hoje não fossemos tão duros ao ponto de não nos vermos mais um ao lado do outro. Quem sabe assim não falaríamos em tom de despedida, nem evitaríamos o abraço com medo de que ele fosse o último. Trocaríamos as dúvidas por certezas e daríamos à felicidade a chance de se manifestar como há muito ela pedia. Seríamos nós, por fim.
Se fosse possível acreditar que se é capaz de mudar.
sexta-feira, junho 18, 2010
Através do espelho
Duas vezes não foram suficientes para ele aprender que não devia insistir. Foi preciso que a mágoa falasse mais alto, que as palavras fossem duras, que as atitudes fossem incompreensíveis. Foi preciso que doesse como nunca havia doído, que a saudade se transformasse em raiva e que a lembrança dos momentos felizes fosse ofuscada pela consciência da tristeza constante. Foi preciso entender que o que parecia certo era, na verdade, o seu maior erro. Foi preciso odiar para superar. Foi preciso sentir para esquecer. Foi preciso chorar para não amargar. Foi preciso mentir para si.
Foi preciso ir.
segunda-feira, abril 12, 2010
Periódico
Quando soube de você a primeira vez, algo me dizia que não seria algo irrelevante. E ainda que não fosse manchete de jornal ou chamada na televisão, a notícia de que você existia ficou gravada em minha memória de tal forma que, por muito tempo, qualquer outra que surgisse parecia competir por um espaço em uma página praticamente preenchida.
Com o tempo, a tinta foi se apagando, e a folha que antes imprimia uma grande verdade, foi se perdendo como papel velho e inútil. A partir daí, decidi que não mais leria as novidades como se fossem únicas, deixando que elas soassem como fatos requentados que se fazem clichês a todo instante. Fui perdendo, então, aquelas notícias que as pessoas sorriem quando recebem, quase não acreditando na sorte que tiveram. Também abandonei aquelas que demoram a chegar, por serem exclusivas e definitivas. Por último, deixei para depois aquelas que sempre esperamos que um dia nos dêem, de modo que nos arrebatem e nunca mais nos esqueçamos delas. Passei, então, a colecionar aquelas que eram ruins, que por opção jamais deveríamos querer saber, mas, ainda assim, insistimos em procurar. Aquelas que pesam as páginas do jornal em uma manhã de 2a feira cinzenta.
E assim tudo caminhou.
Não faz muito tempo, uma notícia chegou aqui. E eu sei que, dentre todas, são as ruins as mais fáceis de nunca se esquecer. Talvez por isso, não tenha mesmo dado muita atenção quando ela se anunciou. Eu ainda esperava aquela mesma, que recebi há tanto tempo, e nunca pude esquecer. Aquela que me dizia que nada seria à toa ali, entre nós dois. Aquela na qual valia a pena acreditar.
Pode ser besteira, tudo bem. Mas a verdade é que, desta vez, o que eu queria era que fosse eu a boa notícia que chega agora para você.
segunda-feira, abril 05, 2010
Pequena história de um só fim
Quando a última pedra se encaixou e a calçada tomou forma, os passos que foram dados ainda eram incertos. Terreno novo, pouco firme, toda cautela era necessária. Mas bastou que alguma segurança tomasse conta para que ele corresse como criança despreocupada que era, achando que não havia perigos em fazer aquela travessia. E então foi se afastando, sempre em direção ao infinito. Não havia pressa de chegar porque o fim parecia não existir.
Ele se via ao longe. Sentado, admirando aquele ímpeto que já fizera parte de si. A poltrona era confortável, o ar não parecia pesar. Em dado momento, virou apenas um ponto no horizonte. Sorriu. Hoje ele sabia o que o esperava depois da curva que ainda seria descoberta, alguns metros adiante. E tinha a certeza de que aquela corrida, aquele coração batendo rápido, aqueles olhos brilhantes, mereciam o destino que o esperava.
“Por que você não pára e brinca um pouco aqui comigo?”
“Um dia desses eu me caso com você...”
E foi assim. Não foi?
