Domingo, Fevereiro 06, 2011

Valsa de Barcelona

O metrô esvaziou. Quando percebeu, seus olhos já pairavam sobre ela. De repente, os olhares se cruzaram, mas ele não acreditou na correspondência e mirou algum outro ponto do vagão. No entanto, a todo instante a procurava de novo, e a cena se repetiu mais algumas vezes. Uma. Duas. Três estações. Entra um grupo de meninas. Falam alto, incomodam. E estão ao lado dela, que tenta fugir com os fones de ouvido. A ele, tudo o que resta é ficar ensurdecendo. Mas ela repara na cara de desaprovação dele e sorri. Ele corresponde, vendo que ela também se aborrecia com as adolescentes. Já é certeza que seus olhares estavam se esbarrando por vontade mútua. Ele pensa em ir até ela. Não vai. Ela também permanece no seu lugar. Faltam três. Duas. Uma estação. Ele precisa descer. Ela não está olhando. Na plataforma, ele vira para trás. Ela observa, esperando uma mudança de plano. A porta se fecha. Eles nunca mais vão se encontrar. Durante a noite, ele vai se arrepender por não ter dado aqueles poucos passos. E vai torcer para que a partida de futebol sirva para consolar. 

(Mas este texto já diz que não)

7 comentários:

JuLopes disse...

você tem mesmo que parar de dar mole nessa vida, meu caro. pelamordi.

Anônimo disse...

Engraçado ler esse texto depois de ter lido "Quebre o Vidro". Parece que você é mais cauteloso do que imagina...

Anônimo disse...

Sempre deixando pra trás os amores de Barcelona... kkkkk

vivian lerner disse...

você nao volta mais?se apaixonou por esse lugar e nao quer mais saber de nada! não vai dar aula esse ano??? beijos to sentindo falta da sua aula!

Anônimo disse...

Só queria que você postasse com mais frequência. Sempre entro aqui na esperança de ler o próximo. Mas sei que isso é pedir demais... :)

@bamoretti disse...

Quando nosso corpo já corresponde automaticamente - nos impedindo de viver fortes emoções - a qualquer coisa que nos abale, que nos tire o fôlego. É mais fácil continuar com o que já está feito e deixamos de viver.

Adorei o texto! ;)

X disse...

Sei bem como é deixar de fazer algo e se arrepender depois. Não porque na hora do 'vou ou não vou' bate uma crise de indecisão tão forte que me impossibilita, mas sim pelo medo, pois este é o que nos torna realmente incapacitados; inseguros de tentar algo pelo (não tão) simples temor à falha, ao erro.

O medo, afinal, é o nosso verdadeiro inimigo.


("The only thing we have to fear is fear it'self", already said Roosevelt.)